“Paixão” virou principal causa de sequestros em MG nos últimos 5 anos
Em quatro anos foram registrados 1.200 casos de sequestro; BH lidera com 247 ocorrências e violência passional preocupa
atualizado
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Belo Horizonte — O sequestro seguido por tentativa de feminicídio ocorrido na Serra do Rola Moça, Região Metropolitana de Belo Horizonte, na última segunda-feira (25/5), chocou Minas Gerais e trouxe novamente à tona a gravidade da violência de gênero no estado. Dados do Observatório de Segurança Pública de Minas Gerais revelam que, entre 2022 e o início de 2026, foram registrados 1.200 casos de sequestro e cárcere privado no estado, sendo que 357 foram por motivo passional.
Do número total, 1.166 foram consumados e 34 tentados. Belo Horizonte lidera a estatística mineira com folga, registrando 247 casos no período, sendo 61 por motivos passionais.
De acordo com Ludmilla Ribeiro, professora do Departamento de Ciência Política da UFMG e pesquisadora da Rede Feminina de Justiça e Segurança Pública, o cárcere privado e o sequestro de mulheres em Minas Gerais resultam da combinação entre ciúme possessivo e a maior independência feminina conquistada nas últimas décadas.
“No Brasil, que ainda carrega valores mais conservadores, próximos aos das décadas de 1970 e 1990, muitos homens esperam que a mulher permaneça submissa, restrita ao espaço doméstico”, explica a especialista.
Essa expectativa, muitas vezes reforçada por interpretações religiosas, entra em conflito com a autonomia feminina, gerando tentativas de controle por meio do cárcere privado — como trancar a mulher em casa, controlar suas finanças, confiscar o celular e impedir sua circulação.
2026: um ano que já preocupa nos primeiros meses
Somente nos primeiros quatro meses de 2026 (janeiro a abril), o Observatório registrou 100 casos de sequestro e cárcere privado. Belo Horizonte novamente desponta com 18 ocorrências, seguida por Uberlândia (6), Ribeirão das Neves (5) e Muriaé (3).
A motivação passional lidera com 32 casos, representando quase um terço do total no período. Os meios de ação mais comuns foram agressão física sem emprego de arma (13), seguida de agressão física com emprego de arma (10). A maioria dos crimes ocorreu dentro de casas (56 registros), reforçando o caráter doméstico dessa violência. Os turnos da manhã (31) e da noite (32) concentram o maior número de ocorrências.
Evolução anual dos sequestros e cárcere privado
A evolução anual demonstra o crescimento da ocorrência desse tipo de crime:
- 2022: 242 registros
- 2023: 241 registros
- 2024: 314 registros (30,3% de aumento em relação a 2023)
- 2025: 303 registros
- 2026: 100 registros (janeiro a abril)
Mesmo considerando apenas os quatro primeiros meses de 2026, o ritmo se mantém elevado em confluência com os dois anos anteriores, indicando que o ano pode igualar ou até superar se a tendência se repetir nos próximos quadrimestres.
Outros perfis de sequestro e cárcere privado
Além do domínio esmagador do sequestro e cárcere privado consumado (1.166 casos), os dados do Observatório de Segurança Pública revelam outros quatro tipos ou contextos relevantes dentro da violência de restrição de liberdade no estado. O sequestro tentado aparece com 34 registros, enquanto os demais casos se distribuem em situações que envolvem diferentes graus de gravidade e motivações.
Quando analisados em conjunto, esses registros mostram que a privação de liberdade não se limita a um único padrão, mas se manifesta de formas variadas em todo o território mineiro.
A possível causa do crime mais frequente continua sendo a motivação passional, com 357 casos no período, seguida por “Não Informado” (294) , “Atrito familiar” (164) e “Vantagem econômica” (63). Isso demonstra que a grande maioria dos sequestros e cárceres privados em Minas tem origem em conflitos afetivos ou domésticos.
