Festival de Brasília: leia crítica do filme brasiliense New Life S.A.

Produção brasiliense, primeiro longa de André Carvalheira mostra projeto utópico de arquiteto afetado por interesses empresariais

atualizado 17/09/2018 11:24

Divulgação

O primeiro fim de semana do 51º Festival de Brasília terminou neste domingo (16/9), com a estreia do longa brasiliense New Life S.A., de André Carvalheira. Antes da produção local, passaram na tela do Cine Brasília os curtas Liberdade (SP), de Pedro Nishi e Vinicius Silva, e Sempre Verei Cores no Seu Cinza (RJ), assinado por Anabela Roque.

Os três filmes exibidos mostram crônicas urbanas envolvendo temas como arquitetura e especulação imobiliária, no caso de New Life S.A., imigração, assunto tratado em Liberdade, e performances de alunos da UERJ como protesto pela sobrevivência da universidade, registradas em Sempre Verei.

Leia críticas dos filmes exibidos na noite de domingo (16/9) no Festival de Brasília:

New Life S.A. (DF), de André Carvalheira: Brasília ganha uma nova utopia
Uma das principais cenas do filme, crônica ambiciosa sobre como a especulação imobiliária massacra o sonho utópico de um arquiteto na capital federal, redefine completamente o conceito de “visite o decorado”. No espaço, quatro atores encarnam uma família digna de margarina, como diz uma das intérpretes: pai, mãe, filha e empregada. Em dado momento, as mulheres adultas trocam de função. Depois, a que vive a secretária até pede para tirar um cochilo enquanto não aparece ninguém.

New Life não chega a ser um filme sobre a natureza da encenação, mas usa essa dinâmica para fabricar o empreendimento projetado pelo arquiteto Augusto (Renan Rovida), o Dream Life. “É uma nova forma de se viver”, adianta um dos funcionários. Aos poucos, o sonho vira pesadelo.

A própria família de Augusto não é menos artificial do que a do decorado. Ele e a esposa, Marisa (Fernanda Rocha), têm um bebê, mas mal o seguram. O condomínio ainda está em construção, com uma série de percalços. Ajustes foram impostos para acelerar a obra. Operários não recebem há dias. E um deles morreu numa trágica queda. Outro trabalhador, Fabio (Wellington Abreu), decide cruzar os braços.

À frente do Dream Life, centenas de pessoas moram em um assentamento de barracos. Isso não deve ser problema para o empresário Rubens (Murilo Grossi), que tem o legislativo (o deputado e candidato a senador Valter, vivido por André Deca) e o judiciário (a juíza Salete, interpretada por Vanise Carneiro) na palma da mão.

Com design caprichado, New Life se constrói quase que totalmente em ambientes fechados e controlados, do decorado ao canteiro de obras. O problema é que a trama de Augusto perde fôlego no terço final e quase sempre soa menos instigante do que os arcos de outros personagens, como a turma de vendedores obstinados – a cena final lembra as palestras motivacionais de O Lobo de Wall Street (2013).

Por vezes, o filme também parece distraído e difuso, com personagens demais para desenvolver e uma série de possibilidades reduzidas a menos tempo de tela, como as tensões entre operários e chefes e as motivações de Fabio. Ainda assim, o diretor mostra-se promissor por meio de alguns arrojados movimentos de câmera e um bom controle do tempo e do espaço.

Avaliação: Regular

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Liberdade (SP), de Pedro Nishi e Vinicius Silva: imigração e herança
Um constante jogo de encenação é usado pela dupla de diretores para articular uma crônica sobre a vida de imigrantes no bairro paulistano. Famoso pela presença japonesa, hoje o lugar abriga uma grande comunidade africana.

Somos apresentados a três personagens: os guineenses Abou, que divide uma pensão com outros africanos, e Sow, prestes a chegar mas preso na imigração no aeroporto, e a japonesa Satsuke, presença fantasmagórica na casa.

Liberdade, o curta, narra um pouco do passado escravista e violento do bairro por meio da voz de Abou. Em outro momento, sai o interesse informativo e entra uma sequência musical filmada em close-up. Bonito documentário sobre a experiência de estrangeiros na maior metrópole brasileira.

Avaliação: Bom

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Sempre Verei Cores no Seu Cinza (RJ), de Anabela Roque: arte de protesto
Quando a UERJ se encontra em situação de risco, alunos, professores e funcionários organizam atos de resistência contra a precarização da instituição. Estudantes – entre eles, a estudante e ativista trans Matheusa Passareli, morta no início do ano – e mestres utilizam a arte como instrumento de luta e resistência.

Eles fazem um descarrego de banho de arruda em baldes plásticos. Colocam sacos de lixo na frente da Cidade Olímpica, no Rio. Gritam e fazem barulho na frente da Alerj. O curta é mais a soma das performances registradas do que uma narrativa documental concisa. De qualquer modo, serve como uma tomada de pulso da situação das universidades públicas em momento preocupante para a educação no país.

Avaliação: Regular

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