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Minas Gerais

Do Carnaval aos festivais: cultura movimenta R$ 4 bilhões em BH

Retomada dos blocos fortaleceu empresas, abriu mercado para profissionais e ajudou a consolidar cadeia que movimentou R$ 4 bilhões em um ano

27/07/2026 14:57
Patrick Arley/PBH
Do Carnaval aos festivais: cultura movimenta R$ 4 bilhões em BH

Belo Horizonte — Há pouco mais de uma década, Belo Horizonte costumava esvaziar durante o Carnaval. Hoje, a festa reúne milhões de foliões, movimenta bilhões de reais em todas as edições e impulsiona uma cadeia que vai de costureiras e produtores culturais a empresas de audiovisual, festivais e turismo. O que começou com a retomada dos blocos de rua ajudou a transformar a cultura em um dos motores da economia da cidade.

Em 2024, o setor cultural movimentou cerca de R$ 4 bilhões e gerou R$ 31,2 milhões em Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN) para os cofres da Prefeitura de BH. Em comparação com 2019, a quantidade de serviços culturais cresceu 38,3%, a arrecadação aumentou 74,6% e o valor movimentado pelo setor subiu 35,1%.

Esse fortalecimento também se reflete na sobrevivência das empresas do setor. Em 2010, menos de três em cada dez empreendimentos culturais abertos continuavam em atividade anos depois. Em 2025, o cenário mudou e oito em cada dez permaneciam em funcionamento. Os dados foram informados pela Prefeitura de Belo Horizonte ao Metrópoles.

“Isso significa que, cada vez mais, o profissional de Belo Horizonte tem escolhido prosperar na própria cidade, em vez de ir para São Paulo ou para fora do país, como sempre aconteceu”, afirma Juliana Flores, produtora cultural que articula grandes festivais urbanos de rua na capital.

Voltando para 2010

Para entender esse salto, é preciso voltar no tempo. No início da década passada, o Carnaval de Belo Horizonte ainda era pequeno, e a cidade costumava esvaziar durante o feriado, com muitos moradores viajando para o interior e cidades históricas.

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A virada começou entre 2009 e 2010, quando um decreto do então prefeito Márcio Lacerda proibiu eventos na Praça da Estação. A reação de artistas e movimentos culturais, então, deu origem à Praia da Estação, que passou a defender a ocupação dos espaços públicos e ajudou a impulsionar o crescimento dos blocos de rua. No mesmo período, iniciativas como o Duelo de MCs e do Família de Rua, também fortaleceram a cena cultural da capital.

Embora a retomada dos blocos tenha começado em 2009, foi em 2013 que o Carnaval da cidade viveu seu primeiro grande “boom”. A partir desse momento, a festa entrou em uma trajetória de crescimento que levou mais de 1 milhão de foliões às ruas em 2015.

Surge um novo mercado

Em 2017, duas belo-horizontinas deram vida à Dercy, loja especializada em fantasias e adereços para quem faz do Carnaval um estilo de vida. “Nasceu de uma paixão em comum pelo Carnaval de Belo Horizonte e pela vontade de criar fantasias e acessórios diferentes do que existia no mercado. Sempre enxergamos o Carnaval como um espaço de expressão, criatividade e liberdade, e percebemos que havia um público procurando peças autorais”, disse, Alice Corrêa, uma das fundadoras, ao lado de Débora Cruz.

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Bloco Então, Brilha!, um dos maiores de BH
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Bloco Então, Brilha!, um dos maiores de BH

Leo Salvo/ Divulgação

O crescimento do Carnaval foi decisivo para a Dercy. Com a cidade vivendo a folia de forma cada vez mais intensa, surgiu um mercado que praticamente não existia antes.

“Hoje as pessoas se programam, montam produções para vários blocos e enxergam a fantasia como parte da experiência. A Dercy cresceu junto com esse movimento”, afirmou a empresa, que, além da capital mineira, tem vendas muito fortes para cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Recife.

Segundo as proprietárias, a loja só existe porque uma enorme rede de profissionais faz ela acontecer. “Trabalhamos com costureiras, modelistas, fornecedores de tecidos, aviamentos, estamparias, bordados, pequenos fabricantes e diversos prestadores de serviço. O Carnaval gera renda para muita gente além de quem está na linha de frente e movimenta uma cadeia produtiva muito importante para a economia criativa“, disse Alice.

