Markito: mineiro que vestiu estrelas mundiais ganha exposição em BH.
Nascido em Uberaba, estilista chegou a produzir 300 vestidos por mês e vestiu nomes como Gal Costa, Liza Minnelli, Xuxa e Ney Matogrosso
08/10/2026 02:00
Belo Horizonte — Liza Minnelli, Gal Costa, Ney Matogrosso e Xuxa estão entre as estrelas que vestiram criações de Markito, estilista mineiro que ganhou projeção nacional e internacional entre as décadas de 1970 e 1980. Nascido em Uberaba, no Triângulo Mineiro, Marcus Vinícius Resende Gonçalves chegou a comandar um ateliê com cerca de 150 pessoas e produzir até 300 vestidos por mês, boa parte deles feita artesanalmente.
A trajetória meteórica, no entanto, acabou ofuscada após a morte precoce do estilista, em meio à epidemia de HIV/Aids e ao forte preconceito. Agora, a história de Markito volta ao centro das atenções em uma exposição no Museu da Moda de Belo Horizonte (Mumo), que comemora dez anos.
“O objetivo é resgatar mesmo a memória dessa pessoa que tinha uma constelação de estrelas que vestiram as suas roupas. Também falar dessa moda mineira que foi exportada nas décadas de 1970 e 1980”, explica Isabela Guerra, diretora de museus da Fundação Municipal de Cultura.
Segundo a instituição, a exposição também ajuda a mostrar que a moda brasileira já alcançava projeção internacional décadas atrás. “Hoje a gente fala que o Brasil está na moda no exterior. O Brasil está na moda há muito tempo. Ele conseguiu vestir grandes artistas no mundo inteiro.”

Brilho, noite e liberdade
Markito chegou a iniciar os estudos em Engenharia, mas acabou seguindo o caminho da criação. Segundo relatos da irmã reunidos durante a pesquisa, desde criança ele já desenhava e teve o apoio da mãe para seguir a própria trajetória.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA carreira ganhou força no Rio de Janeiro, então um dos principais centros culturais e de celebridades do país, e posteriormente alcançou outros mercados, inclusive Nova York.
As criações eram marcadas pelo universo da noite, pelo brilho e pela valorização do corpo feminino.
“Ele fala muito da noite. Acho que isso a gente tem que pensar. Era uma época de boate, de noite, tanto no Brasil quanto no mundo. E tem essa liberdade das mulheres também, de mostrar essas mulheres, mostrar esse corpo feminino”, afirma Isabela.
Até 300 vestidos por mês
Por trás do glamour, havia uma extensa produção artesanal. Markito não era responsável sozinho pela confecção das peças. O trabalho envolvia principalmente bordadeiras, muitas delas de Uberaba.
“A produção dele era feita por bordadeiras de Uberaba. Então tem essa valorização desse trabalho manual feminino. Ele chegou a ter um ateliê de 150 pessoas e falava sobre o papel e a importância dessas bordadeiras”, conta Isabela Guerra.
No auge da carreira, o estilista chegava a produzir aproximadamente 300 vestidos por mês, mesmo mantendo características artesanais na fabricação. “Não era uma produção de fábrica. Era uma produção manual, por isso ele tinha tanta gente produzindo e exportando essas peças.”
“Se você pensar que esse trabalho manual, feito ali em Uberaba, estava nas boates de Nova York, de São Paulo e do Rio, é uma valorização desse trabalho manual”, completou Isabela.
O cuidado chegava até a embalagem. Segundo relatos reunidos pela pesquisa, Markito buscava entender como grandes grifes internacionais preparavam suas peças para exportação: “A irmã dele falava do cuidado que ele tinha até na hora de embalar essas peças para exportação. Ele procurava entender como as embalagens das maiores grifes eram feitas para que a roupa dele conseguisse chegar ao exterior da forma como foi feita aqui.”
Acervo preservado pela família
Parte importante da memória de Markito sobreviveu graças à própria família. Após a morte do estilista, a mãe reuniu e preservou peças e materiais que poderiam ter se perdido.
“A mãe dele foi essencial nesse momento, desse preconceito todo. Quando ela sentiu que esse legado poderia ser perdido, que a história dele poderia se perder, ela recolheu muito desse acervo, guardou com cuidado, e isso permite que a gente tenha hoje”, contou Isabela Guerra.
Posteriormente, a irmã do estilista deu continuidade à preservação. Moradora de Uberaba, ela emprestou parte do acervo apresentado no Mumo.
Dez anos do Museu da Moda
A exposição integra as comemorações pelos dez anos do Museu da Moda. Público e gratuito, o espaço busca apresentar a moda não apenas pelo aspecto econômico, mas também como parte da identidade e do patrimônio cultural.

“É um museu de moda público. Isso é superimportante para a gente poder ter a liberdade de pensar na função pública do patrimônio, da preservação e da difusão desse patrimônio”, afirma Isabela.
O Mumo funciona em um prédio histórico no Centro de Belo Horizonte, que já teve diferentes usos ao longo das décadas, entre eles o Museu de Mineralogia, o Centro de Cultura Belo Horizonte e o Centro de Referência da Moda. O espaço também abriga uma das bibliotecas públicas mais antigas da cidade, que segue aberta ao público.
Serviço
Museu da Moda de Belo Horizonte (Mumo)
Terça-feira: 12h às 20h
Quarta-feira a sábado: 10h às 18h
Entrada gratuita









