Antunes Filho: morre o homem, fica o método

O mais importante diretor de teatro brasileiro construiu, como se fosse uma religião, metodologia exímia para formar bons intérpretes

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atualizado 03/05/2019 11:39

Seria natural num texto de despedida de um grande nome do teatro brasileiro que se elencasse aqui os feitos sobre as tábuas do palco. Recuperar, em palavras escritas, a genialidade do aqui e agora que se foi no exato instante que as cortinas se fecharam. Com Antunes Filho, esse procedimento seria pequeno e incapaz de reter a grandiosidade do seu legado ao teatro brasileiro.

Antunes Filho poderia ter ficado na zona de conforto que se formou em torno de si, quando foi servir cafezinho no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e aprendeu com os diretores estrangeiros a engenharia da encenação. Havia ali, sobretudo, admiração em especial por Ruggero Jacobbi, o italiano mais esquerdista de todos.

Conheceu na grandiosidade importada do TBC o que viria a se tornar a geração de ouro do teatro brasileiro. Fernanda Montenegro, Cleyde Yáconis, Cacilda Becker, Tônia Carrero, Sergio Britto, Leonardo Villar, Raul Cortez. Seguir o caminho ao lado deles seria encontrar o “porquinho de ouro” para a engorda, como costumava dizer quando ficava diante de um ator promissor.

Ao contrário, depois da peça-marco Macunaíma, de 1978, um dos beijos na boca mais gostosos entre o teatro e a brasilidade, virou as costas à tendência febril de montar projetos e assentou-se em sua pesquisa com não-atores ou intérpretes em formação no Centro de Pesquisas Teatrais (CPT), abrigado desde então no Sesc.

Suas primeiras e históricas explosões como encenador foram, aos poucos, retiradas de cena, e, com obstinação e criatividade únicas nasceu um Antunes celular, intrínseco e incubo

Fernanda Montenegro, atriz

Foi esse Antunes que formou, ao menos, três gerações de atores brasileiros de forma obstinada, missionária, espiritual e rigorosa como se fosse quase uma religião a ser seguida. Era preciso entregar a alma (e a lombar) ao guru para experimentar um estado de consciência ímpar no teatro brasileiro. Disciplina era um Pai Nosso e treinamento, a Ave Maria.

O método de Antunes Filho é uma antropofagia que se tornou um caminho reto e concreto de abertura de caminhos. Entrava-se no CPT cru e, a depender dessa devoção e da fé/talento, sai-se um ser deslumbrante em cena. Antunes misturava estudos e práticas orientais com a fisiologia da respiração. Todo o ponto de concentração do ator é a região do plexo solar, o terceiro chacra, o da vitalidade, localizado na cavidade abdominal.

O eixo do ator é deslocado para trás por meio da lombar (ai daquele que não soubesse onde se localiza a lombar!). O corpo e a voz tornam-se uma dimensão única. Não se projeta esse duplo para frente. Era preciso falar e gritar pela ressonância (como se falasse para dentro) e não pela extensão da voz.

Destrua os seus ombros. O ombro não comanda nada aqui. Não tente atuar da cintura para cima, serpenteie com as mãos e os pés, deixe que a mente comande o cérebro

Antunes Filho

O ator dizia esses comandos em voz alta durante uma tarde em que eu entrei no CPT como um ouvinte e vi esse homem obstinado trabalhando, querendo acertar e descontinuar corpos viciados. Havia ali, sem dúvida, um vulcão, violento, por vezes (há queixas de assédio moral de alguns discípulos), mas capaz de devastar o que era infértil e torná-lo um campo cheio de possibilidades.

Fui cumprimentá-lo ao final. Antunes me disse:

Não ande com a planta dos pés, não se projete para mim. Vejo ansiedade em sua respiração, seu trapézio (músculo próximo ao ombro) está travado

Emendou depois uma língua inventada de sotaque russo, metodologia desenvolvida na disciplina de oratória do CPT. Era tudo verdade. Estava muito ansioso diante do mito e queria beber dele. O fiz tantas vezes vendo seus espetáculos-aulas. O que ele fez com Nelson Rodrigues foi genial. Mas nada se iguala à perseguição em esmiuçar as tragédias gregas. A sua Medeia é inesquecível. O coro, uma obra-prima. Fico arrepiado só de me lembrar.

Teve ainda a série histórica Prêt-à-porter, na qual Antunes dava consciência total ao ator que escrevia, encenava e dirigia numa espécie de falso naturalismo. Diante de nossos olhos, tudo parecia muito perto do cotidiano, mas não era. Havia sempre uma “loucurinha” ali e acolá que nos lembrava genialmente que era teatro.

Foi ali que vi alguns dos grandes intérpretes de Antunes. Juliana Galdino, a quem acompanha em suas viagens solos, impactou-me como se tivesse diante de Salmo da Bíblia de Antunes. Ali, Juliana, uma das maiores atrizes de sua geração, era um corpo-voz-poema. Era o trabalho dela e de um mestre oferecidos a plateia como uma hóstia consagrada. Ainda me deslumbrei com Lee Taylor em A Pedra do Reino, obra-prima de Antunes, protagonizado por um dos seus mais fiéis discípulos.

O CPT, como um templo, seguirá de portas abertas. Antunes Filho nunca escondeu nada. O método é maior que a brevidade da vida.

*Sérgio Maggio é diretor-dramaturgo do Criaturas Alaranjadas Núcleo de Criação Continuada, jornalista e mestre em crítica teatral

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