Como pandemias paralisam sociedades e estagnam o esporte
Não tenho dúvidas que atravessaremos a ameaça do coronavírus, mas a exemplo do que ocorreu no passado, o mundo vai mudar
atualizado
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Estamos atravessando a maior crise global, depois da Segunda Guerra Mundial, com países afetados, economias paralisadas e pessoas infectadas e morrendo em todos os continentes em decorrência da pandemia do novo coronavírus. Um cenário muito triste e assustador.
Contudo, por mais que se ignore completamente a experiência, não é correto dizer que esta é a primeira vez que uma pandemia estende seus nefastos tentáculos na direção do Brasil, paralisando a sociedade e estagnando o esporte.
Lá atrás, quando o Brasil ainda se chamava Pindorama, a varíola foi trazida para essas paragens pelos conquistadores europeus e dizimou noventa e todos por cento da população nativa, numa guerra biológica até certo ponto involuntária, mas de consequências cruéis e definitivas.
Sem falar na famigerada Gripe Espanhola que desabou sobre o Brasil em 1918 e devastou o país. A morte presente no ar. As pessoas erguiam a cabeça sobre as pilhas de cadáveres empilhados pelas ruas e respiravam a morte: difusa, volatizada, atmosférica – nas palavras de Nelson Rodrigues.
Eram tantos corpos que faltou caixão, faltou serviço funerário, faltou até o luto, pois as pessoas que tentavam sobreviver à catástrofe não dispunham dos meios e recursos necessários sequer para chorar seus mortos como se esperava.
A Gripe Espanhola, assim como o novo coronavírus, ataca o sistema respiratório e se espalha pelo ar, pelo contato com superfícies infectadas, de pessoa para pessoa e uma vez instalado o surto, a doença se alastra, literalmente, em progressão geométrica, colapsando os sistemas de saúde pública e os sistemas funerários. Foi o que aconteceu em 1918.
Neste ponto, faz bem esclarecer que, apesar do nome, a Gripe Espanhola não surgiu na Espanha. Longe disso. Um oceano de distância. Mas como o país era um dos poucos que não estava envolvido na Grande Guerra em 1918, a imprensa local não sofria qualquer limitação estratégica e, por isso, estampou várias mortes em suas manchetes criando a falsa impressão de que tudo acontecia lá.
Consta, porém, que a Espanhola foi causada por uma rara, mas não menos mortal, estirpe do vírus Influenza A do subtipo H1N1. Mas sabe como é: não adianta você se chamar Dona Influenza A do subtipo H1N1 quando você tem um apelido tão sonoro quando Gripe Espanhola. O apelido pegou.
Nelson Rodrigues
Em A Menina Sem Estrela, uma comovente coletânea de crônicas de Nelson Rodrigues – que permite ao leitor mergulhar em no âmago de suas profundas obsessões – a morte é uma espécie de fio condutor da narrativa. A Gripe Espanhola, claro, está presente. Pouco da vida cotidiana escapava ao olhar atento do menino Nelson e às descrições das profundas transformações que a pandemia causou na sociedade carioca ainda emocionam.
A Espanhola deixa milhares de mortos em seu rastro e até mesmo quando (da mesma maneira repentina que chegou) desaparece, causa a morte do Rio de Janeiro de Machado de Assis. No seu lugar, surgido do excesso do carnaval de 1920, na euforia de quem escapou do fim do mundo, surge uma outra cidade, erótica, transcendente, luxuriosa, cheia de novos sons, cores e pecado.
Mas antes das libertinagens e das libertações do carnaval de 1920, a Espanhola desferiu um golpe poderoso em nossa sociedade. Como é próprio dos vírus, bactérias e agentes infectantes, a Espanhola não respeitava hierarquia ou classe social, enfileirava ricos e pobres, plebeus e nobres num grande rebanho de almas perdidas rumo à danação. O próprio presidente eleito da República, Rodrigues Alves, foi uma das vítimas fatais.
Esporte
No esporte, a Espanhola também deixou sua marca de letalidade. O Fluminense de Nelson Rodrigues, que era o grande time daqueles tempos, quase foi aniquilado pela doença. Vários de seus jogadores foram infectados e caíram doentes. Archibald French foi um dos que não resistiu e morreu vítima da Espanhola. O Fluminense ainda conseguiu sagrar-se campeão daquele ano, mesmo não conseguindo reunir um time para jogar a última partida, que perdeu por W. O.
Tendo sido tão letal ao Fluminense chega a ser irônico pensar que, em inglês, o termo comumente utilizado para designar a doença seja Spanish FLU.
Já em São Paulo, o campeonato foi paralisado por três meses. Quando voltou, próximo do final do ano, só foram disputados jogos que valiam alguma coisa para a classificação final. Não se jogou para cumprir tabela naquele ano. O Paulistano de Arthur Friedenreich levou o título, o terceiro do histórico tetracampeonato paulista do CAP (1916, 1917, 1918 e 1919).
Outra mudança no calendário do futebol em 1918, foi o adiamento do Campeonato Sul-americano previsto para aquele ano. O Sul-americano foi disputado no ano seguinte, 1919, no recém construído Estádio da Laranjeiras, onde a Seleção Brasileira conquistou seu primeiro título. A Espanhola adiou por um ano a lavratura da certidão de nascimento do futebol brasileiro.
O Brasil, o Mundo e o futebol resistiram à Espanhola, mesmo tendo morrido um mundo e nascido outro num completo realinhamento da sociedade da época.
Dessa vez, não tenho dúvidas que atravessaremos a ameaça do coronavírus, mas a exemplo do que ocorreu no passado, depois de grandes eventos como esse, o mundo vai mudar. Depois que as bombas atômicas americanas caíram sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945, os únicos eventos que podem ser considerados da mesma magnitude que a pandemia do novo coronavírus são a dissolução da União Soviética e os Ataques do 11 de setembro de 2001.
Assim, como ocorreu no passado, quando esse pesadelo acabar, o mundo que conhecíamos terá deixado de existir.
