MG: com palanque de Lula indefinido, Cleitinho avança entre eleitores de esquerda
Especialistas dizem que falta grupo político a Cleitinho Azevedo pode fragilizar candidatura e que pleito pode pressioná-lo para um lado
atualizado
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Belo Horizonte – A cada publicação nas redes sociais do senador e possível candidato ao governo de Minas Gerais Cleitinho Azevedo (Republicanos), a área de comentários é tomada por intenso debate de pessoas de diferentes espectros políticos. Entre eles, um grupo chama atenção: o de pessoas que se dizem de esquerda e ainda assim simpatizam com o político, que já declarou apoio ao pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial.
O doutor em Ciências Políticas Malco Camargos, professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), afirma que o parlamentar mineiro, que é muito popular nas redes até fora do estado, possui características que facilitam a ele esse alcance em eleitores de distintas bases.
“O Cleitinho tem características que são peculiares dele. A primeira é uma simplicidade; a segunda é uma conexão direta com pautas que interessam a esquerda, centro e a direita, e, por isso, ele transita nos vários aspectos ideológicos. A (pauta da redução da) jornada é defensor, contra pedágio, tem propostas e posicionamentos que não é a mesma lógica que a direita do Brasil utiliza nos últimos tempos. Essa adesão a pautas, que independem de ideologia, faz com que ele transcenda”, disse o especialista.
O uso frequente de camisas de futebol, algo predominante nas aparições e vídeos de Cleitinho, e as críticas aos gastos altos relacionados a políticos ajudam nessa relação, menciona o professor. E, diferentemente de outros aliados, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL), o senador não usa tanto da pauta religiosa nos seus discursos políticos, apesar de fazer referências a históricas bíblicas em muitas oportunidades.
Um marqueteiro político, que preferiu não ser identificado por questões profissionais, avaliou que os posicionamentos de Cleitinho “o tornam apenas um populista clássico, que invade o lulismo, mas quando toca o berrante da seita bolsonarista, ele sempre vai atrás. Já fez pedido de desculpas para o Eduardo Bolsonaro, jogou Ypê no rio, ele não sustenta por muito tempo este papel”.
Os caminhos de Cleitinho
O profissional acredita que a disputa ao Palácio Tiradentes pode empurrar o senador do Republicanos para um dos lados, ainda mais se ela for construída como um palanque para Flávio Bolsonaro.
Já Camargo aponta o político como alguém sem um grupo político consolidado, já que ele não é “bolsonarista raiz” e que isso pode ser uma fragilidade para ele em algum momento.
As conexões com petistas
Apesar da proximidade com figuras proeminentes do bolsonarismo, Cleitinho já foi elogiado por importantes quadros petistas, como o pré-candidato ao governo de São Paulo e ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), que elogiou a postura do mineiro por criticar os altos ganhos do topo do funcionalismo público. Já o presidente nacional do PT, Edinho Silva, destacou, em visita a Contagem em março deste ano, que gostaria de conversar com Cleitinho e que isso não seria indicativo de uma possível aliança.
A possibilidade de um eleitorado Lula-Cleitinho atrapalhar a campanha ao governo apoiada pelo PT não é uma preocupação, segundo o deputado federal Rogério Correia (PT-MG). Apesar de entender que os dois falam muito para grande parte do povo, o político acredita que, com o avançar da campanha, o cenário deve clarear.
“Há uma nuvem de indefinição ainda. Ele faz um tipo de campanha, criticando tudo e todos, então as vezes as pessoas não sabem do vinculo dele com a extrema direita. Com o andamento da campanha vai ficar claro o partido que ele vai fazer parte e quem vai estar com o presidente Lula”, afirmou o petista.
Até o momento, o PT aguarda uma definição do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), que vem dando sinais de não estar muito entusiasmado com a disputa eleitoral, para decidir quem será seu candidato. Em caso de negativa, uma vasta gama de figuras podem acabar recebendo o apoio do partido, entre eles, os pessebistas Josué Gomes e Jarbas Soares Júnior, o pedetista Alexandre Kalil e até mesmo apostar em uma candidatura própria.
O que pode dificultar a vida do senador, caso eleito governador
O professor Malco Camargo ainda aponta que a falta de experiência em gestão e os recorrentes ataques à vida política podem acabar se voltando contra Cleitinho, ainda mais em um cargo em que ele será o nome proeminente, ao contrário do que acontece no Senado, onde ele divide a responsabilidade com outros 80 representantes.
“A questão dos pedágios, por exemplo, os contratos são de 30 anos. Cleitinho fala que vai acabar com eles. Se for governador, ele não tem autonomia para romper com os contratos. Há um certo distanciamento entre o que é possível e o que não é possível na administração pública”, comentou o cientista político.
Essa capacidade de falar tanto com esquerda, quanto com centro e direita depende, na avaliação do marqueteiro ouvido pela reportagem, da capacidade do senador se sustentar politicamente sem o apoio da família Bolsonaro, que foi fundamental para sua eleição ao Legislativo em 2022.
“Apesar de muito popular, ele precisa de padrinho políticos, precisa do Euclydes (Pettersen), precisa de gente para organizar sua vida”, disse a fonte.
“Meu coração é para todos”
Perguntado pela reportagem como ele vê esse apoio de eleitores que se identificam mais com a esquerda, o parlamentar destacou que fica muito honrado.
“Trabalho para todos. Isso mostra que meu trabalho é 100% para o povo. Eu vim de origem humilde e trabalhadora, então sempre irei defender meus princípios e minha história. Posso ser de direita, mas meu coração é para todos”, afirmou Cleitinho.
Apesar de liderar as pesquisas eleitorais, Cleitinho ainda não confirmou seu nome na urna na disputa de outubro. Ainda assim, o PL definiu que vai construir a disputa eleitoral em Minas Gerais junto ao Republicanos, legenda do senador. Os nomes que vão compor a chapa ainda não foram anunciados.







