Aviação e risco em MG: Cenipa investigou 781 ocorrências em 10 anos

Acidentes recentes expõem padrão de falhas e riscos na aviação mineira, com 781 ocorrências registradas em uma década

atualizado

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BHairport
Aeroporto de Confins / BH Airport
1 de 1 Aeroporto de Confins / BH Airport - Foto: BHairport

Belo Horizonte – Dois acidentes aéreos registrados nesta segunda-feira (4/5), em Belo Horizonte e em João Pinheiro, voltaram a chamar atenção para a segurança da aviação em Minas Gerais. Os casos mais recentes se somam a um histórico de 781 ocorrências aeronáuticas registradas no estado desde janeiro de 2016 até 5 de abril de 2026, segundo dados do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão do Comando da Aeronáutica responsável pelo Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (SIPAER).

O volume de registros inclui acidentes e incidentes de diferentes naturezas, com 39 acidentes ainda em investigação, além de um incidente e um incidente grave também em apuração. As ocorrências desta semana entram para uma estatística que revela não apenas frequência, mas também padrões relevantes nas causas e circunstâncias desses eventos.

Segundo o professor de aeronáutica, Kerley Oliveira, a aviação moderna é altamente confiável do ponto de vista tecnológico, mas ainda depende diretamente do fator humano.

“Na maioria dos casos, as causas vão além de falhas técnicas”, frisou Oliveira.

De acordo com o especialista em segurança de voo, cerca de 80% dos acidentes aéreos no mundo têm como principal fator contribuinte o erro humano. “Esse erro pode se manifestar de várias formas, como problemas de saúde, estresse, mal súbito, esquecimento ou até pequenas violações de procedimento”, explica.

Ele cita, inclusive, casos extremos, como o da tragédia do voo 9525 da Germanwings, ocorrida em 24 de março de 2015, na qual o copiloto Andreas Lubitz da Germanwings jogou deliberadamente um Airbus A320 contra os Alpes franceses, matando todas as 150 pessoas a bordo — situação que, embora rara, ilustra o peso do comportamento humano na segurança de voo.

Já as falhas relacionadas ao equipamento representam uma parcela menor. “Hoje, menos de 20% dos acidentes estão ligados a fatores materiais. A tecnologia evoluiu muito, as aeronaves são altamente confiáveis”, afirma.

Imagem da aeronave que bateu no prédio de 3 andares em BH; fabricação de 1979
Imagem da aeronave que bateu no prédio de 3 andares em BH; fabricação de 1979

Nesse contexto, o especialista ressalta que a idade da aeronave, por si só, não é um fator determinante para a segurança porque equipamento passa por constantes atualizações, com boletins dos fabricantes, manutenção rigorosa e auditorias. “Desde que tenha o certificado de aeronavegabilidade em dia, não há problema em operar aeronaves mais antigas”, pontua.

Tipos de acidentes ou incidentes com aeronaves

Entre os acidentes já analisados ao longo da última década pelo Cenipa, destacam-se como principais fatores falhas ou mau funcionamento de motor (322 casos), seguidos por perda de controle em voo (34) e perda de controle em solo (27).

As chamadas falhas de motor nem sempre indicam defeito mecânico direto. “Pode ser combustível contaminado, erro de procedimento ou uma operação inadequada. São vários fatores que podem levar à perda de potência”, explica. Esse tipo de situação pode desencadear outros problemas, como a dificuldade de manter altitude adequada.

Outro fator recorrente em acidentes é a perda de controle em voo. Segundo o especialista, isso pode ocorrer quando o piloto perde a referência visual, especialmente ao entrar em nuvens sem preparo adequado. “A aeronave pode perder sustentação ou orientação, o que leva a situações críticas rapidamente”, explica.

Também aparecem com peso significativo ocorrências como operações em baixa altitude (197), excursões de pista (45) e voo controlado contra o terreno (7),  e  — um conjunto de fatores que ajuda a contextualizar os riscos enfrentados pela aviação, especialmente em operações de pequeno porte.

Os acidentes recentes em Belo Horizonte e João Pinheiro dialogam diretamente com esse cenário, já que muitos episódios registrados no estado envolvem aeronaves em fases críticas do voo, como decolagem, pouso ou manobras em baixa altitude.

Avião agrícola que caiu em João Pinheiro-MG estava com registro vencido desde 2006

Ao comentar o caso recente em Belo Horizonte, o professor aponta que uma possível perda de potência pode ter influenciado a altura do voo. “Quando a aeronave está abaixo da altitude esperada, nem sempre é uma escolha do piloto. Pode ser consequência de desempenho reduzido, como uma falha de motor”, diz. Ainda assim, ele reforça que desvios operacionais e o não cumprimento de procedimentos também podem estar envolvidos.

Além disso, eventos como colisões com obstáculos durante a decolagem (14) e pousos aquém/além da pista (19) reforçam a complexidade operacional em determinados aeródromos e condições.

Outro dado relevante é o tipo de operação envolvida nas ocorrências. Ao longo dos anos, foram identificados registros em voos agrícolas (14), privados (14),experimentais, além de operações policiais e de táxi aéreo. Isso mostra que os riscos não estão restritos à aviação comercial regular, mas distribuídos em diferentes segmentos.

Acidentes por região de Minas

Geograficamente, o levantamento aponta concentração em polos estratégicos da aviação mineira. Confins lidera com 231 registros, seguido por Belo Horizonte, com 170 ocorrências. Outras cidades também aparecem com números expressivos, como Uberlândia (66), Montes Claros (36), Pará de Minas (31) e Uberaba (16).

Municípios menores também registram ocorrências, como Divinópolis (11), Goianá (15) e Juiz de Fora (12), indicando que o fenômeno é espalhado por todo o território estadual.

Outro ponto de atenção são as 97 colisões com aves registradas, um tipo de incidente que, embora muitas vezes não resulte em tragédia, representa risco significativo e recorrente à operação aérea.

 “A gestão do entorno dos aeródromos é fundamental. A presença de aves, por exemplo, está muitas vezes associada a lixões ou áreas rurais próximas a frigoríficos ou abatedouros irregulares. Sem controle adequado, o risco de acidente aumenta consideravelmente”, afirma.
Avião faz pouso forçado em Pará de Minas
Avião faz pouso forçado na zona rural em Pará de Minas, região Centro-Oeste do estado

A análise acumulada ao longo dos últimos dez anos pelo Cenipa, mostra que, embora muitos fatores sejam conhecidos, a repetição de ocorrências indica desafios persistentes na segurança da aviação em Minas Gerais.

Para o professor, o conjunto desses fatores mostra que a segurança aérea depende de uma cadeia complexa, que envolve não apenas tecnologia, mas muita disciplina operacional, fiscalização e preparo humano contínuo.

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