
É o bicho!Colunas

Gatos e mudança de casa: o pet se apega ao lar ou ao dono?
Especialista desmistifica a “frieza” felina e orienta como realizar a transição de endereço sem traumas para o gato
atualizado
Compartilhar notícia

A antiga crença popular de que “o cão se apega ao dono e o gato, à casa” vem perdendo força diante das novas descobertas da ciência comportamental. Embora o território seja um pilar fundamental para a segurança dos felinos, o vínculo afetivo com os humanos é real, complexo e profundo. No entanto, quando o assunto é mudança de endereço, o desafio é equilibrar a manutenção desse laço social com a reconstrução de um mundo sensorial que, para o gato, deixou de existir.
Entenda
- Vínculo além das paredes: gatos não são indiferentes; eles reconhecem vozes, cheiros e rotinas, demonstrando afeto de forma sutil, como o “piscar lento” e a proximidade física.
- O mapa de cheiros: o território é um guia olfativo. Mudar de casa apaga as marcações faciais que dão ao gato a sensação de controle e segurança.
- Sinais de estresse: apatia, falta de apetite, vocalização excessiva ou urina fora da caixa não são “birra”, mas sintomas de um animal que não reconhece o novo ambiente como seguro.
Território progressivo: a adaptação deve ser gradual. Soltar o gato na casa nova de uma só vez pode ser assustador; o ideal é apresentar um cômodo por vez.
O mito da frieza e o peso da rotina
De acordo com o médico-veterinário Rodrigo Krhom, a diferença entre cães e gatos reside na forma de expressão. Enquanto o cão é expansivo, o gato prefere a previsibilidade.
“O gato não se apega só à casa. Ele se apega à rotina e às pessoas que fazem parte daquele território”, explica Krhom. Segundo ele, o que o animal sente em uma ausência ou mudança é uma combinação da quebra do elo emocional com a desestruturação do dia a dia.
O impacto visual e olfativo
Para um felino, mudar de endereço é como se o mundo inteiro fosse reorganizado. Isso ocorre porque eles utilizam glândulas no rosto e no corpo para marcar móveis e paredes com feromônios, criando um “mapa de segurança”.
“Quando acontece a mudança, todo esse mapa desaparece. É por isso que muitos tentam fugir para retornar à antiga casa, tentando seguir o próprio rastro”, alerta o veterinário. Sintomas físicos como vômitos e alterações intestinais podem surgir caso o tutor não gerencie corretamente essa transição.
Estratégias para o “Dia D”
Para minimizar o trauma, a organização deve começar antes de o caminhão de mudança chegar. Krhom recomenda isolar o gato em um cômodo tranquilo da casa antiga com seus objetos (caminha, areia e água) enquanto os móveis são carregados.
No transporte, a caixa é indispensável, preferencialmente com uma manta que já tenha o cheiro do animal. “No mercado pet, temos feromônios sintéticos que ajudam a acalmar. Eles simulam as substâncias que os gatos liberam naturalmente quando estão seguros”, pontua.
A técnica do território progressivo
Ao chegar no novo destino, o erro mais comum é dar liberdade total ao pet imediatamente. A recomendação técnica é o território progressivo: o gato deve ser mantido inicialmente em um único cômodo “base”. À medida que ele demonstra confiança e começa a se esfregar nos móveis — deixando sua assinatura olfativa — outros cômodos podem ser liberados.
“Não se deve lavar todos os objetos do gato logo nos primeiros dias”, aconselha o especialista. Manter o cheiro antigo em arranhadores e mantas ajuda o felino a entender que, embora o CEP tenha mudado, ele ainda está em um ambiente familiar. Com paciência e respeito ao tempo do animal, o novo espaço deixa de ser um local estranho para se tornar, finalmente, um lar.


















