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Minas Gerais

Da Loira do Bonfim ao fantasma do funcionário público: 10 lendas de Minas

De fantasmas que assombram ruas de BH a criaturas misteriosas do interior, conheça histórias que atravessam gerações em Minas Gerais

08/11/2026 02:00
Arte Metrópoles
Lendas urbana de MG

Belo Horizonte – Esqueça as bruxas do Halloween americano: em Minas Gerais, as assombrações são outras. De noivas mortas que assombram estradas, criaturas que misturam características de macaco, galinha e lagartixa e até supostos visitantes de outros planetas, a cultura mineira é de criatividade e mistérios.

Segundo Rafael Sette, que pesquisa a história da capital mineira e é responsável pelo projeto Caminhas BH, que promove roteiros temáticos, as lendas vão além das histórias de terror e ajudam a compreender os costumes, as desigualdades e os conflitos sociais da época em que surgiram.

“Eu acho que, muitas vezes, aquilo que a sociedade de uma época não consegue dizer acaba sendo colocado na boca das lendas e das assombrações. Isso acontece muito em Belo Horizonte. São histórias que revelam aquilo que, por algum motivo, não podia ser dito”, explica Sette.

Algumas lendas podem ter origem em acontecimentos reais, outras surgiram ou ganharam força por meio da literatura.  É o caso da Loira do Bonfim, registrada pelo escritor Pedro Nava no livro Baú de Ossos, e da Moça Fantasma de Belo Horizonte, que inspirou um poema de Carlos Drummond de Andrade.

O Metrópoles conta aqui a história de 10 figuras lendárias que já tiraram – e ainda tiram – o sono de muita gente.

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A Loira do Bonfim

Uma mulher loira, vestida de branco, embarca no último bonde da noite na Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte, com destino ao Cemitério do Bonfim, na Região Noroeste. Essa é a história de uma das lendas mais antigas da capital mineira.

“A cada parada do bonde, as pessoas vão olhando para ela e ela tá perdendo carnes, né? Ela tá ficando mais cadavérica, mais esquelética”, conta Sette. Apavorados, os passageiros abandonam o veículo, até que restam apenas o motorneiro e o cobrador. Ao chegar ao cemitério, os dois também fogem, enquanto a mulher, já completamente esquelética, atravessa o portão sem precisar abri-lo.

Segundo Sette, a lenda tem mais de 100 anos e uma de suas versões foi registrada pelo escritor Pedro Nava no livro Baú de Ossos.

Para Sette, a história também revela o machismo da sociedade da época. “Ela morre incompleta. E aí ela tem que voltar como assombração, porque ela não completou seu objetivo de vida, que era casar e ter filho”, explica.

A Moça Fantasma

Outra lenda envolvendo uma jovem loira é a da Moça Fantasma. Segundo a história, uma adolescente entra em um táxi durante a madrugada, na região da Savassi, e pede ao motorista que a leve até a antiga Rua do Chumbo, atual Rua Estevão Pinto, no bairro Serra.

“Ele tá sempre olhando pelo retrovisor e, a cada esquina, vai notando ela sempre quietinha, calada, sem falar nada, até que, na hora que tá passando pela Rua do Chumbo, ele olha pelo retrovisor e ela desaparece“, conta Sette.

Assustado, o taxista procura a passageira, mas não encontra ninguém. Ele então segue para um bar frequentado, na Avenida Getúlio Vargas, por jornalistas e artistas e relata o ocorrido. Sette conta que a história ganha as páginas dos jornais e provoca uma onda de relatos de supostas aparições em diferentes bairros da cidade.

O Fantasma do funcionário público

Imagine caminhar pela Avenida do Contorno, em Belo Horizonte, durante uma madrugada fria de junho e encontrar um homem parado na esquina com a Rua do Ouro. Vestido com um terno antigo, típico do século XIX, ele segura um guarda-chuva aberto e fica imóvel.

Segundo a lenda, a figura misteriosa aparece no mesmo local há cerca de 120 anos, geralmente por volta de meia-noite e meia.

De acordo com Sette, o fantasma representa os funcionários públicos que vieram de Ouro Preto (Região Central) para a construção da nova capital, mas não conseguiram moradia na área planejada da cidade.

“Essa assombração diz da vida que não se realizou, das promessas que não foram cumpridas, dessas pessoas que ficaram à margem da sociedade durante o projeto de construção de Belo Horizonte”, explica. Este é um dos pontos visitados durante a visita guiada assustadora promovida por Rafael, que serão retomadas nos próximos meses.

O Avantesma da Lagoinha

O homem vestido de preto, sem rosto e acompanhado por um cheiro de enxofre é o Avantesma da Lagoinha, uma das assombrações mais assustadoras. Segundo a lenda, a figura aparecia sobre os trilhos dos antigos bondes que atravessavam a região, conhecida pela vida boêmia, pelos bares e cabarés.

Quando o bonde se aproximava, o homem surgia no meio dos trilhos, rindo. O motorneiro tentava frear, enquanto os passageiros gritavam, temendo uma colisão. No último instante, porém, a figura desaparecia, deixando apenas o cheiro de enxofre. Ao contrário de outras assombrações, o Avantesma não era inofensivo: a intenção parecia ser provocar acidentes e espalhar o medo.

Segundo Sette, a lenda simboliza a exclusão social vivida por moradores da Lagoinha desde a formação da cidade. A região recebeu trabalhadores, imigrantes, especialmente italianos, e parte da população negra que não encontrou espaço na área central planejada da nova capital.

“Como ele não encontra lugar, acaba tendo uma morte violenta e volta de forma mais violenta, na tentativa de se vingar”, explica.

