Exposição censurada pelo governo de Minas abrirá em BH. Veja detalhes
Exposição de Élcio Miazaki, suspensa em Ouro Preto após veto da Secult-MG, será aberta no antigo prédio do DOI-Codi em BH
atualizado
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Belo Horizonte — Uma exposição do artista Élcio Miazaki que foi suspensa pelo governo de Minas Gerais dias antes da estreia em Ouro Preto sob alegação de “conteúdo impróprio”, será realizada em Belo Horizonte a partir desta quarta-feira (20/5). A obra, agora intitulada “Tudo que não explode range”, ficará em cartaz no Memorial dos Direitos Humanos Ocupado, espaço instalado no antigo prédio do DOI-Codi, utilizado pelos órgãos de repressão durante a ditadura militar.
A abertura ocorrerá às 19h e contará com a presença do artista e uma mesa de debate com convidados. Depois da estreia, o acesso será feito por meio de visitas mediadas, mediante agendamento prévio.
A nova montagem reúne fotografias, instalações e videoperformances construídas a partir de uma pesquisa documental sobre a ditadura militar brasileira. Segundo a organização, as obras discutem temas como violência de Estado, perseguição política, masculinidades, censura, resistência e os impactos do autoritarismo no passado e no presente.
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Em nota de divulgação, o memorial afirma que a exposição apresenta obras “censuradas pelo governo de Minas Gerais em Ouro Preto” e destaca o simbolismo de exibi-las agora nas antigas celas do prédio usado pelo aparato repressivo do regime militar.
Em abril, o Metrópoles mostrou que o antigo prédio do DOI-Codi virou um memorial aberto a visitação em BH. O imóvel fica localizado na Avenida Afonso Pena, 2351, no centro de Belo Horizonte.
Censura
A exposição originalmente se chamava “Habeas Corpus” e seria aberta em março deste ano na Galeria de Arte Nello Nuno, da Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP). O projeto havia sido aprovado com classificação indicativa para maiores de 14 anos e já estava montado quando a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult-MG) determinou a suspensão da abertura.
Na época, a então secretária de Cultura, Bárbara Botega, afirmou em ofício que a medida buscava assegurar o cumprimento da legislação vigente e garantir que a realização da mostra em espaço público estadual observasse “os limites aplicáveis ao interesse coletivo”.
Posteriormente, a Secult informou que a exposição continha “conteúdos impróprios para a idade indicada”, incluindo nudez, e justificou a decisão dizendo que levava em consideração as diretrizes relacionadas à classificação indicativa.
A suspensão gerou repercussão entre artistas, coletivos culturais e defensores da liberdade de expressão. Nas redes sociais, Élcio Miazaki afirmou que sua produção, que muitas vezes aborda “os silêncios”, acabou passando por um “processo de silenciamento”.
“Exposições correm o risco de ter seus ciclos interrompidos, mas as obras continuam existindo”, escreveu o artista na ocasião.
Após a repercussão negativa e uma mudança recente no comando da Secult-MG, o governo informou que faria uma reavaliação do caso. A análise, no entanto, não teve desfecho positivo e a exposição acabou transferida para Belo Horizonte sem a participação do poder público.
Reestruturação da obra
Para a nova montagem, o projeto passou por reformulações. Segundo Miazaki, um dos curadores inicialmente ligados à mostra deixou de participar da iniciativa, o que levou à mudança do nome da exposição.
O artista afirmou ainda que decidiu manter integralmente as obras que já haviam sido previstas anteriormente e acrescentar novos trabalhos à composição. Ele também preservou a classificação indicativa de 14 anos.
“Está dentro do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Se eu aumentasse a classificação, muitos adolescentes não teriam acesso, e eu não acho isso justo”, afirmou ele ao Metrópoles.
A exposição “Tudo que não explode range” será aberta ao público nesta quarta-feira (20/5), às 19h, no Memorial dos Direitos Humanos Ocupado, em Belo Horizonte.
