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Coincidência ou não, durante o burburinho causado pelo movimento Me Too, produtoras brasileiras mostram que estão prontas para incluir mulheres no mercado do audiovisual. Ou melhor, inseri-las em papeis de prestígio na indústria, historicamente reservados a homens: direção, produção, roteiro. O feminino sempre esteve inserido no cinema, mas nas funções menos visadas, como figurinista, maquiadora, editora, assistente de direção.

“O audiovisual é feito por mulheres, embora elas não sejam as cabeças das equipes. A gente fica sempre nos bastidores. Quando você vai olhar nos créditos, a diretora de produção, responsável por fazer o filme acontecer, é mulher. Mas o nome grande no cartaz é do produtor executivo. Nos cargos de chefia, ainda não somos numerosas”, comenta Fernanda Abreu, uma das cabeças por trás da Feever, empresa de audiovisual chefiada por mulheres.

O que não falta são mulheres com interesse e conhecimento na área. Por essa razão, empresas como a Feever estão se formando e ampliando o leque de oportunidades. “Homens podem nos abordar, com certeza. Somos um grupo feminino sem qualquer cláusula excludente”, explica Fernanda.

A Feever lança em 2018 o documentário Híbridos, os Espíritos do Brasil, produzido por Fernanda e dirigido por  Priscilla Telmon e Vincent Moon. O longa é uma pesquisa cinematográfica e poética sobre o que há de sagrado e misterioso no país. A empresa ainda tem três longas em fase de captação. Todos dirigidos, roteirizados e produzidos por mulheres.

 

De olho na movimentação que acontece nos Estados Unidos, a produtora Elo Company lançou, em março, a iniciativa Elas. “É um selo de duas faces. Uma é a produção de longas, ficções, documentários e animações chefiados por mulheres. Outra frente, formada por mulheres com expertise em diferentes áreas do audiovisual, forma uma confraria de profissionais focadas na tutoria de projetos”, explica a diretora de conteúdo da empresa, Bárbara Sturm.

A iniciativa se deu também depois de uma análise de dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine). “Tivemos acesso a uma pesquisa sobre longas brasileiros lançados em 2016: 17% eram dirigidos por mulheres. Além disso, não podemos fechar os olhos para a demanda do público por narrativas femininas em 2017, como é o caso de Big Little Lies, The Handmaid’s Tale, Mulher-Maravilha e Ladybird. Existe um interesse de conteúdo, faz sentido criar um envelopamento de projetos, de termos uma área exclusiva de direção feminina”, defende Bárbara.

Festival só delas
Depois de um hiato de sete anos, diretora Danielle Bertolini decidiu retomar o Festival de Cinema Tudo Sobre Mulheres. O evento acontecerá de 5 a 9 de setembro deste ano, na Chapada dos Guimarães (MT), e vai reunir produções que envolvam o universo feminino. Filmes dirigidos e produzidos por homens, no entanto, são bem-vindos.

“Nas primeiras edições do festival, reparei que os filmes dirigidos por homens não tinham histórias de mulheres vencedoras. Eram personagens problemáticas, com depressão, incapazes de darem a volta por cima. Estou curiosa para ver as obras deste ano, acredito em um outro olhar”, lembra Danielle.

 

 

 

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