O “boom” do Carnaval

Na edição de 2026, a festa reuniu 6,6 milhões de foliões, o maior público da história do evento. Desse total, 349 mil eram turistas. Segundo a Prefeitura de BH, a programação contou com 457 desfiles de blocos de rua ao longo de 23 dias e movimentou cerca de R$ 1,4 bilhão na economia da capital.

De acordo com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL-BH), o Carnaval se consolidou como uma temporada que atrai turistas brasileiros e estrangeiros e prolonga o período de consumo na cidade.

Loja Dercy de fantasias de Carnaval, em BH
Loja Dercy de fantasias de Carnaval, em BH

“A festa dura cerca de três semanas, o que amplia os impactos positivos para a economia local. Neste ano, movimentou cerca de R$ 1,4 bilhão, ante R$ 1,2 bilhão no ano passado, aquecendo setores como comércio, hospedagem, gastronomia e lazer, desde pequenos negócios até grandes estabelecimentos”, afirmou Marcelo de Souza e Silva, presidente da CDL-BH.

Segundo ele, medidas como autorizar a venda de bebidas por lojistas e instalar banheiros em pontos estratégicos do Carnaval fizeram com que o público permanecesse mais tempo nas áreas comerciais e consumisse mais. Entre os setores beneficiados estão os ambulantes: 11.528 profissionais foram cadastrados para vender bebidas e adereços neste ano.

”Os grandes eventos culturais funcionam como motores do varejo. Eles movimentam o consumo, geram empregos temporários e fortalecem a economia local. Por isso a CDL-BH investe em iniciativas como o Arraial de Belô, Carnaval e outros eventos que movimentam BH e contribuem para uma cidade mais dinâmica, atrativa e acolhedora”, acrescentou Marcelo.

Carnaval deu à luz novos eventos do setor

Segundo Juliana Flores, produtora cultural, o renascimento do Carnaval, impulsionado pela Praia da Estação, influenciou os eventos de rua que vieram depois. “BH tem essa vocação para ocupar o espaço público e fazer cultura. O renascimento do Carnaval influenciou tudo o que veio depois”, afirmou.

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Festa da Luz 2026
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Festa da Luz 2026, em BH
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Festa da Luz 2026, em BH

Carol Faraco/ Divulgação
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Festa da Luz 2026
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Festa da Luz 2026

Carol Faraco/ Divulgação/ Festa da Luz
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"Filhos do Sopro", da artista brasileira-mexicana Fefê Talavera
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"Filhos do Sopro", da artista brasileira-mexicana Fefê Talavera

Carol Faraco/ Divulgação/ Festa da Luz 2026
Festa da Luz, em BH, 2025
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Festa da Luz, em BH, 2025

Isis Medeiros/ Divulgação

Foi nesse contexto que, em 2015, Juliana e as amigas Priscila Amoni e Janaína Macruz idealizaram o Circuito Urbano de Arte (CURA). Segundo ela, a proposta era conectar arte, geografia e paisagem urbana, com um protagonismo feminino inédito na cena da arte urbana. O projeto ajudou a transformar a Rua Sapucaí em uma galeria a céu aberto e deu origem, em 2017, à Pública.ART, agência especializada na criação e produção de projetos de arte pública voltados à ocupação e transformação dos espaços urbanos.

Foi também na Rua Sapucaí que, no mês passado, a paisagem urbana foi transformada por projeções nos prédios durante a Festa da Luz. De acordo com a organização, o evento reuniu 250 mil pessoas no hipercentro ao longo de quatro dias, consolidando-se como um dos maiores festivais públicos, atrás apenas do Carnaval e da Virada Cultural.

“A gente contou com mais de 100 profissionais contratados, quase 80 artistas, além de fornecedores — o que dá mais de 500 profissionais indiretos. É um festival que, além de girar a economia dos eventos e produção cultural, fomenta muito o comércio do baixo centro de BH. Os comerciantes falam que é o melhor momento do ano pra eles, melhor ainda que Carnaval, pois o festival reúne público de todas as idades, muitas famílias, pessoas que vão passear e aproveitam pra sentar e comer”, disse Juliana.

