Bravo, bravíssimo. A diva Bibi Ferreira segue entre nós

Metrópoles destaca 10 momentos de uma carreira que se misturava com a vida. Afinal, desde bebê atriz estava nos palcos

William Aguiar/ReproduçãoWilliam Aguiar/Reprodução

atualizado 15/02/2019 18:55

Com uma trajetória marcada pela busca da inventividade e da qualidade, Bibi Ferreira era tantas que se torna quase impossível listar 10 momentos de sua carreira de quase oito décadas. Do bebê que entrou em cena para substituir uma boneca desaparecida na peça Manhãs de Sol, de Oduvaldo Viana (o pai), à diva absoluta do teatro brasileiro, que cantava de Frank Sinatra à Edite Piaf, a filha do astro Procópio Ferreira e da bailarina argentina Aída Izquierdo. Ufa!

Como ela gostava de cantarolar, era um patrimônio. “Eu nasci há dez mil anos atrás e não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais”.

Dona de um humor ímpar, Bibi Ferreira brincava com o tempo. Dizia que o próximo show Bibi in Concert deveria se chamar O Retorno da Múmia. Ria de si porque desafiava a ordem das coisas. Quanto mais envelhecia, melhor a voz ficava. Parou quando o corpo não aguentou ser mais suporte para o talento intacto. Sorte nossa que vimos e revimos tantas vezes Bibi Ferreira resplandecendo no palco e levando o público a sentir o genuíno orgulho em ser brasileiro.

Nessa homenagem, o Metrópoles elege 10 momentos na vida da nossa estrela maior:

 

1. A bailarina:

Até despontar como estrela do teatro na década de 1940, Bibi Ferreira seguia o destino artístico apontado por sua mãe, a bailarina argentina Aída Izquierdo. Com apenas 3 anos de idade, seguia turnê com a matriarca na revista espanhola Velasco, que estreou no Chile e fez turnê na América Latina.

Ali, a pequena Abigail, educada em espanhol, era uma promessa, recitando, cantando e dançando zarzuelas e flamenco. Quando veio morar com o pai, aos 4 anos, integrou o Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Nesse período, a adolescente Bibi descobre o gosto pelas óperas e, de forma amadora, integra diversas montagens de balés e óperas.

2. O preconceito:

A pequena Bibi tinha apenas 6 anos de idade quando foi vítima de preconceito brutal praticado pelas freiras francesas do tradicional Colégio Sion, situado no bairro das Laranjeiras (RJ). Estávamos em 1929 e Procópio tinha feito a matrícula da menina, quando foi chamado para ser avisado do cancelamento. A madre superiora, Marie Gaetan, informou que não poderia admitir “filhos de artistas teatrais”, bem como “pessoas de cor, embora oriundas de famílias da sociedade”, naquela conceituada instituição.

Procópio foi aos jornais e se abriu um debate intenso sobre a decisão das freiras. Muitas notas e artigos de protestos foram publicados. Bibi, nesse período, apresentava-se com frequência no Theatro Trianon em papéis infantis. Em uma das peças, era ela que pedia a plateia silêncio: “Psiu, a peça vai começar”. Bibi teve educação primorosa no colégio Anglo-americano, com aulas de piano e balé, e o lamentável episódio entrou para a história como um marco no preconceito contra o artista brasileiro.

3. A atriz.

Bibi Ferreira estreou ao lado do pai, como atriz profissional, numa comédia de Carlo Goldoni. Era 1941 e se iniciava a parceria afetiva entre os dois nos palcos. A célebre comédia A Locandeira de Goldoni virou Mirandolina (nome da personagem principal vivida por Bibi). Foi sucesso de público e crítica, que destacava o talento da filha de Procópio.

Juntos, os dois encenaram um dos maiores sucessos do teatro brasileiro em 1944: A Pequena Catarina. As filas dobravam no teatro Serrador para ver pai e filha juntos. Eram 800 lugares lotados de segunda a segunda por seis meses.

4. A inovação:

Bibi e Procópio ainda montaram “ Divórcio, em 1950, da inglesa Clemence Dane, que tocava em tema tabu no Brasil, onde o fim do matrimônio não era legal. Bibi Ferreira assume a tradução, direção e o papel da filha do personagem, que era metáfora dos novos tempos. A peça gerou polêmicas pelo conteúdo e dividiu opiniões.

Numa foto de divulgação, Bibi e Procópio aparecem numa cama de casal o que representou uma afronta para parte do público conservador. O crítico Décio de Almeida Prado leu o espetáculo como uma tentativa de evolução na carreira “envelhecida e combalida” de Procópio, mas pôs todos os méritos nos braços de Bibi Ferreira, que se despontava no caminho da direção.

5) A empresária 

Atenta aos movimentos de modernidade em torno do teatro brasileiro e os constantes ataques da crítica ao modelo de espetáculo erguido por Procópio Ferreira, Bibi torna-se empresária teatral, em 1944, cercando-se de profissionais que representavam o frescor no palco.

