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O rock nacional tem cara nova no pedaço e novo sotaque. Trata-se do mineiro Ado, que acaba de divulgar seu disco de estreia, Branco no Preto. Lançado em CD e em todas as plataformas de mídia social e streaming digital, o trabalho, norteado pela voz rasgante do cantor, conta com produção musical de Cris Simões (Jota Quest, Skank) e bate fundo na alma do ouvinte pela mistura de letras criativas com forte pegada social.

“Acho que estou exercendo uma espécie de ‘vanguarda’, não vejo meu trabalho alinhado a nenhuma vertente do mercado atual”, avalia o artista, nascido em Carmo do Paranaíba (MG). “Na verdade, minha música é uma fusão de rock, soul e letras interioranas. Dizem que o rock nunca morrerá, pois está sempre se reinventando. Talvez eu me enquadre em uma dessas tentativas de reformulação do estilo”, defende.

Quando Ado diz letras interioranas, é verdade. Com muita inteligência e sensibilidade, o roqueiro consegue fundir referências proustianas que marcaram sua vida no interior de Minas, com vivências contemporâneas. É rock com cheirinho de café coado e queijo fresco, numa mistura que sintetiza suas influências confessas, como Raul Seixas, Rita Lee, Tim Maia, Creedence, Janis Joplin e Deep Purple.

“Já definiram minha música de várias formas: soul rock, rock’n soul, rockaipira, groove rural, rock do Cerrado, black rock caipira, e até rock gastronômico!”, ri o cantor. “Eu sei que, geralmente, os artistas se incomodam com rótulos, mas não é o meu caso. Meu trabalho é voltado para o público”, conclui.

“Se o Brasil continuar assim, eu vou mudar pro Paraguai”
O resultado dessa mistura original, por exemplo, é a envolvente Pinga com Leitão, hit mais chamativo do disco, que conta com poderoso arranjo de metais.

Em Elogio da Loucura – título que faz referência à obra escrita no século 16 pelo holandês Erasmo de Roterdã (1466-1536), um dos expoentes da Reforma Protestante –, o artista, esbanjando delicadeza e perspicácia, lança um olhar generoso àquelas figuras marginalizadas que perderam a razão.

Única balada de Branco no Preto, a belíssima Sonhos, Blues e Poesia, cantada carregada emoção, é uma homenagem a um grande amor da vida de Ado.

Autor de todas as faixas do álbum, Ado revela-se um atento observador das mazelas e injustiças do país ao escrever canções com crítica social atual. Basta conferir a impactante Se o Brasil Continuar Assim, na qual cada estrofe é um soco na cara dos governantes.

 

Gestado num período de sete anos, como explica o autor em making of do álbum disponibilizado no YouTube, Branco no Preto reflete muito a personalidade do artista, marcado por dualidades. Um disco que, pela originalidade e intimidade do compositor com as palavras, destoa do atual cenário da música brasileira contemporânea.

 

 

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AdoBranco no preto
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