Setor cultural perde 458 mil empregos devido à pandemia de Covid-19

Número é referente à comparação do último trimestre de 2020 com o mesmo período do ano anterior. Dados são do Observatório Itaú Cultural

atualizado 09/04/2021 20:32

ShowsReprodução

A pandemia de Covid-19 gerou crises sanitária e econômica no Brasil. Na área do entretenimento, artistas cancelaram shows, companhias de teatro suspenderam espetáculos e muitas pessoas ficaram desempregadas. De acordo com o Observatório Itaú Cultural, o setor da economia criativa perdeu 458 mil postos de trabalho na comparação do último trimestre de 2020 com o mesmo período do ano anterior. De outubro a dezembro de 2019, havia 7.137.912 indivíduos trabalhando no segmento. Nos mesmos três últimos meses do ano seguinte, o número havia caído para 6.679.994, uma retração de 6,4%.

Com o funcionamento de teatros, cinemas, museus, centros culturais limitado desde o ano passado, os postos de trabalho na área da cultura (artes cênicas e artes visuais, cinema, música, fotografia, rádio e TV e museus e patrimônio) foram os mais afetados pela retração, com recuo de 18% no período analisado.

Dos trabalhadores criativos especializados ligados à cultura, a queda maior foi nas ocupações de cinema, música, fotografia, rádio e TV, onde houve uma perda de mais de 95 mil postos de trabalho entre o final de 2019 e o final de 2020, representando uma taxa de queda de 30%.

Impacto na prática

Ainda em março de 2020, a Cia e Comédia G7 sentiu o amargor que permaneceria em sua trajetória nos próximos meses. À época, o grupo teatral nascido em Brasília (DF) estava com um espetáculo em cartaz e outro por vir. Ambos tiveram que ser cancelados.

“Nos meses seguintes tentamos nos organizar e fizemos lives e espetáculos drive-ins. Pegamos empréstimos e tivemos que fazer demissões no ano passado. Conseguimos manter a maioria dos funcionários, mas de uma forma muito difícil. Diminuímos os salários de todo mundo. Eu mesmo não terei salário neste mês”, pontua Rodolffo Cordón, ator e CEO do G7.

Neste ano, eles já estavam nos palcos – cumprindo todas as orientações do governo local, como, distanciamento e público limitado – quando foram surpreendidos com a segunda onda da Covid-19 no Distrito Federal. O G7 tinha um novo espetáculo anunciado, mas, por iniciativa própria, decidiu suspender as apresentações.

“Percebemos que esse mês ainda teve muitas mortes e longas filas de espera na UTI. Decidimos que, apesar de ter autorização do decreto, não era o momento de retomar”, considera Rodolffo.

Do palco aos bastidores

A queda no número de postos de trabalho afetou mais fortemente os trabalhadores informais (trabalhadores sem carteira assinada e profissionais empregadores ou conta-própria sem cadastro formal de CNPJ).

No caso dos informais, havia 2.838.385 postos de trabalho na economia criativa no 4º Trimestre de 2019. O número caiu para 2.525.900 postos no 4º Trimestre de 2020, consolidando queda de 11%.

O produtor Rafael Godoy, conhecido por estar à frente de importantes shows nacionais e internacionais na capital federal, destaca a complexidade da cadeia de empregos que a cultura é capaz de sustentar.

“É um setor que só no Brasil movimentava mais de R$ 2 bilhões em empregos diretos e indiretos. Sãos artistas, produtores técnicos, arena de eventos, ações de marketing promocional de clientes, assistentes de camarim, compras de mídias para divulgação de eventos, fornecedora de sonorização, iluminação, decoração, seguranças de eventos, entre outros milhares de equipes relacionados ao entretenimento ao vivo”, reflete o CEO da Live Experience 4You.

Projeções futuras

A vacina é vista por alguns membros do show business como um sopro de esperança para a retomada do setor cultural. No entanto, de acordo com Jader Rosa, gerente do Observatório Itaú Cultural, ainda não é a segurança de que a economia criativa retomará de vez.

“Neste momento pandêmico, ainda é cedo para apontarmos caminhos para esta mudança de cenário. Muitos são os desafios enfrentados pelo setor cultural desde o início da pandemia – e não há um prognóstico seguro de quando as atividades do setor poderão reestabelecer-se plenamente”, considera Jader.

No mercado há mais de 19 anos, Rosa aponta que os setores culturais que dependem de atividades presenciais são os mais comprometidos, sendo difícil prever uma retomada aos níveis de 2019.

“O país está fragilizado economicamente, a taxa de desemprego está maior e a desigualdade só cresce. Para pensarmos em expectativas, é necessário olhar transversalmente para as outras variáveis que nos afetam, como as questões sanitárias, apoios e fundos emergenciais”, considera.

Lives solidárias

Em mais uma tentativa de ajudar os profissionais do show business que ficaram desassistidos com a ausência dos shows presenciais, a dupla Rick e Renner promoveu nesse sábado (10/4) a live Nossa História, que teve caráter solidário.

Os sertanejos arrecadaram cestas básicas para doar a trabalhadores que tiveram as atividades afetadas pelo lockdown na pandemia de Covid-19. O show foi transmitido no canal da dupla, no YouTube.

“Como poucos sabem, o show business é, em sua grande maioria, gerido nos bastidores de um show. Iluminadores, técnicos de som, de palco, figurinos e muitos outros personagens fazer um espetáculo acontecer. Essas pessoas estão sem trabalho e, consequentemente, sem receber”, explica Renner.

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“É em prol desses profissionais que arrecadaremos cesta básica. Doaremos para uma parte desta turma que está passando por grande necessidade”, completa Rick.

Durante a pandemia, outros artistas conhecidos nacionalmente promoveram ações no intuito de oferecer suporte a quem foi afetado pela crise. No ano passado, levantamento do Metrópoles mostrou: os 10 shows que mais captaram, entre abril e maio, renderam R$ 4,7 milhões, o suficiente para comprar cerca de 10.195 cestas básicas.

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