Desejo de doar órgãos cresce e salva vidas em MG: “Chegou meu momento”
Quase 2 mil mineiros oficializaram em cartório o desejo de doar órgãos após a morte; neste ano, Minas Gerais já realizou 985 transplantes
atualizado
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Belo Horizonte — “Chegou o meu momento”, foi o que Djavan Yuri, de 34 anos, pensou ao atender uma ligação no meio da noite e descobrir que, na manhã seguinte, passaria por uma cirurgia para receber um novo fígado. A história dele, e de muitas outras pessoas que aguardam na fila de espera, fica mais perto de um final feliz à medida que o desejo de doar órgãos cresce em Minas Gerais.
Quase 2 mil mineiros já registraram oficialmente a vontade de doar órgãos após a morte. O número coloca Minas entre os estados com maior adesão à Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (Aedo), segundo o Colégio Notarial do Brasil em Minas Gerais (CNB-MG). O estado fica atrás apenas de São Paulo (8,7 mil registros), Paraná (3,3 mil) e Rio de Janeiro (2,7 mil).
De acordo com Victor Fróis Rodrigues, presidente do CNB-MG, o registro em cartório garante que a vontade do doador seja respeitada, independentemente da opinião de terceiros após o falecimento.
“A autorização eletrônica de doação de órgãos como instrumento realizado em cartório, com a fé pública do tabelião, confere total validade e eficácia à manifestação de vontade, permitindo, portanto, que essa manifestação autônoma e determinante da pessoa seja devidamente cumprida, ainda que em desacordo com a opinião dos demais familiares”, explicou.
Da vontade à doação
O sistema de transplantes em Minas Gerais enfrenta o desafio de agir rapidamente em um estado de grandes dimensões. Segundo Omar Lopes Cançado, diretor do MG Transplantes, já foram realizados, neste ano, 393 transplantes de órgãos e 504 de córneas, números maiores que os registrados no mesmo período do ano passado.
A maior demanda por transplantes, em Minas e no restante do país, é por rins, devido ao grande número de pessoas com doenças renais graves. Para definir quem receberá o órgão, o sistema segue critérios técnicos e uma fila organizada, explica o diretor.
“Quem define o receptor é um sistema informatizado do Ministério da Saúde. Com base nos dados do doador e dos pacientes cadastrados, ele seleciona os mais compatíveis e cria um ranking. O paciente que aparece em primeiro lugar é quem recebe o órgão”, explica o gestor.
Sobre o perfil dos doadores, Omar Lopes destaca que vítimas de Acidente Vascular Cerebral (AVC) e traumas são os doadores mais comuns. “Quanto mais jovem for o doador e menor as morbidades ou comorbidades que ele apresenta, o maior número de órgãos poderá ser aproveitado”, explicou. É nesse momento que a vontade previamente registrada pode ajudar a agilizar o processo de retirada e transplante dos órgãos.
Isso porque a rapidez é essencial para o sucesso de um transplante, já que cada órgão tem um tempo máximo para ser transplantado após a retirada do doador. Coração e pulmão, por exemplo, precisam ser transplantados em até seis horas. Já o fígado pode esperar cerca de 12 horas, enquanto os rins resistem entre 24 e 36 horas.
Segundo o diretor do MG Transplantes, uma única doação pode salvar oito ou mais vidas.
Como registrar
O registro da vontade de ser doador pode ser feito gratuitamente pela internet. Basta acessar o site da Aedo, preencher um formulário e informar o desejo de doar órgãos após a morte.
Em seguida, o pedido é encaminhado automaticamente para um cartório da cidade da pessoa. Todo o processo é feito de forma on-line e inclui assinatura digital e uma videoconferência para confirmar a identidade do interessado e garantir a validade legal do documento.
“Todo o processamento será realizado de forma eletrônica sem necessidade da pessoa comparecer pessoalmente ao cartório e sem gerar nenhum custo de emolumentos, ou seja, o ato é gratuito”, finalizou Victor Fróis Rodrigues, presidente do CNB-MG.
Como funciona após a morte?
- A vontade do doador é consultada
Após a confirmação da morte encefálica, a Central de Transplantes verifica se a pessoa registrou a intenção de doar órgãos. - O documento tem validade legal
Como o registro é feito em cartório, a manifestação tem fé pública e valor jurídico. - A decisão do doador prevalece
Se houver um registro válido, a vontade da pessoa deve ser respeitada, mesmo que familiares tenham opinião diferente. - O processo ganha agilidade
Com a autorização já formalizada, as equipes podem acelerar os procedimentos necessários para a captação e o transplante dos órgãos.
“Lembro da ligação”

Na outra ponta da fila está quem espera pela doação. Djavan Yuri enfrentou um câncer agressivo no estômago com metástase no fígado e passou por cirurgias para retirar parte dos órgãos. Com o retorno da doença, o transplante se tornou a única alternativa.
Durante a espera, ele ainda precisou tratar novas metástases na lombar e no cérebro. Após superar essas complicações sem sequelas, voltou à fila e, meses depois, recebeu um novo fígado. Ele lembra com detalhes da ligação que mudou sua vida em 17 de março deste ano:
“Eu lembro de atender o telefone e receber o comunicado dizendo que era para me preparar, porque eu poderia estar em cirurgia logo cedo pela manhã. A ligação veio por volta das 21h. Lembro de estar com meu filho e, assim que desliguei o celular, pensei: ‘Chegou o meu momento'”, contou ao Metrópoles.
Apesar de ter ficado feliz, Djavan disse que sentiu um pouco de medo, mas logo foi consolado pelo filho. “Fiquei extremamente feliz, mas um pouco aflito. Olhei para o meu filho e disse: ‘Filho, você sabe que o pai é forte, né?’. E meu filho simplesmente respondeu: ‘O mais forte do mundo, pai'”.
Hoje, quase três meses após o procedimento, Djavan diz viver com gratidão ao doador anônimo e à família que autorizou a doação.
“Salvou meu maior amor”
O mesmo sentimento é compartilhado por Tatiana Figueiredo, professora de dança de 46 anos e mãe de Maria Alice. Ela se recorda da noite em que recebeu a notícia de que a filha, então com 6 anos, finalmente havia conseguido um coração para transplante.
“Foi uma mistura de sentimentos: medo, angústia, alegria, gratidão e pesar. Hoje, Maria é uma adolescente que vive normalmente. Somos eternamente gratos à família doadora. Eles nos permitiram conhecer a Maria Alice de verdade”.
Maria Alice nasceu com uma condição rara chamada miocardiopatia restritiva. Os sinais de cansaço surgiram ainda no nascimento, mas o diagnóstico só veio aos 5 anos, quando ela entrou na fila de espera por um novo coração. Na época, a família precisou se mudar de Belo Horizonte para São Paulo para que a menina pudesse realizar o transplante. “A doação de órgãos salvou meu maior amor”, finalizou.
