A difícil missão de resgatar gatos após tragédias como a de MG. Vídeo

Grupo especializado ainda procura animais escondidos, enquanto cidades tentam retomar rotina após 73 mortes causadas por enchentes

atualizado

metropoles.com

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Belo Horizonte – As chuvas fortes deram uma trégua para a Zona da Mata mineira, depois de um período de muito caos nas cidades atingidas pelas tempestades e enchentes no fim de fevereiro. Todas as vítimas desaparecidas em Juiz de Fora e Ubá foram encontradas, totalizando nas duas cidades um saldo de 73 mortes — mas voluntários ainda enfrentam a difícil missão de resgatar animais.

As cidades tentam se reconstruir, voltar à rotina. Os resgates de humanos foram finalizados nas duas cidades, mas em Juiz de Fora o Grupo de Resgate de Animais em Desastres (Grad Brasil) continua atuando com uma equipe de seis pessoas. Eles seguem fazendo resgates, principalmente de felinos, uma iniciativa que acaba se tornando um desafio gigantesco por causa das características peculiares do comportamento de um gato.

A voluntária do Grad que está atuando em Juiz de Fora, Carla Sassi, de 45 anos, explica que ainda há animais escondidos. “A gente ainda tem cerca de 10 gatos para resgatar. A gente está com gatoeiras armadas em vários pontos da cidade pra conseguir resgatar os animais das áreas de risco que foram evacuadas”, detalha Carla.

Para encontrar os animais, o grupo recebe informações ou as demandas chegam por meio da população, além disso, os voluntários fazem buscas ativas, identificando possível presença de animais em alguns locais. “A partir do momento que é identificada a presença de um animal, seja por relato da população, seja por imagem que alguém registrou, ou foto, ou vídeo, ou pegadas presentes ali, pegadas frescas, a gente monta as armadilhas que a gente chama de gatoeiras. Essas armadilhas são monitoradas duas vezes ao dia”, explicou.

A voluntária do Grad aponta que nos primeiros dias de um desastre os números de resgates de felinos são mais baixos. A partir do sexto ou sétimo dia é que os resgastes começam a aumentar, principalmente quando recebem informações sobre a localização do animal. E para esse tipo de resgate é necessário um plano de ação específico.

Estratégias para resgates de felinos

Em desastres, enchentes, deslizamentos, resgatar os felinos torna-se um desafio que exige preparo especializado, paciência e persistência. O conhecimento técnico em medicina felina é um diferencial. Isso é o que detalha a médica veterinária Ash Ribeiro de Souza, de 27 anos.
“Para esse tipo de situação, em desastres, é importante contar com quem sabe exatamente como agir, como os grupos de salvamento animal, para que esse resgate ocorra da melhor forma possível e com sucesso”, afirma Ash.

Ela alerta, ainda, para os tipos de problemas que os gatos podem apresentar após um resgate em tragédias:

“A gente sabe que o gato, sob um estresse muito grande, pode ter uma série de descompensações que podem culminar lá na frente com algumas doenças, alguma dermatopatia. É um animal que pode ter dificuldade de se ambientar num novo espaço, existe uma espécie de estresse pós-traumático também com animais, tanto cachorro e gato, e o gato é um animal que provavelmente vai exigir de você um cuidado e uma paciência maior na reabilitação”, detalha Ash.

Em relação a felinos, o manejo se torna bem complexo por serem animais ariscos, territorialistas, e por sempre se esconderem. Geralmente, eles são os últimos a serem encontrados e os que apresentam maior dificuldade no resgate.

“Os gatos são mais sensíveis ao estresse do que a maioria dos outros animais domésticos. Então, no momento do desastre, tudo muda ali. O cheiro muda, o movimento de pessoas, os barulhos mudam. A dinâmica de rotina dele é totalmente interrompida. Muitas vezes, ele perde a sua referência de casa, de território. Então, eles tendem a se esconder muito mais do que os outros animais domésticos”, explica a voluntária do Grad Brasil, Carla.

Resgate Inusitado

Carla Sassi conta que o resgate mais inusitado, “complexo também”, ocorreu nas primeiras horas de trabalho após a forte tempestade, em Juiz de Fora. Ela se refere ao salvamento de uma gatinha que pariu e teve seus filhotes no meio dos escombros, onde várias casas foram totalmente destruídas e várias pessoas perderam suas vidas.

“A gente conseguiu fazer o resgate dos bebês. Depois de algumas horas de busca, eu consegui encontrar essa mãezinha e agora eles estão todos bem no lar temporário. Em breve irão para adoção”, conta Carla.

Destino dos animais

Cerca de 60% dos animais resgatados têm seus tutores devidamente identificados, de acordo com informações do Grad, porém muitos ainda não têm condições de buscar os animais ou porque perderam suas casas ou por estarem em casas de familiares que não comportam animais. As pessoas que perderam tudo nas enchentes precisam recomeçar suas vidas e assim conseguir levar os animais para o novo lar.

Enquanto isso não ocorre, o Grad também providencia lugares para abrigar os animais resgatados e não há previsão para a finalização dos trabalhos. “A gente montou a casa dos gatos e a gente fica responsável por esses animais até que as famílias possam reavê-los e alguns estão sendo encaminhados para adoção”, disse Carla.

Os cães estão sendo levados para o abrigo provisório na Praça Céu, lugar todo estruturado pelo Grad Brasil para esses atendimentos. Além disso, a prefeitura de Juiz de Fora também é parceira nesse trabalho.

“Nós alugamos o imóvel para poder acolher esses animais da melhor forma possível. Lembrando que o estresse deles é muito diferente, então não dá para eles ficarem no mesmo ambiente que os cães por uma série de fatores, como o barulho de latido, o cheiro, enfim. Então, a gente alugou esse imóvel e gatificou todo ele para que os animais tenham qualidade de vida enquanto estiverem na nossa responsabilidade”, falou.

Cuidados após resgate

Os animais passam por avaliação veterinária, protocolo sanitário, recebem vacina, vermífugo e remédios antipulgas. Os felinos que precisam de algum atendimento mais específico são internados em clínicas parceiras da cidade. O grupo também está providenciando a castração para alguns animais.

Carla Sassi faz um desabafo: “É importante ressaltar que o resgate é só a pontinha do iceberg, porque quando acontece um desastre, todo mundo quer fazer resgate, quer ajudar, mas tudo que vem por trás dele, os bastidores de um desastre, são tão importantes quanto o resgate. Então, se eu resgato um animal, ele é responsabilidade minha, eu já tenho que ter tudo bem estruturado: para onde esse animal vai se ele estiver machucado, pra onde esse animal vai se ele estiver saudável, pra onde esse animal vai se ele precisar ficar separado por ter um comportamento mais agressivo. Se eu resgato, o encaminhamento desse animal também é responsabilidade minha”.

Resgates realizados

Desde o inicio da operação na Zona da Mata, o Grad Brasil havia resgatado: 93 gatos; 103 cães; 14 galinhas; um coelho, um veado campeiro e três cavalos, totalizando 215 salvamentos de animais. Os dados se referem até a segunda-feira (16/3).

Sobre o Grad

O Grupo de Resposta a Animais em Desastres (Grad) é um grupo de voluntários composto por mais de 100 membros, de diferentes áreas de atuação e estados brasileiros. O objetivo do grupo é promover ajuda humanitária aos animais e pessoas em circunstâncias de vulnerabilidade em desastres e comunidades isoladas. O Grad conta com equipe técnica qualificada e capacitada para atuar em diferentes situações, como a que ocorreu na Zona da Mata.

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