Resta Um, com Caco Ciocler, é eleito Melhor Filme do 30º Cine PE
Apresentado na 30ª edição do Cine PE, drama político de Fernando Ceylão traz Caco Ciocler em papel denso e emocionante
atualizado
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Recife (PE) – “O medo fará que eles sejam cidadãos melhores.” Com esta provocação, dá-se início a Resta Um, vencedor dos prêmios de Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Atriz Coadjuvante na Mostra Competitiva de longas-metragens da 30ª edição do Cine PE.
O drama político, estreia de Fernando Ceylão como diretor, é estrelado por Caco Ciocler e traz uma realidade contemporânea de um Brasil distópico onde a capacidade de debater pela internet define o valor de parte da população.
A produção, segundo o diretor, nasce de uma necessidade inquietante de se fazer um filme, este pensado como se fosse um dos episódios do seriado Além da Imaginação (precursor da antologia Black Mirror). Na trama, cidadãos considerados sem valor para a sociedade são convocados a participar de um debate mortal, em que precisam conquistar os votos do público, que decide quem merece ou não sobreviver.
Com o projeto gravado em uma única locação e em apenas 10 dias de filmagens, o diretor se propôs a trazer para o longa uma série de referências e “easter eggs”. A lista inclui a direção de Steven Spielberg, os planos de Alfred Hitchcock, a direção de arte de Stanley Kubrick e o humor irreverente de Os Simpsons.
Fernando Ceylão brinca que a trama e o protagonista são como um “Joker bolsonarista” – referência ao filme Coringa (2019), que rendeu a Joaquin Phoenix o Oscar de Melhor Ator. A história de um personagem movido pelo rancor, consequência de um longo histórico de exclusão, que se transforma a partir da violência.
“[Em Resta Um,] há uma divisão no país e pessoas ganham espaços porque estão participando de debates pelo computador”, resume. “E isto mostra esse lado sombrio da internet: você pode ser uma pessoa nefasta e ainda assim tem um público que vai acompanhar isso”, diz.
Caco Ciocler protagoniza a trama
O elenco de Resta Um é certamente o maior acerto do filme. Caco Ciocler entrega uma performance trágica, dotada de um espírito altruísta e um temor pela própria sobrevivência que são estraçalhados para dar lugar a um vilão que surge em meio à fama e à hostilidade do debate on-line.
“Eu não acho que [o personagem] é mal, ele só está aprendendo a lidar com o público”, reflete Caco.
“No segundo debate, ele descobre que pode mentir, ele descobre que é um jogo. Ele entende a importância do público e como ele pode conquistar coisas com essas pessoas que não conseguiria no privado. Ele aprende que, sem o público, é só mais um.”

Maria Ribeiro, reconhecida com o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante, faz um contraponto ao interpretar a esposa do protagonista, uma personagem forte, porém impotente perante o trágico declínio do companheiro. A grande surpresa, porém, é Carlos Moreno. O amado garoto-propaganda conhecido pelas mais de três décadas de comerciais na TV interpreta o apresentador dos debates, que acompanha e narra a virada do protagonista.
“Moreno é um recordista da publicidade no Brasil. Ele talvez seja a pessoa que mais fez o mesmo comercial no país”, explica Ceylão. “Tê-lo nesse, filme que critica o capitalismo e a relação com os meios de produção foi maravilhoso”, conclui.
Segundo conta a produtora de Resta Um, Catarina Chamon, o filme deverá marcar presença em outros festivais antes de chegar ao grande público. Há uma expectativa, porém, de que dentro do próximo ano, a produção possa estar nos cinemas ou no streaming.
*A repórter viajou a convite do Cine PE.












