“O Fim e os Meios” é um retrato cinzento das relações humanas no Brasil da corrupção
Inquietações sociais, políticas e humanistas do diretor conduzem o roteiro sóbrio e bem costurado, em que ninguém é completamente mocinho ou vilão
atualizado
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Em “O Fim e os Meios”, de Murilo Salles, o ator Pedro Brício interpreta Paulo Henrique, marqueteiro carioca que parte para Brasília com o objetivo de tentar reeleger, a todo custo, um senador de Maceió vivido pelo formidável Emiliano Queiróz. Em crise no casamento, ele vai juntar os cacos dessa relação conturbada com uma nova vida no coração do Brasil.
Acontece que a mulher Cris (Cíntia Rosa), é jornalista e fareja sujeira nas relações escusas do marido, que envolve, entre outras pessoas, o perspicaz assessor e genro do tal senador – Marco Ricca, em atuação ímpar. Mas como a carne é fraca, ela também se deixa sucumbir por esse círculo vicioso pontuado por rios de dinheiro, tráfico de influências, jogos de interesses e, claro, corrupção, sobretudo da alma.
Enfim, é o fim justificando os meios, como bem observou o pensador italiano Maquiavel (1469-1527), mas também filtrado pela ótica do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987), evidenciado na pele negra da personagem central. Tudo maquiavelicamente arquitetado pelas inquietações sociais, políticas e humanistas do diretor. “Não quis fazer um tratado sobre o Brasil, mas mostrar como ali no dia a dia nos tornamos aquilo que não queremos ser”, justifica o diretor.
O roteiro sóbrio e bem costurado escrito pelo próprio cineasta não vilaniza personagens ao extremo, nem tira da cartola heróis românticos. Muito menos transforma ou reduz a capital do Brasil em clichês baratos. Tudo é evidenciado de forma verdadeira e corriqueira dentro do que estamos acostumados a ver nos noticiários ou ouvir nos bate-papos dos cafezinhos.
Diretor de fotografia de filmes marcantes do cinema nacional como “Dona Flor e Seus Dois Maridos” e “O Beijo no Asfalto”, Murilo Salles transforma a textura visual da fita numa metáfora triste e pessimista da realidade nacional, com a paisagem colorida do Rio de Janeiro cinza e o céu ofuscante de Brasília chuvoso.
Avaliação: Muito bom
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