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Fabrício Boliveira vive Roberval, um personagem complexo em Segundo Sol. Na trama de João Emanuel Carneiro, o ator faz par com Laureta (Adriana Esteves) e vive os complexos de descobrir ser filho de um milionário, mesmo tendo vivido como o descendente sem pai da empregada Zefa (Claudia Di Moura).

O ator não se furtou do debate sobre a representatividade negra. A novela Segundo Sol foi acusada de embranquecer o povo baiano, mostrando protagonistas – Giovanna Antonelli, Emilio Dantas e Deborah Secco – brancos, sendo que Salvador possui a maior população negra do Brasil.

“Eu acho que é uma força do movimento negro, que está muito grande agora e vem se preparando há bastante tempo. Está muito organizado, focado, e é benéfico”, avalia Fabrício.

O Metrópoles conversou com Fabrício. Confira!

Você é baiano. É especial atuar numa trama ambientada na Bahia?
É um grande prazer poder falar da minha terra, de onde eu sou e [na qual] me formei [artista]. Depois de tanto tempo após ter saído de Salvador, voltar e poder contar uma história nessa cidade e espelhar este novo momento que ela vive é especial.

Que tal a liberdade de poder falar com seu sotaque?
Estou adorando poder falar com meu sotaque, do meu jeito. Tem quase 13 anos que vim de Salvador para o Rio de Janeiro e tive que me adaptar, falando como os cariocas ou os paulistanos.

 

Qual sua impressão sobre Segundo Sol?
Essa novela é totalmente brasileira. Fala das questões sociais, das marcas que ficam e de muitas outras coisas nas quais a gente vai se reconhecer.

Como é o caráter do Roberval?
Como todos os personagens da novela, é um caráter duvidoso. Então, será algo que vai exigir menos julgamento e mais reflexão do público. Não é apenas o bem e o mal, é sobre como as pessoas lidam com as situações que a vida apresenta.

Globo/Divulgação

Laureta (Adriana Esteves) e Roberval (Fabrício Boliveira)

 

Como está sendo sua parceria com Adriana Esteves?
Essa dupla é quente! Eu adoro trabalhar com a Adriana porque ela traz leveza às cenas e um espectro de liberdade no fazer. São coisas que eu já experimento em outras áreas, mas em televisão está sendo muito inusitado fazer isso. A gente já começou dizendo: “Vamos nos liberar e fazer o que a gente estiver a fim!”. É muito livre.

Vocês vão aprontar muitas maldades?
Essa junção dos dois é muito explosiva: uma espécie de Bonnie e Clyde brasileiros. É uma dupla que se atrai bastante, mas, ao mesmo tempo, estão os dois muito ligados no que querem individualmente. Então, há muita afinidade entre eles.

O Roberval descobriu que tem um pai rico, mas resolveu sair de casa. Por quê?
Ele resolve ir atrás de sua própria história, descobrir qual é a dele. E isso é muito legal, porque marca o Roberval. Descobriu que é filho desse cara rico, mas vai criar sua própria história e se reerguer.

E a relação com o Edgar?
Eles cresceram juntos, têm praticamente a mesma idade, mas esse desenvolvimento se deu de uma forma meio conturbada. Quando eram crianças, o Roberval chegava da escola, que era a mesma, e ia para o quarto dos fundos, tratado como empregado, enquanto o Edgar tinha tudo. Teve um pouco dessas contradições brasileiras. Então, já era uma relação conflituosa desde sempre e explodiu quando chegou um amor, que foi a Cacau.

Seu personagem tem o embate com Edgar e se envolve com a prostituição, mas o que vai movê-lo com mais intensidade?
Em Segundo Sol, todos os personagens voltam com histórias para resolver quase 20 anos depois. Marcas que ficaram. E o Roberval terá coisas para resolver também, após a passagem de tempo de 18 anos. Uma história de mentiras envolvendo a família na qual ele foi criado e da qual faz parte.

Como você viu o protesto recente de alguns grupos sociais por haver poucos atores negros na novela?
Eu acho que é uma força do movimento negro, que está muito grande agora e vem se preparando há bastante tempo. Está muito organizado, focado, e é benéfico. Eu acho que é algo para se somar à novela. É o Brasil dizendo como ele quer se ver. É uma questão de diálogo, e acho que a novela está pronta também para dialogar. Acho que as pessoas precisam se ver na televisão. É algo sobre o qual eu já falo há muitos anos.

Você acha que pode haver alguma mudança em relação ao seu personagem por causa disso, dando mais destaque para ele?
Não sei. Eu já fui convidado pelo João Emanuel para viver um personagem com destaque. Então, não sei se isso vai mudar. Não me importa muito. Eu estou na novela para contar uma história que é importantíssima, por tudo o que está acontecendo no Brasil.