BR-251: burocracia atrasa obras em estrada que mata no Norte de Minas
Privatizada em 2026, a rodovia mais perigosa do Norte de Minas segue paralisada por burocracia; acidente com 8 mortos expõe urgência de obra
atualizado
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Belo Horizonte — Enquanto a BR-251 volta a registrar uma tragédia com oito mortos carbonizados – domingo (24/5) -, a rodovia privatizada em 31 de março segue sem qualquer intervenção da nova concessionária. A demora na assinatura do contrato mantém a via precária, estreita e letal, cobrando um preço alto demais em vidas, no Norte de Minas Gerais.
Em nota, a Ecovias Norte Minas, concessionária responsável pelas obras da BR-251 na região, lamentou o acidente ocorrido em Santa Cruz de Salinas e se solidarizou com os familiares e amigos das vítimas.
A empresa informou que embora tenha sido vencedora do leilão de concessão em 31 de março de 2026, ainda não assumiu oficialmente a operação do trecho mencionado. “Atualmente, a Ecovias encontra-se em fase de estruturação operacional, que inclui contratação de equipes e realização dos trâmites regulatórios e contratuais necessários junto à ANTT’, explicou.
A previsão é que a assunção do trecho ocorra até julho, após a conclusão das etapas formais previstas no processo de concessão.
Tragédia anunciada
Na madrugada de domingo (24/5), um ônibus que seguia de São Bernardo do Campo (SP) para Aracaju (SE) colidiu frontalmente com uma carreta carregada de sucata no km 234, em Santa Cruz de Salinas. O impacto foi devastador: os dois veículos pegaram fogo imediatamente. Oito pessoas morreram carbonizadas e outras 10 ficaram feridas. A rodovia precisou ser interditada nos dois sentidos por cerca de 10 horas.
Imagens do local revelam o cenário de destruição: restaram apenas estruturas metálicas retorcidas, rodas e cinzas do que antes eram os veículos.

Acidentes recorrentes
Durante o feriado de Tiradentes, seis membros de uma mesma família perderam a vida em outro grave acidente na altura de Salinas. Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), somente neste ano já foram registrados ao menos 79 acidentes na BR-251 em território mineiro, com pelo menos 42 mortes. Os trechos mais críticos concentram-se em Grão Mogol, Francisco Sá e Santa Cruz de Salinas.

Privatização travada pela burocracia
O grupo Ecovias venceu o leilão da “Rota das Gerais”, que inclui a BR-251 e parte da BR-116. O contrato de 30 anos prevê R$ 7,3 bilhões em investimentos, com duplicações, faixas adicionais e melhorias de segurança. Porém, quase dois meses depois, o contrato ainda não foi assinado — o prazo final é 17 de julho.
A Ecovias reforçou que está em “fase de estruturação”, contratando equipes e cumprindo trâmites junto à ANTT; e destacou que as obras de maior relevância e intervenções estruturais seguem um cronograma contratual previamente estabelecido e vinculado às diretrizes previstas no contrato de concessão.
“A concessionária (Ecovias das Gerais) atuará de forma integrada e colaborativa com os demais órgãos envolvidos, assim que autorizado, buscando apoiar iniciativas voltadas à segurança viária e à redução de ocorrências ao longo do trecho concedido.”
Enquanto as obras não começam, motoristas e passageiros seguem expostos aos mesmos riscos de sempre.
AMAMS cobra celeridade imediata
Diante da nova tragédia, a Associação dos Municípios da Área Mineira da Sudene (AMAMS) intensificou o pedido por agilidade.
“Não podemos aceitar tanta demora enquanto vidas continuam sendo perdidas. A BR-251 é uma das principais ligações entre o Sudeste e o Nordeste e há décadas a população espera por investimentos concretos. Cada dia de atraso representa mais risco”, declarou o presidente da AMAMS e prefeito de São João da Lagoa, Ronaldo Soares Mota Dias.
A entidade – com 102 municípios associados e uma população de mais de 1 milhão e 500 mil habitantes – acompanhou todo o processo de concessão e defende que as obras comecem o quanto antes.
Contraste positivo: entrega em Bocaiúva
Enquanto a BR-251 segue parada, uma obra semelhante mostra o que é possível quando o projeto avança. Em dezembro de 2025, o Governo de Minas entregou o Anel Viário de Bocaiúva, na BR-135, executado pela Ecovias Norte Minas.

Foram 15 km de duplicação, viadutos, vias marginais e uma passarela, com investimento superior a R$ 300 milhões. A intervenção melhorou significativamente a segurança e a fluidez no Norte do estado, gerando empregos e desenvolvimento local.
O que a nova concessão promete
Quando finalmente assinado, o contrato da BR-251 prevê:
- 186 km de duplicação de pistas
- 159 km de faixas adicionais
- Contorno de Teófilo Otoni (17 km)
- 21 passarelas, novas interseções e passagens de fauna
- Monitoramento 24h com câmeras de detecção automática de incidentes
- Pedágio free flow com descontos para usuários frequentes
As quatro praças de pedágio na BR-251 serão instaladas justamente nas cidades com maior índice de acidentes: Santa Cruz de Salinas, Salinas, Grão Mogol e Francisco Sá.
A rodovia, estratégica para o escoamento de cargas agrícolas, minerais e industriais, precisa urgentemente sair do papel. Enquanto a burocracia avança lentamente, a estrada continua sendo palco de tragédias e dizimando famílias.
A pergunta que persiste é dolorosa: quantas tragédias mais serão necessárias para que a caneta finalmente se mova?