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Acredite. A vida pessoal de Paulo Coelho é mil vezes mais interessante que seus romances – sucesso de vendos com 220 milhões de exemplares comercializados em todo o mundo e traduzido em 81 idiomas. Um fenômeno para poucos. Coisa de mago ou bruxo. Escritor de língua portuguesa mais traduzido no mundo, ele acaba de lançar novo livro “Hippie”, espécie de romance autobiográfico no qual expurga seus demônios e fantasmas.

“O livro é a fotografia do meu coração”, confessou, recentemente, em entrevista de divulgação do livro.

O título remete à fase em que o parceiro de Raul Seixas abraçou as ideias libertárias de sexo, drogas e rock ‘n’ roll do movimento hippie. Um mergulho que poderia ser resumido em canções como Stairway to Heaven (Led Zeppelin) e The House Of The Rising Sun (imortalizada pelos Animais), como ele gosta de citar, ou num sucesso da dupla, de 1973, As Minas do Rei Salomão.

Trata-se, como o autor gosta de frisar numa narrativa em terceira pessoa, não apenas de um testemunho sobre uma época em que o exercício do “poder do desejo” estava na crista da onda, mas de contestar e contrapor o fundamentalismo ideológico dos dias atuais – potencializado pela invisibilidade das redes sociais.

Divulgação

 

Mas Hippie não é um livro cheio de rancor. Na trilha dos caminhos percorridos pelo personagem Paulo, jovem sonhador que enfrenta o sistema traz retórica norteada por palavras de esperança, simplicidade e apologia à liberdade.

“Não se preocupem, estou contente, e em breve vocês terminarão por entender que não nasci para entrar para a faculdade, conseguir um diploma e arranjar um emprego. Nasci para ser livre e posso sobreviver disso…”, observa o protagonista, assim como o pastor andaluz de O Alquimista, um peregrino em busca de respostas da alma.

Torturas e o Magic Bus
Não há uma passagem dessa obra não esteja relacionado à agitada vida de Paulo Coelho. Mas as diferenças entre o olhar intimista e profundo para dentro de si, com a biografia escrita pelo jornalista Fernando Morais, há dez anos, são muitas. Em Hippie, o tom é de reflexão sobre o passado e o presente.

“Foi, digamos assim, o pior momento da minha vida. Quando eu escrevi, seis, sete páginas sobre este momento trágico… Exorcismo total”, confessou, recentemente, sobre o episódio de sua prisão.

“Sentia uma calma imensa depois de ter revivido o terror que acontecera havia um ano e meio. (…) E dava-se conta de que até aquele momento o câncer da injustiça, do desespero e da impotência vinha começando a criar metástase pelo seu corpo astral, mas agora estava livre”, reflete no livro.

Após o perrengue passado durante seu tour pela América do Sul, Paulo, nosso herói torturado, parte para o Velho Mundo onde conhece a jovem Karla, com quem divide a aventura de viajar de Amsterdã, até Katmandu, capital do Nepal, no mítico magic bus – em uma rota de mais de 10 mil quilômetros. Pelos extraordinários caminhos entre a Europa e a Ásia, o casal passa por mutações pessoais indeléveis que carregarão por toda uma vida.

“Parte da graça da vida está justamente nisso: correr riscos”, avalia Karla, num trecho da obras.

Lido por Obama, Clinton, Vladimir Putin, Malala, Madonna e Russell Crowe, entre outras celebridades, Paulo Coelho nem de longe lembra o jovem hippie que no passado cometeu todos os exageros possíveis, sem se arrepender de nada.

Hoje morando em Genebra, na Suíça, o autor acaba de assinar um contrato milionário com TV americana para transformar em série três de seus livros – Brida, O Demônio e a Srta. Prym e A Bruxa de Portobello –, desfruta o sucesso conquistado como escritor.

Bem, você pode não gostar de Paulo Coelho ou do que ele escreve, mas não dá para ignora-lo. Como ele próprio gosta de provocar: “Os meus críticos todos desapareceram e ficaram os leitores”.