Festival de Brasília: Torre das Donzelas é grito de presas políticas

A obra estreia na mostra competitiva com relatos da ex-presidente Dilma Rousseff sobre sua prisão na época da ditadura

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atualizado 15/09/2018 13:39

Parte da névoa de burocracia e falta de transparência em relação aos tempos sombrios da ditadura militar será revelada pela documentarista Susanna Lira em Torre das Donzelas (RJ). A estreia nacional do filme acontece na capital federal, neste sábado (15/9), durante a mostra competitiva do 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A obra – homônima à ala feminina do presídio de Tiradentes, em São Paulo – narra detalhes do cárcere de mulheres presas durante o estado de exceção.

O desejo de contar a história da redemocratização brasileira sob a pouca explorada ótica feminina foi um dos motores da diretora para a realização do longa. “Sempre me chamou a atenção o fato de falarmos sobre os homens que lutaram contra o regime e o papel das mulheres estar sempre relegado a algo menor, sem muita importância”, afirma a diretora, em entrevista ao Metrópoles.

De acordo com a cineasta, a falta de documentos e o difícil acesso às informações representaram um grande obstáculo para as pesquisas, iniciadas em 2011. Por esse motivo, os pilares da obra são os arquivos da Comissão da Verdade, na medida em que eram liberados, e, claro, as entrevistas com as ex-detentas.

“Levei um tempo até ter coragem de abordar a Rita Sipahi, conselheira da Comissão de Anistia e ex-prisioneira da Torre. Ela me recebeu e entendeu minhas motivações para realizar o documentário e pouco a pouco foi me levando a outras companheiras”, relembra a documentarista.

Mesmo com a ajuda de Sipahi, não foi fácil conseguir a confiança das ex-militantes no início. “São mulheres de personalidade muito forte e que me questionaram muito ao longo do processo. Mas nesses anos, ganhei a confiança delas a ponto de receber uma colaboração surpreendente para o filme. Ele é feito inteiramente com elas e experimentar isso foi a melhor parte da história”, explica.

Para a cineasta, falar sobre os horrores da ditadura militar em tempos tão sombrios é mais que necessário, mas urgente. “Eu quero crer que essas pessoas que hoje pedem a volta do regime militar não fazem a menor ideia do que realmente foi viver num regime ditatorial, e, nesse sentido, espero que nosso documentário preste alguns esclarecimentos à essa nova geração sobre tudo que vivemos”, considera Susanna.

Segundo a diretora, um dos sentimentos compartilhados por todas as presas políticas é a sensação de libertação após romper o silêncio de 45 anos e fazer revelações sobre fatos que ainda são feridas abertas para essas mulheres, e, ainda hoje, para o Brasil.

A existência de uma prisão política feminina cuja arquitetura remetia a algo medieval já é chocante. São histórias de uma potência inimaginável. Elas viveram e fizeram uma outra revolução naquele lugar. Transformaram a prisão e burlaram a condição de estarem presas de forma muito resiliente. Eu penso no preço que essas mulheres pagaram para que houvesse uma democracia. De fato foi muito alto. E o que mais me comove é que a maioria delas faria tudo novamente se fosse necessário

Susanna Lira, diretora

Curtas da noite
Antes do documentário de Susanna Lira, será exibido o curta-metragem Boca de Loba (CE), da diretora cearense Bárbara Cabeça. A obra mostra as pressões machistas e assediadoras sofridas por um grupo de mulheres nas ruas. A cineasta tem 24 anos e aposta em uma carga feminista dentro do universo fantástico de seu segundo trabalho.

Divulgação
Boca de Loba (CE)

 

51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 
Neste sábado (15/9), no Cine Brasília (106/107 Sul). Mostra Competitiva: às 18h, Boca de Loba (CE, 19min, 12 anos) e Torre das Donzelas (RJ, 97min, classificação indicativa não divulgada). Às 21h, Kairo (SP, 15min, 12 anos) e Los Silencios (SP, 87min, livre). Preço: R$ 12 (inteira) e R$ 6 (meia). Valores sujeitos a alterações sem aviso prévio. Informações: (61) 3244-1660 ou festivaldebrasilia.com.br

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