Já em relação ao meio de ação do crime, a agressão física sem emprego de arma lidera com 172 ocorrências, seguida de agressão física com emprego de arma (93) e fala/ameaça (93). O tipo de local mais comum é, disparado, a casa/residência (692 casos), o que reforça o caráter intrafamiliar da violência. Outros locais relevantes incluem via de acesso público (248), apartamentos (71) e imóveis em zona rural (61).
Ludmilla Ribeiro destaca que, embora as violências psicológica, física e patrimonial sejam graves, a percepção social sobre esses crimes vem mudando. “Nos anos 1990, grande parte da sociedade não via o cárcere privado como crime. Hoje, as mulheres estão denunciando mais, especialmente quando querem se separar sem perder a vida”, afirma.
Esses números revelam que, embora a residência seja o principal cenário, as ruas e vias públicas também são usadas para abordagem e retenção das vítimas, configurando um risco que extrapola o ambiente doméstico.
Segundo a pesquisadora, as redes sociais têm sido fundamentais para dar visibilidade a esses casos e incentivar denúncias. No entanto, ela alerta para a necessidade de fortalecer redes de apoio. “Assistência social, família e redes comunitárias ajudam as vítimas a romperem o ciclo.”, afirmou.
Violência de gênero que resiste à redução da letalidade
Apesar dos avanços registrados no Atlas da Violência 2026, que aponta queda de 34,5% nos homicídios de mulheres em Minas Gerais entre 2014 e 2024 (de 403 para 264 casos, taxa de 2,4 por 100 mil), a violência não letal — especialmente sequestros e cárcere privado — segue em trajetória preocupante. A forte presença da causa passional nos registros indica que ciúme, posse e controle ainda motivam grande parte desses crimes.
Especialistas destacam que o cárcere privado funciona muitas vezes como etapa anterior ao feminicídio. Quando uma mulher é mantida contra sua vontade, geralmente dentro de casa, o risco de escalada para agressões graves ou letais aumenta significativamente. Os dados mostram que a segunda-feira é o dia com maior número de registros, sugerindo que o retorno à rotina após o fim de semana pode intensificar conflitos.
Serra do Rola Moça: sequestro quase termina em tragédia
Silvanildo Amâncio de Araújo, de 52 anos, sequestrou sua ex-companheira Ana Cláudia Rodrigues da Silva Souza, de 41 anos, a levou até um penhasco e a jogou de grande altura. A vítima sobreviveu após passar mais de 24 horas presa em uma área de difícil acesso e foi resgatada pelos bombeiros. O agressor foi preso na terça-feira (26/5) em Várzea da Palma.
Ana Cláudia foi interceptada quando seguia para o trabalho, no bairro Mangabeiras, em Belo Horizonte. Sob ameaça de faca, foi obrigada a entrar no carro do ex-companheiro. Levada para a Serra do Rola Moça, foi empurrada de um penhasco. Mesmo ferida, ela conseguiu sinalizar para as equipes de resgate.

O episódio ilustra como o sequestro muitas vezes é o primeiro passo para crimes ainda mais graves, especialmente em contextos de violência doméstica. Casos como esse não são isolados e refletem um padrão perigoso identificado nos dados oficiais.
O caso da Serra do Rola Moça serve como alerta vermelho. Enquanto o Estado avança na redução de assassinatos, ainda falta efetividade no combate à violência que antecede a morte. É urgente ampliar redes de proteção, melhorar o monitoramento de medidas protetivas e acelerar o julgamento desses casos.
De acordo com a professora e pesquisadora Ludmilla, do ponto de vista psicológico, muitos agressores, ao participarem de grupos reflexivos da Lei Maria da Penha, reproduzem padrões intergeracionais: “Meu pai e meu avô agiam assim, justificam, influenciados por uma cultura que, desde os contos de fadas e desenhos, retrata o homem somente como salvador e não como autor da violência.”, conclui a especialista.
Enquanto o sequestro e o cárcere privado não forem enfrentados com prioridade, muitas mulheres mineiras continuarão vivendo sob constante ameaça dentro de suas próprias casas.