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A mostra competitiva do 51º Festival de Brasília começou neste sábado (15/9), com dois filmes dirigidos por mulheres. Tanto o curta Boca de Loba (CE) como o longa Torre das Donzelas (RJ) levaram uma intensa carga política para a tela do Cine Brasília.

Torre, documentário de Susanna Lira, reúne entrevistas com dezenas de ex-presas políticas da época da ditadura. Elas compartilham abertamente memórias do cárcere no Presídio Tiradentes, em São Paulo. A ex-presidente Dilma Rousseff é uma das personagens. Já Boca de Loba, de Bárbara Cabeça, traduz a experiência das mulheres diante do assédio em uma narrativa performática.

Leia críticas dos filmes exibidos na primeira sessão da noite de sábado (15/9) no Festival de Brasília:

Torre das Donzelas (RJ), de Susanna Lira: memórias do cárcere
O título do filme toma emprestado o apelido dado ao conjunto de celas femininas do Presídio Tiradentes, em São Paulo, onde eram mantidas dezenas de presas políticas na época mais agressiva da ditadura militar, entre o fim dos anos 1960 e o início da década de 1970.

A documentarista Susanna Lira povoa a obra de depoimentos colhidos das mais diversas maneiras. Das “cabeças falantes” em entrevistas formais a conversas coletivas filmadas em uma Torre reconstruída para o longa. Em uma espécie de galpão, vemos uma reconstituição física, com riqueza de detalhes, da prisão. Elas se sentam em beliches, declamam Marighella e Morte e Vida Severina, contam histórias do cárcere, riem e choram.

Torre das Donzelas, o filme, tenta ser uma espécie de A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, livro da bielorussa Svetlana Aleksiévitch sobre as mulheres russas que lutaram na Segunda Guerra Mundial, adaptado à experiência das brasileiras como detentas políticas.

Chama a atenção a multiplicidade de relatos sobre como elas conseguiram transformar a prisão em uma jornada o menos penitente possível, como diz a ex-presidente Dilma Rousseff em certo momento da obra. Parte importante da formação política delas foi forjada ali, com leituras e debates. Conversavam até sobre sexualidade, corpo feminino, vida doméstica. Uma emancipação atrás das grades.

Apesar da inegável força dos depoimentos, parece haver um conflito constante entre conteúdo e forma. Dramatizações breves e silenciosas, mas incômodas, se misturam às entrevistas para dar um ar dramático ao texto — é quando o longa se aproxima das distrações de um especial televisivo. E o filme nem sempre consegue equilibrar o acúmulo de histórias com uma cadência narrativa apropriada à quantidade de informações gravadas e editadas.

Avaliação: Regular

Divulgação

Boca de Loba (CE), de Bárbara Cabeça: sobre confrontar o assédio
Uma série de manifestações simbólicas contra a cultura do assédio forma esta espécie de distopia performática ambientada nas ruas de Fortaleza. As personagens passeiam pelas ruas em grupo ou sozinhas, numa cidade aparentemente vazia mas hostil.

Há uma busca por imagens fortes e significativas, como o plano de uma jovem se contorcendo enquanto caminha. Mas essas abstrações condensam uma narrativa mais elusiva do que potente. O maior trunfo do curta é a caprichada direção de arte, digna de videoinstalação.

Avaliação: Regular