O que é foie gras e por que iguaria pode ser proibida no Brasil
O foie gras é uma iguaria de origem francesa mundialmente conhecida. No entanto, sua produção no Brasil pode enfrentar restrições legais
atualizado
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A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados aprovou, na terça-feira (28/4), o Projeto de Lei 90/2020, que proíbe a produção e venda de itens obtidos por meio de alimentação forçada de animais. Com isso, entra em pauta o foie gras, prato da culinária francesa que significa “fígado gordo”.
Entenda o Projeto de Lei n° 90, de 2020
- O Projeto de Lei 90/2020 proíbe a produção e a comercialização de produtos alimentícios obtidos por alimentação forçada de animais (técnica de gavage).
- O texto foi aprovado pela CCJ da Câmara em 28 de abril de 2026 e, agora, segue para sanção presidencial.
- O gavage (ou gavagem) consiste na introdução de alimentos líquidos ou pastosos diretamente no estômago via sonda no nariz ou na boca.
- Na gastronomia, é o método usado para produzir foie gras. Patos e gansos são forçados a comerem via tubo, deixando o fígado gorduroso.
- A medida visa combater maus-tratos de animais, impondo pena de detenção de até um ano e multas previstas na Lei de Crimes Ambientais.

Organizações e entidades celebram a medida
Após a aprovação do projeto, parlamentares destacaram as implicações éticas da prática e a importância de alinhar os padrões nacionais de produção de alimentos com as compreensões científicas e sociais em evolução sobre o bem-estar animal.
“A alimentação forçada causa sofrimento inegável e deve ser efetivamente proibida para garantir o bem-estar animal. Proteger os animais é um passo fundamental para construir uma sociedade mais ética e justa para todas as formas de vida”, afirma Cristina Diniz, diretora da Sinergia Animal Brasil.
Organizações e entidades de defesa dos animais também celebraram a aprovação da medida. O Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal publicou nas redes sociais uma nota dizendo que o PL “encerra uma prática ultrapassada e de sofrimento extremo, reafirmando que a crueldade animal não pode ser justificada pela gastronomia”.
Já a Animal Equality afirmou que, com a sanção presidencial, “essa conquista poderá proteger milhares de patos e gansos de uma das práticas mais cruéis da indústria alimentícia.”
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A aprovação do projeto marca um avanço significativo na legislação brasileira de proteção animal, evidenciando maior compromisso institucional com o bem-estar nos sistemas de produção de alimentos.
Por que o foie gras é tão valorizado na gastronomia?
Ao Metrópoles, Lionel Ortega, personal chef francês, explica que muitas pessoas consideram a produção de foie gras como maus-tratos, pois envolve a técnica de alimentação forçada chamada gavage.
“O fígado aumenta muito além do normal, o que levanta questões reais sobre dor e bem-estar animal. No Brasil, a Constituição já proíbe práticas cruéis. Portanto, o debate é legítimo”, afirma o profissional.
Segundo o criador do curso Oui Chef: técnicas francesas com alma brasileira, o foie gras é tão valorizado na gastronomia devido à sua textura e sabor característicos. “Tem uma textura única, bem cremosa e muito elegante. Para um chef, é um ingrediente de precisão.”

Lionel ressalta que entende as medidas que restringem ou proíbem a produção e o consumo de foie gras no Brasil. Ele acrescenta ainda que o tema é sensível, embora esteja inserido em uma tradição e cultura gastronômica.
No Brasil, ainda não há proibição nacional definitiva, então há muito debate sobre o tema.
Lionel Ortega
Existem alternativas semelhantes ao foie gras?
O foie gras é geralmente preparado fresco (cru), mi-cuit (meio cozido) ou como terrine ou patê. A iguaria, com sabor amanteigado e textura cremosa e aveludada, costuma ser servida em fatias sobre pães ou brioches, acompanhada de geleias ou com frutas frescas.
Embora não sejam iguais ao original, existem alternativas ao prato, muitas vezes chamadas de “faux gras”, que priorizam o bem-estar animal. Lionel Ortega cita o terrine de vegetais, por exemplo.
Há também opções como patês de castanha de caju, cogumelos, lentilhas ou missô. Um vídeo no Youtube ensina a preparar um foie gras sem ingredientes de origem animal. A receita leva apenas nozes e itens ricos em umami, como cogumelos, missô e extrato de tomate.
Afinal, é possível conciliar tradição gastronômica e ética animal?
Para o personal chef francês Lionel Ortega, é possível, sim, conciliar tradição gastronômica e ética animal. “A gastronomia está sempre evoluindo. Podemos buscar técnicas com mais transparência na produção. Os chefs podem evoluir sem perder a tradição.”
Atualmente, a França é o principal produtor de foie gras. Já em países como Austrália, Índia, Argentina, Israel, Reino Unido e Alemanha, a técnica do gavage é proibida, o que coloca em xeque a viabilidade da produção do foie gras nos moldes tradicionais.
