“Por omissão ou atuação, todo brasileiro tem um pouco a ver com a corrupção”, diz Murilo Salles

Filme rodado em Brasília discute as relações humanas, tendo como ponto de partida a corrupção que assola o país. Roteiro escrito há oito anos ainda é atual

atualizado

metropoles.com

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“É fácil fazer previsão no Brasil, basta apostar na desgraça”, ironizou certa vez o jornalista e cineasta Arnaldo Jabor. Como não tem vocação para Nostradamus, o diretor de cinema carioca Murilo Salles (“Como Nascem os Anjos”) se valeu dessa premissa para amarrar a trama da ficção “O Fim e os Meios”, que discute as relações humanas tendo como ponto de partida a corrupção.

Com roteiro escrito desde 2007 e rodado quatro anos depois, o filme, de forma incômoda, está em sintonia com os atuais e contundentes acontecimentos políticos do país. Ainda mais porque grande parte do enredo se passa… em Brasília.

“Não é um filme sobre a corrupção, mas sobre as relações humanas, sejam elas afetivas, de poder. Tem essa coisa meio shakespeariana”, observou o cineasta, que lança nos cinemas do país três projetos simultâneos. Outros dois filmes de Salles — os documentários “Passarinho Lá de Nova York” e “Apendi a Jogar com Você”, esse último sobre dois artistas de Samambaia — passaram rapidinho pelo circuito da cidade. Ambos saíram de cartaz na quarta (9/12).

Mas ainda dá tempo de ver “O Fim e os Meios”. Na trama, Pedro Brício é Paulo Henrique, um marqueteiro carioca que parte para Brasília com o objetivo de tentar reeleger, a todo custo, um senador de Maceió vivido pelo formidável Emiliano Queiróz. Entrevista ao Metrópoles, Murilo Salles fala sobre o filme.

Como nasceu o roteiro desse filme?
Nasceu da inquietação. A gente que é artista é inquieto com o Brasil, todos os meus filmes refletem o Brasil aqui e agora, desde o primeiro que rodei. Não é um filme sobre corrupção, fala sobre as relações humanas, submetendo o espectador aos nossos fantasmas ainda da casa grande e senzala, do colonialismo, do patriarcalismo, questões meio endêmicas que são vistas através dos personagens, das relações afetivas, do poder. Tem essa coisa meio shakespeariana.

Mesmo escrito há oito anos o roteiro tem um tom profético com relação aos temas atuais. Como você vê essa coincidência?
(Ri alto). Não tenho jeito para profeta, não. Foi de propósito, porque desde o início (do roteiro) já tinha um pouco desses escândalos. Artista é antenado, é um polo imantado. Isso me povoa há muito tempo. Todos os brasileiros, por menor ou maior grau de envolvimento e até por omissão ou atuação, tem um pouco a ver com essa história da corrupção, porque ela está na cultura, está na epiderme do Brasil.

A personagem da jornalista no roteiro original era branca, mas você optou por escolher uma atriz negra para subverter a trama. Por quê?
Por que com isso eu boto um fantasma na trama. Essa mulher é negra, mas ela é uma mulher, claro que a usei negra porque queria remeter à questão do racismo no Brasil. E isso está lá presente no filme o tempo todo. Se eu sou politicamente correto com relação a esse assunto, isso não afeta as pessoas. E eu quis alfinetar mesmo, somos um país terrivelmente racista ainda.

Brasília está bastante presente em seus últimos projetos, isso aconteceu de forma orgânica?
Totalmente orgânico, mas acho Brasília muito interessante e é interessante porque é a capital do meu país. O brasileiro tem que começar a achar que Brasília não é uma coisa horrorosa, assumir a cidade enquanto brasileiro.

A fotografia do filme é pessimista e dialoga de forma calculista com a narrativa. Como foi o processo de criação da textura visual do longa a partir desse contexto?
Um pouco foi por coincidência. Deus mandou, a gente obedece. É incrível isso no filme, ele é todo cinzento. Mas o que a gente fez foi sublinhar isso, ou seja, trabalhou para que o filme fosse todo assim. Até porque isso tem tudo a ver. O Brasil tem 50 tons de cinza. Não é preto nem branco. Aqui não tem uma Justiça justa, o Congresso não nos representa, o público e o privado se confundem, enfim, as instituições não são transparentes.

Como foi trabalhar com o Iberê Carvalho (cineasta de Brasília) e a equipe da Pavirada Filmes?
Olha, foi espetacular, um encontro sensacional. Eles nos abraçaram. O Iberê é um cara muito bacana e o João Paulo Procópio (sócio na Pavirada Produções) virou meu amigo para sempre. Fui filmar em Maceió por causa dele, que nasceu lá, a família dele é de lá… Enfim, eles arrumaram um dinheiro para eu filmar porque quando fiz o filme em Brasília tinha muito pouco dinheiro. Uma grande parceria, genial.

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