Maria Papuda

Uma das lendas mais conhecidas envolve o Palácio da Liberdade, antiga sede do governo de Minas Gerais. Segundo a história, uma mulher conhecida como Maria Papuda vivia em um casebre na região onde hoje fica a Praça da Liberdade, antes da construção da capital. Expulsa de sua casa para dar lugar ao palácio, ela teria lançado uma maldição: quem ocupasse aquele terreno morreria.

Rafael conta que a  lenda ganhou força após a morte de quatro governadores durante o exercício do cargo: Silviano Brandão, João Pinheiro, Raul Soares e Olegário Maciel. As mortes passaram a ser associadas à suposta maldição.

“A história ganhou tanta repercussão que até Itamar Franco, quando era governador, disse ter visto o fantasma no Palácio da Liberdade. O relato foi parar nas capas de jornais de todo o Brasil. Mas a grande questão é entender a história da Maria Papuda também do ponto de vista político”, explica, Rafael.

Serra do Rola-Moça

Muita gente se pergunta de onde vem o nome da Serra do Rola-Moça, que se estende por Belo Horizonte, Brumadinho, Nova Lima e Ibirité. E a reposta está em uma antiga lenda que virou poesia:

Segundo a história, um casal de recém-casados atravessava a serra a cavalo quando o animal montado pela noiva escorregou no cascalho à beira de um precipício. A jovem caiu no abismo e, na tentativa de salvá-la, o marido também se jogou, provocando a morte dos dois. A tragédia, que nunca foi comprovada, teria dado origem ao nome da serra.

Em agosto, o Metrópoles contou a história por trás da lenda, que ganhou projeção nacional ao ser transformada em versos pelo escritor Mário de Andrade (1893–1945). O episódio foi eternizado no poema Noturno de Belo Horizonte, publicado no livro Clã do Jabuti, de 1927. Apesar da popularidade da história, não há registros oficiais que confirmem a tragédia.

Caboclo-d’Água

Uma das lendas mais conhecidas de Minas Gerais é a do Caboclo-d’Água, criatura descrita como uma mistura de macaco, galinha e lagartixa, que viveria em rios da região.

Em outubro, o Metrópoles mostrou que integrantes da Associação dos Caçadores de Assombrações de Mariana (Acam) procuram o suposto monstro há duas décadas, organizando expedições pela mata e utilizando até isca humana. Em uma das tentativas, um integrante passou quatro noites dentro de uma gaiola instalada no meio de um rio para tentar atrair a criatura.

Os relatos de supostas aparições ocorreram em Barra Longa, Acaiaca, Mariana e Ouro Preto. Segundo Leandro Henrique dos Santos, de 51 anos, professor, historiador, jornalista e diretor e fundador do jornal O Espeto, moradores chegaram a atribuir duas mortes e ataques a bois à criatura.

“Duas mortes de pessoas foram atribuídas a seus ataques em Barra Longa e Acaiaca”, contou. Em Barra Longa, o Caboclo-d’Água ganhou até uma estátua na praça principal da cidade.

Arquivo PessoalAssociação de Caçadores de Assombrações e Monstros de Mariana (Acam)
Associação de Caçadores de Assombrações e Monstros de Mariana (Acam)

Noiva de Furquim

A lenda da Noiva de Furquim surgiu após um suposto acidente de ônibus na década de 1960, em um trecho de estrada próximo ao distrito de Furquim, em Mariana. Segundo a história, oito pessoas morreram, entre elas uma noiva que teria sido enterrada sem sua aliança, desaparecida após a tragédia.

“Depois disso, ela foi vista na estrada procurando a aliança e pedindo carona. Muitos paravam, ela entrava no carro e desaparecia pouco depois”, contou Leandro. Segundo ele, os relatos se tornaram tão frequentes que uma missa teria sido celebrada em homenagem à mulher pelo bispo Dom Oscar, de Mariana.

Mãe do Ouro

Já a Mãe do Ouro é descrita como uma bola de fogo brilhante que desce do céu e se aproxima das pessoas, emitindo uma luz intensa, mas sem provocar queimaduras. Uma das histórias relatadas por Leandro envolve um homem que teria ficado tão encantado ao observar a luz que acabou sofrendo uma lesão nos olhos. Segundo o relato, ele foi atendido em um hospital, onde recebeu um diagnóstico de lesão semelhante à provocada pela luz de solda elétrica.

A irmã do homem, Terezinha Ramos, que posteriormente se tornou prefeita de Mariana, afirmou que a família vivia em um sítio sem energia elétrica. “Ela foi quem cuidou do irmão até a vista melhorar. Foi dado a ele um óculos escuro para usar caso visse a Mãe do Ouro de novo”, contou Leandro.

ET de Varginha

Uma das histórias mais famosas de Minas Gerais é a do ET de Varginha, que ganhou repercussão internacional em janeiro de 1996. Na época, três jovens afirmaram ter visto uma criatura de aparência incomum em um terreno baldio da cidade, no Sul de Minas. Segundo os relatos, o suposto extraterrestre tinha pele escura, olhos avermelhados e características físicas estranhas.

A história ganhou força com testemunhos de moradores que disseram ter visto movimentações suspeitas de militares e veículos oficiais na região. As autoridades, no entanto, sempre negaram qualquer operação envolvendo seres extraterrestres, e investigações oficiais não encontraram evidências de contato alienígena.

Três décadas depois, o mistério continua vivo e transformou Varginha em um destino de turismo ufológico, com monumentos e até um memorial dedicado ao ET. Recentemente, o caso voltou aos holofotes após o cineasta Steven Spielberg mencionar a história durante a divulgação de seu novo filme, Disclosure Day (Dia D), sobre vida extraterrestre.

Memorial do ET de Varginha/DivulgaçãoMemorial ET Varginha
ET de Varginha (MG)