Música clássica nas rádios: onde e como ouvir obras eruditas

Com a crise da Brasília Super Rádio FM, restam poucas opções para o brasiliense apreciar o gênero nas estações. Internet é boa alternativa

Vinícius Santa Rosa/MetrópolesVinícius Santa Rosa/Metrópoles

atualizado 14/05/2018 16:10

Em maio, o brasiliense que sintonizou na frequência 89,9 FM levou um susto. A programação da Brasília Super Rádio FM, única especializada em música clássica na cidade – algo também raro no Brasil –, deu lugar à Alpha FM no primeiro dia do mês.

Pop, anos 1980 e demais gêneros tocados dia e noite em outras frequências convencionais passaram a ocupar o espaço de obras eruditas. O programa Um Piano ao Cair da Noite era realizado ao vivo no Conjunto Nacional, mas encerrou as transmissões. Agora, só vai ao ar gravado. Criada há quase 38 anos, a emissora, afetada por uma dívida milionária com o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), continua apenas na internet.

Restam, agora, poucas opções para os entusiastas de concerto via ondas eletromagnéticas. Todas em veículos públicos. Criada em 1936 e instalada no Rio de Janeiro, a veterana Rádio MEC tem 85% de sua programação dedicada ao estilo, além de bossa nova, jazz, choro e instrumental. A transmissão chega a Brasília pela frequência 800 AM.

Outras emissoras cumprem roteiro apenas pontual. Aos sábados, às 7h30, e domingos, às 22h, a Rádio Câmara divulga o gênero no programa Pauta Musical. Eventualmente, no Brasil Instrumental. E é só. Senado e Justiça reúnem no máximo títulos de jazz, música brasileira e blues.

Um Piano era o único programa a celebrar ao vivo temas eruditos. Na falta dele, o morador de Brasília tem à disposição, na área central, apresentações da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro (foto em destaque), sempre às terças, no Cine Brasília – o Teatro Nacional, casa do conjunto, permanece fechado.

Entenda a crise da Brasília Super Rádio
Fundada por Mário e Lúcia Garofalo, a rádio enfrentou um agravamento das condições financeiras a partir de setembro do ano passado, quando a radialista faleceu. O casal não deixou herdeiros. A emissora passou para o controle de Maria José Batista Steffen, inventariante e esposa de Ivo Steffen, cunhado de Lúcia.

Em abril de 2018, uma empresa de São Paulo, a Emerge, passou a prestar serviços para a rádio. “Eles entenderam que teriam de colocar outra emissora no lugar. Mas, por contrato, mantiveram a tradicional na internet”, explica Luiz Cláudio Pitta, produtor-executivo da ex-89,9 FM desde 2000.

Divulgação
Mário e Lúcia Garofalo: fundadores da única rádio especializada em música clássica no Distrito Federal

 

Apoiada por mais de 4,5 mil pessoas em grupo de fãs no Facebook, a Super também segue adiante por meio de aplicativo (para iOS e Android). Eis a vantagem, segundo o programador: “A transmissão de web é liberada de pagar para o Ecad”. “O programa do piano ainda existe, mas é gravado. Saía caro e não tinha patrocínio. Acho que dificilmente volta ao ar na frequência”, continua.

Um dos instrumentistas de Um Piano ao Cair da Noite e autor de abaixo-assinado on-line para tornar a rádio patrimônio cultural e imaterial do Distrito Federal, Ricardo Pimentel conheceu Garofalo em 1987. O empresário o viu tocando no restaurante BierFass e o convidou para se apresentar ao vivo no programa. “Fomos pegos de surpresa e ficamos chocados”, relata, sobre o fim da atração.

“Essa rádio é um sonho que foi consolidado há 38 anos. Ela foi criada para ser a diferença. Isso que aconteceu é um retrocesso e está gerando mal-estar entre os ouvintes. Estamos na luta”, afirma o pianista.

Retificação
Após a publicação desta matéria, Steffen procurou a reportagem para fazer retificações quanto à situação da Brasília Super Rádio. “O problema financeiro não é do ano passado para cá. É de muitos anos para trás”, informou.

Ele explicou ainda que a Emerge não administra a emissora, apenas presta serviços. “Eu não sou nada aqui na rádio. A rádio não mudou de dono. Agora, temos duas programações alternativas”, afirmou.

Erudito no streaming: farto repertório
Para quem é habituado a escutar rádio via internet, vale explorar os catálogos disponibilizados pelos serviços de streaming. O Spotify, por exemplo, organiza várias playlists por meio de recortes temáticos diversos, como trilhas sonoras de filmes e lançamentos.

Na seleção Composer Weekly, um grande autor é lembrado semanalmente com dezenas de faixas. Uma maneira de introduzir o ouvinte a obras de artistas atemporais. Procurada pela reportagem, a plataforma afirmou que não divulga dados mensais de usuários de música clássica.

Mas um simples passeio pela página dedicada ao gênero dá a dimensão do interesse das pessoas. Vejamos a popularidade dos maiores “popstars”: Beethoven acumula quase 3,4 milhões de seguidores mensais, Mozart chega perto de 3,5 milhões e Bach supera os colegas com pouco mais de 3,7 milhões.

Dono do estilo conhecido como “música clássica popular”, o pianista Richard Clayderman esteve em Brasília no mês de abril para fazer show na capital. Em entrevista ao Metrópoles, se disse um ávido consumidor de obras eruditas na web.

Há uma chance maior de as pessoas ouvirem música clássica atualmente. Está muito mais fácil ir atrás e ouvir. Eu mesmo sempre procuro artistas novos na internet

Richard Clayderman, pianista

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