Para ela, a Prefeitura de BH tem facilitado a realização de eventos ao reduzir a burocracia, o que ajuda produtores menores a tirar projetos do papel. Por outro lado, afirma que conseguir dinheiro para viabilizar os eventos ainda é um dos maiores desafios, já que os recursos das leis de incentivo acabam rápido e poucos produtores conseguem captar esses valores.

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 CURA – Festival de Arte Urbana
Vista da Rua Sapucaí, em BH; CURA leva arte para os prédios
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Vista da Rua Sapucaí, em BH; CURA leva arte para os prédios

Area de Serviço
 CURA – Festival de Arte Urbana
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CURA – Festival de Arte Urbana

Area de Serviço

“Então, BH segue enfrentando uma questão histórica na produção cultural: a falta de recursos. Leis como a Aldir Blanc e a Paulo Gustavo surgiram em um bom momento, durante a pandemia, e ajudam a descentralizar os recursos, mas os valores são pequenos e não bancam grandes projetos. BH continua sendo referência nacional em vanguarda artística, mas ainda patina para atrair marcas nacionais dispostas a investir na cidade”, completou a produtora.

Crescimento do audiovisual

Com o forte movimento cultural, também cresceu quem registra e produz esses eventos. Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, o avanço das empresas do setor cultural em 2025 foi puxado principalmente pelo audiovisual. Quase três em cada dez novos negócios da área (29,28%) atuam na produção de filmes e vídeos.

Vinícius Portugal, de 33 anos, trabalha com audiovisual desde 2012. Formado em 2013, passou por três grandes empresas do setor. Ao longo da carreira, produziu conteúdo para blocos de Carnaval, para a Parada do Orgulho LGBTQIA+ e para ações culturais promovidas por marcas. Em 2015, entrou em uma produtora de conteúdo para a internet e, aos poucos, passou a trabalhar principalmente com publicidade para TV, sem deixar de fazer trabalhos freelancers em diferentes áreas.

“Eu sinto que, com câmeras cada vez mais potentes e acessíveis — até mesmo as de celulares —, mais pessoas passaram a gravar os próprios conteúdos. Com isso, aumentou também a procura por edição de vídeos”, disse. Vinícius afirma que a variedade de trabalhos é uma das características do setor. “Nesta semana mesmo peguei um freela para um estúdio de arquitetura. O arquiteto gravou o material e me chamou para fazer a edição”, conta.

Arraial de Belô

Neste mês, ocorre o Arraial de Belô 2026, no Mineirinho, na Pampulha. Na edição do ano passado, o evento movimentou cerca de R$ 5,4 milhões, segundo o Observatório do Turismo de Belo Horizonte.

Arraial de Belô abre com Concurso de Quadrilhas e atrações musicais nacionais
Arraial de Belô abre com Concurso de Quadrilhas e atrações musicais nacionais

Ao todo, foram mobilizados cerca de 4.500 profissionais nas áreas de operação, produção, segurança, alimentação e bebidas, além de artistas, integrantes de quadrilhas e outros colaboradores. Segundo a prefeitura, o Arraial de Belô também impulsiona setores da economia criativa, como confecção, indústria têxtil, artesanato, cenografia, decoração temática e serviços de produção e montagem.

O poder da arte

Para Juliana, a arte nas ruas muda a forma como as pessoas enxergam a cidade e ainda ajuda a movimentar a economia dos bairros onde os projetos acontecem.

“A arte pública tem a capacidade de nos fazer encantar novamente pelo nosso território, fortalecer vínculos, gerar autoestima, ampliar nosso repertório e nos fazer questionar. Além de tudo, fomenta a economia dos territórios que recebem essas obras. Colocar arte no dia a dia das pessoas é a forma mais radical de ampliar o acesso. Acredito que ainda temos muito a avançar e amadurecer em projetos de arte pública, não só em Belo Horizonte e em Minas, mas em todo o Brasil”, afirmou.

A arte continua sendo uma ferramenta de transformação social. Em Belo Horizonte, porém, ela passou também a movimentar negócios, gerar empregos, atrair turistas e consolidar uma economia criativa que hoje faz parte da identidade da cidade.