*
 

Considerado por muita gente uma espécie de “guru do roteiro”, Doc Comparato esteve em Brasília nesta semana para ministrar um curso sobre o assunto. Entre uma aula e outra, ele tirou um tempo para dar entrevista ao Metrópoles e conversar sobre o desafio de escrever histórias e formar novos escritores na era das plataformas de streaming. Em novembro, saiu uma reedição atualizada de seu livro mais conhecido e usado, Da Criação ao Roteiro.

A republicação serve também para comemorar os 40 anos de carreira de Comparato, autor de trabalhos como as minisséries Lampião e Maria Bonita (1979) e O Tempo e o Vento (1985), da TV Globo, e dos filmes O Beijo no Asfalto (1981), adaptação de Nelson Rodrigues, e O Cangaceiro Trapalhão (1983), entre outras produções.

“Não tem só roteiros para TV e cinema. Coloquei games, realidade virtual, animação em três dimensões, websérie. Tudo isso está aqui”, diz Comparato, apontando para o calhamaço de 720 páginas.

 

Leia entrevista com Doc Comparato:

Da Criação ao Roteiro se tornou um livro bastante manuseado ao longo dos anos. O que essa reedição traz de novo?
Estou vivendo um momento superlegal. Data simbólica dos 40 anos de carreira. Isso mede certa dose de experiência, tanto no Brasil quanto no exterior. De repente, vi a profissão completamente diferente. Divido-a em dois lugares: aquilo que você escreve para ser lido e o que você escreve para ser visto. Isso cria uma série de profissões novas.

Neste ano, a realidade virtual me capturou. É todo um outro universo de roteiro. No livro, coloquei o primeiro roteiro sul-americano de realidade virtual de ficção com jogador sendo personagem.

Você já trabalhou com escritores como José Saramago, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Leonardo Padura. Como foram essas experiências? O que você aprendeu de mais valioso com essas referências?

Gabriel [García Márquez] uma vez me disse que o escritor do terceiro milênio seria o roteirista. Escritor, dramaturgo, roteirista… Acho tudo igual. Um trabalha para ser lido pelos olhos do outro. O outro, pelo olho da câmera. São pessoas altamente criativas, cada um a seu modo e dentro de um mundo muito particular.

Gabi era fascinado pela imagem. Às vezes, quando estávamos trabalhando, eu mandava nele. “Tira isso” (risos). Relação muito gozada.

Os serviços de streaming mudaram completamente a maneira como vemos séries e filmes. Acredita que, de alguma maneira, essas novas plataformas também impactaram o processo de escrita de um roteiro?
O streaming mexeu com os roteiros. Agora, aposta-se em qualquer tipo de coisa. É uma TV mundial. A primeira coisa que uma produção tem que ter é uma cor local, uma “Carmen Miranda”. E também tem que ter reflexo, correspondência internacional. O cara da China tem de entender o que se passa aqui.

Divulgação

Em terceiro lugar, precisa ter cinematografia brilhante. O espectador de hoje é muito mais crítico, tem uma cultura de imagem fortíssima. O tempo agora é mais rápido. Formas e formatos não importam tanto. Se é série fechada ou tipo Black Mirror, com uma história de cada vez, TV e cinema não têm capacidade de cobrir isso tudo.

Ainda persiste aquele clichê que diz que o problema do cinema brasileiro é o roteiro, especialmente na comparação com o argentino. Isso é papo superado? Temos produzido bons roteiros e bons roteiristas nos últimos anos?
O problema do Brasil não está mais no roteiro. Está mais numa maior importância que se deve dar ao roteirista. As pessoas têm de ter consciência de que nada funciona sem roteiro. Só ideia na cabeça e câmera não bastam, mas servem como treino. Está havendo uma morte da sala de projeção – tanto de gente quanto do próprio espaço. A pessoa sabe que vai ver o filme depois na TV. Acho que [as salas] serão reduzidas. A tendência é, a longo prazo, acabarem.

Gostei muito do filme do Chacrinha. E Boca de Ouro, do Daniel Filho, que ainda não estreou. Mas nenhum filme funcionou [em termos de bilheteria] no Brasil neste ano, nem as comédias. O problema é da sala e dos distribuidores. Foi o erro que mudou de lugar.