Contrata Cacilda Becker, Maria Della Costa e Madame Henriette Morineau. O repertório da Companhia de Comédias Bibi Ferreira, no entanto, não consegue captar a busca por um teatro de dramaturgia brasileira e em sincronicidade aos temas urgentes do país. No entanto, a empreitada torna-se a busca do aprimoramento como diretora, que terá destaque histórico, em 1954, quando comanda Senhora dos Afogados, texto de Nelson Rodrigues. No elenco, as jovens Nathalia Timberg, Sônia Oiticica e Maria Fernanda, três geniais atrizes.

6) A diretora:

Bibi desponta como diretora num período conturbado de afirmação do teatro brasileiro moderno. É uma das primeiras, ao lado de Ester Leão e madame Henriette Morineau. Especializa-se na Royal Academy of Dramatics de Arts, em 1946, e, quando retorna, tenta arejar a carreira do pai com Divórcio.

Em 1950, ganha com a peça A Herdeira o primeiro prêmio em direção pela APCA. Pouco depois, passa a ensinar o ofício de diretora na Fundação Brasileira de Teatro (FBT), de Dulcina de Moraes. Nos anos 1980, Bibi Ferreira vai virar uma febre na direção de espetáculos, alguns bem comerciais. Atividade que manteve com frequência até os anos 2000.

Bibi entendia tudo da carpintaria teatral, tinha a capacidade de pensar não só no time das cenas e ritmo da narrativa como na visualização da iluminação. Dominava como ninguém a trama. Quando chegava para ensaiar, exigia que os atores já soubesse todo o texto decorado. Tinha a disciplina e o rigor como nortes da criação. Por isso, era tida, para alguns, como severa nos ensaios.

7) Musicais importados

Não à toa, Bibi Ferreira é considerada a diva dos musicais brasileiros, tendo o seu nome batizado a mais importante premiação dedicada ao gênero no Brasil (Prêmio Bibi Ferreira). A atriz e empreendedora montou, nos anos 1960, dois grandes musicais estrangeiros no país.

“Alô, Dolly”, que foi vivido, posteriormente no cinema, de forma brilhante, por Barbra Streisand e Walter Matthau. A peça teve mais de 300 sessões no Teatro João Caetano, em 1966. Durante a montagem, Bibi foi a Nova York e encontrou a estrela Ginger Rogers para intercâmbio. Ao lado de Bibi, no palco, estava o estonteante barítono Paulo Fortes.

Antes, Bibi fez My Fair Lady, em 1962, uma superprodução com equipe de 150 pessoas entre artistas, cantores, músicos, bailarinos, pintores, cenaristas, eletricistas, marceneiros, maquinistas, aderecistas, costureiros, maquiadores, cabeleireiros. Nunca se tinha vista tamanha produção. Ao lado de Paulo Autran e Jayme Costa (ator rival de Procópio), Bibi deu um passo fundamental para trazer ao Brasil as franquias da Broadway. Em 1972, também ao lado de Paulo Autran, estrelou O Homem de La Mancha, consagrando-se como o maior nome do teatro musicado brasileiro.

8) Musicais brasileiros.

O casamento de Bibi Ferreira com o dramaturgo Paulo Pontes abriu a janela para atriz se dedicar a musicais brasileiros e politizados. Nos anos 1970, ela fez Brasileiro: Profissão Esperança, de Paulo Pontes e Vianinha, que na versão com Paulo Gracindo e Clara Nunes, tornou-se um dos maiores sucessos do teatro nacional.

Mas é com Gota D´água, de Paulo Pontes e Chico Buarque, que Bibi atingiu o ápice na carreira de atriz. Como Joana, inspirada na trágica Medeia, arrebatou público e crítica. Situada no Rio de Janeiro e suas favelas, a montagem era um soco no capitalismo fundiário.

9) A deusa

A volta de Bibi aos palcos depois de Gota D´água (1976) é um escândalo chamado “Piaf” (1983). A atriz ganhou todos os prêmios da crítica e adjetivos possíveis. O impacto, para muitos mediúnicos, voltou a colocar a atriz e diretora no lugar de grande intérprete nacional.

A essa altura, Bibi Ferreira era também música. Pensava-se profissionalmente como cantora. Surge então projetos como o de se dedicar ao repertório de um astro. Volta então a impressionar público e crítica com a homenagem a rainha do fado, Amália Rodrigues, que a viu em cena e achou a performance deslumbrante. São viscerais os números de Bibi interpretando os fados de Amália.

10) A voz

Bibi Ferreira alcançou o status de grande voz internacional do jazz interpretando o repertório de Frank Sinatra. Nos Estados Unidos, a cantora, hoje, é reverenciada como uma das grandes damas da canção mundial. Na primeira vez em que se apresentou no Lincoln Center, em Nova York, Lisa Minelli estava na plateia e subiu ao palco para reverenciar Bibi. “Nunca vi nada igual e olha que já vi muita coisa”, sentenciou a atriz e cantora norte-americana.

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