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Um dos nomes do prolífico cinema francês contemporâneo, Antony Cordier lança no Brasil a comédia A Excêntrica Família de Gaspard, seu terceiro longa como diretor. Aos 45 anos, o cineasta esteve recentemente no Festival do Rio* para divulgar o filme e deu entrevista ao Metrópoles sobre a produção.

Gaspard encerra um hiato de sete anos sem novidades de Cordier. Antes, ele teve passagens destacadas em festivais e premiações com À Flor da Pele (2005), indicado ao César (o Oscar francês) na categoria de melhor primeiro filme, e Para Poucos (2010), concorrente ao Leão de Ouro em Veneza.

 

Seu novo filme representa uma guinada rumo à comédia. O personagem-título (Félix Moati) não vê a família há tempos. Planeja um reencontro no novo casamento do pai, conhecido por ser mulherengo. Antes de visitar o folclórico zoológico mantido pela família, o jovem conhece a aventureira Laura (Laetitia Dosch), que aceita fingir ser sua namorada.

Leia entrevista completa com Antony Cordier:

O que você pensou de diferente para Gaspard em relação aos seus trabalhos anteriores?
Tinha vontade de fazer uma verdadeira comédia. Sempre pensei que meus dois filmes anteriores eram comédias também. Mas me dei conta de que as pessoas gostavam sem achá-los engraçados. Então senti que a comédia era realmente um lugar onde eu poderia progredir. Subi o cursor para fazer as pessoas rirem com personagens mais malucos, excêntricos e engraçados.

O filme usa o casamento do pai do protagonista para ilustrar o fim tardio da infância dele. Como foi dar autenticidade a isso por meio da comédia romântica?
É um gênero com códigos que todos nós conhecemos. Começo do filme é boy meets girl (garoto conhece garota), algo que já temos em nossas referências cinematográficas. Eles acabam se apaixonando. O que faz as pessoas rirem é que o filme tem um tempo à frente do público.

Como surgiu essa ideia do zoológico construído pelo pai do Gaspard?
A ideia chegou quando já estávamos escrevendo o roteiro. Eu e minha roteirista (Julie Peyr) achávamos que não estava dando certo. As situações não fluíam. Então a gente se perguntou qual seria o universo onde o filme poderia acontecer. E chegou a proposta do zoológico.

O que não funcionava fora do zoo de repente começava a funcionar no zoo. Quando você tem personagens criados em meio a animais selvagens, tudo é permitido. Isso abriu todas as possibilidades.

Tem novas produções engatadas após Gaspard?
Tenho projeto de série de TV e um filme de época. Ambas coisas que nunca fiz.

Qual sua avaliação do fenômeno dos serviços de streaming e o impacto dessa tecnologia na experiência cinematográfica?
O cinema é muito importante na minha vida. Meio que me salvou. Eu sou muito ligado à experiência coletiva de sala de cinema, público e tela gigante. Sou ligado de forma afetiva ao fato de ter um distribuidor e uma sala escolhida para exibir o filme. Acho isso mais importante do que sentar em frente a uma TV diante de uma oferta de 300 filmes e escolher o que quero ver.

O ano de 2018 foi bom para o cinema francês?
Foi realmente muito interessante. Se você perguntar quais são meus três favoritos deste ano – além do Gaspard (risos) –, um não tem nada a ver com o outro. A única coisa em comum nesses três é que eles me emocionaram e consegui me projetar neles. Acho que essa diversidade é a coisa mais preciosa de uma cinematografia nacional.

Na França, a gente produz mais de 200 filmes por ano. Nesse número, sempre têm filmes ruins. O mais interessante é tomar os 10 melhores do ano e ver o que eles têm de bom.

Quais são os filmes do seu top 3?
Mektoub, My Love: Canto Uno, do (Abdellatif) Kechiche. Muito realista. Climax, de Gaspar Noé. Completamente alucinante. E uma comédia, Guy, sobre um cantor francês dos anos 1970. É realmente impressionante a transformação do corpo vivida pelo ator Alex Lutz. Ele é conhecido na França porque aparece na TV como uma mulher mais velha. No filme, apesar de ser jovem, interpreta um cantor bem mais velho.

*O repórter viajou a convite do Festival do Rio