Jukebox Sentimental: Ventura, do Los Hermanos, mudou o rock nacional

O disco completa 15 anos e se mantém como a grande obra do grupo de barbudos

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atualizado 07/05/2018 18:08

Foi num dia assim, como o de hoje, há exato 15 anos, que o Los Hermanos lançaria o mais festejado álbum do grupo. Bom, pelo menos para muitos especialistas no assunto, é simplesmente o melhor disco da década de 2000. Um status comprovado pelas 15 faixas de Ventura.

O disco, que iria se chamar Bonança, é bem fiel ao som da banda, ou seja, sem nenhuma firula criativa ou grande invenção técnica, mas carregado de sentimento e sinceridade nas letras, soando, como se tudo fluísse na mesma direção. Retrato de uma banda no auge da maturidade e coerência.

Na essência, são músicas com uma levada animada, alegre, mas cheia de melancolia, um daqueles contrassensos que só Marcelo Camelo (voz e guitarra), Rodrigo Amarante (voz e guitarra), Bruno Medina (teclados e piano) e Rodrigo Barba (bateria) sabem fazer de forma tão simples, genuína e espontânea. O baixo, eventualmente, fica por conta do produtor Kassin.

“Uma lição aprendida na nossa curta carreira é que a única maneira de fazer as coisas direito é tendo como guia os sentimentos”, justificou o vocalista e compositor Marcelo Camelo, durante as gravações, num sítio em Petrópolis.

 

Rebeldes sentimentais
Ventura não é um trabalho fácil de assimilar na primeira audição. Precisa-se de várias imersões nesse universo marcado por muitos metais, barulhinhos surreais, narrativas introspectivas e alegorias sobre o amor. “Me diz o que é o sufoco/Que eu te mostro alguém/(…) Do nosso amor a gente é que sabe, pequena”, canta Amarante em Último Romântico – um dos pontos altos do disco, ao lado da faixa-título.

O álbum surgiu num momento delicado para a banda do ponto de vista da afirmação e da relação com os fãs. Sobretudo porque, paradoxalmente, o quarteto carioca estava de bem com a crítica, e o público, à revelia do álbum Bloco do Eu Sozinho (2001). Lançado após o enorme sucesso do disco de estreia, Los Hermanos (1999), então embalado pelo hit Anna Júlia, o segundo trabalho despertou dúvidas e celeuma com a gravadora.

Insatisfeito com a pegada nada comercial das faixas, a Abril Music (hoje falida) chiou e mandou que as canções fossem refeitas. Fiéis à natureza de fugir das tendências, preferindo colocar o coração em suas canções, a banda nem deu pelota, apresentando uma miscelânea gostosa de ritmos: indie rock, samba, aura circense e MPB. Fãs e críticos gostaram do resultado.

Quando se “exilaram”, entre o final de 2002 e início de 2003, na tranquilidade do sítio Remanso, em Petrópolis (RJ), para trabalhar as canções de Ventura, com a cumplicidade das pedras, passarinhos e beleza natural de encantadora paisagem bucólica, os músicos tinham em mente mais uma vez subverter a lógica do mercado e abraçar a intimidade de seus sentimentos pessoais. Conseguiram.

Pode parecer estranho, mas, ao ouvir Ventura, nota-se, entre uma faixa e outra, certa tristeza existencial típica do Radiohead – a exemplo da hipnotizante De Onde Vem a Calma. Conversas de Botas Batidas tem um quê de épico urbano classe média, enquanto O Velho e o Moço dá a impressão de Coldplay tocando bossa n’ roll. O Vencedor é a síntese do pop bem particular dos Los Hermanos.

Quem prestar atenção vai notar que Ventura, com sua capa naturalista, tem um pouco de Bloco do Eu Sozinho e 4, o derradeiro trabalho de estúdio da banda lançado no distante ano de 2005. Um elo perdido entre duas obras de peso tão díspares na trajetória desses meninos que aprenderam a gostar de fazer música nos corredores da PUC-Rio em 1997. E como foram longe esses universitários…

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