Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Cinema

Notas sobre A Odisseia

Por que esta história é contada, sem parar, há mais de dois mil anos?

31/07/2026 02:00
Notas sobre A Odisseia
Notas sobre A Odisseia

Três anos depois que virei pai, parei de ler livrinhos de criança para meu filho na hora de dormir. Ele vinha desenvolvendo a habilidade de fala, e o preparo da hora de dormir virou a hora de conversarmos. Assim, no quase-escuro, com uma luz fraca e infantil do outro lado do quarto, proseavamos sobre banalidades, linguística e cotidiano. Até que, um tempo depois, toda a sociabilidade evolutiva do ser humano se manifestou na criança e ele me pediu: “Papai, me conta uma história?”.

Já deitados, a última coisa que eu queria fazer era reverter para os livros infantis, então a única fonte de histórias que apareceu na minha cabeça foi A Odisseia, poema épico de Homero que tive de ler como parte do currículo no ensino médio. Li uma vez só, 23 anos antes, mas várias daquelas aventuras reemergiram, com suas figuras mitológicas: ciclopes, sirenes, hidras e bruxos. Nos dias seguintes, eu contei uma história por noite, preenchendo as lacunas da memória livremente, adaptadas para o meu menino. (Na história da feiticeira Circe, por exemplo, os soldados sentam para um banquete em que são transformados em porcos; Ulisses é o único que escapa porque é o único que vai ao banheiro lavar as mãos…)

Meu filho adorava as histórias, passou anos pedindo uma ou outra, se referindo a elas pelo nome de cada monstro. Fiquei impressionado com a minha própria memória e com o fato disto tudo ficar adormecido em meu subconsciente por tanto tempo. Não deveria, pois A Odisseia está presente em todas as outras histórias. É sobre sua fundação que o cânone ocidental se ergueu. Não só isso–a aventura de uma jornada é até hoje um tijolo da mitologia literária de qualquer país. No Brasil, Guimarães Rosa usa outra metáfora em Grande Sertão: Veredas. Travessia.

Notas sobre A Odisseia - destaque galeria
7 imagens
Anne Hathaway (Penelope) no filme A Odisseia
Matt Damon em A Odisseia, de Christopher Nolan
Robert Pattinson (Antínoo) no filme A Odisseia
Anne Hathaway (Penelope) e Mia Goth (Melantho) no filme A Odisseia
Tom Holland em A Odisseia, de Christopher Nolan
Estrelado por Matt Damon como Odisseu, A Odisseia acompanha a perigosa jornada de 10 anos do herói de volta a Ítaca após a Guerra de Troia
1 de 7

Estrelado por Matt Damon como Odisseu, A Odisseia acompanha a perigosa jornada de 10 anos do herói de volta a Ítaca após a Guerra de Troia

Divulgação
Anne Hathaway (Penelope) no filme A Odisseia
2 de 7

Anne Hathaway (Penelope) no filme A Odisseia

Divulgação
Matt Damon em A Odisseia, de Christopher Nolan
3 de 7

Matt Damon em A Odisseia, de Christopher Nolan

Divulgação/Universal Studios
Robert Pattinson (Antínoo) no filme A Odisseia
4 de 7

Robert Pattinson (Antínoo) no filme A Odisseia

Divulgação
Anne Hathaway (Penelope) e Mia Goth (Melantho) no filme A Odisseia
5 de 7

Anne Hathaway (Penelope) e Mia Goth (Melantho) no filme A Odisseia

Divulgação
Tom Holland em A Odisseia, de Christopher Nolan
6 de 7

Tom Holland em A Odisseia, de Christopher Nolan

Reprodução
Odisseu é apontado na mitologia como o criador da estratégia do Cavalo de Troia
7 de 7

Odisseu é apontado na mitologia como o criador da estratégia do Cavalo de Troia

Divulgação

Levarei meu filho, hoje com 9 anos, ao cinema para assistir à versão de Christopher Nolan. Até hoje ele conhece só a minha, que é divertida, mas que amansa muito da complexidade inerente ao ser humano, e especialmente Ulisses. Um dia ele me perguntou o que Ulisses fazia tão longe de casa e respondi que ele tinha ido lutar em uma guerra.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

“Pai, o que é guerra?” De vez em quando presumimos que as crianças conhecem os mesmos conceitos que nós.

Procurei, novamente no escuro, alguma maneira de infantilizar um conceito, só que honestamente. Expliquei que guerra era briga, só que um tipo muito pior de briga, porque envolve milhares de pessoas; que é a pior coisa que o homem inventou, porque quando acontece destrói tudo ao redor, gente, bicho e cidades inteiras; que quem começa guerra não luta em guerra, que mandam os outros, gente que geralmente não tem escolha. Disse pra ele que a cidade de Tróia, que nunca existiu, tinha existido, e que tinha sido completamente queimada, por isso sumiu do mapa.

Crítica: A Odisseia transforma poema grego em jornada épica e melancólica

Não me atentei à aparente contradição entre Ulisses fazer parte disso e ainda ser considerado herói. Que tipo de herói, afinal, vence uma guerra trapaceando? Que consegue chegar em casa após vinte anos, só que sem nenhum dos soldados sob seu comando, mortos porque ele ofendeu Poseidon? Estas perguntas formam a adaptação de Nolan, traçando um paralelo entre o cavalo de Troia e a bomba atômica de seu último filme, artefatos bélicos que sinalizam os fins de suas eras. (Nisso, o filme não é muito bem sucedido, visto que Nolan não consegue evitar o final da história. É o momento mais badass de toda a literatura ocidental, e envolve um arco e flecha. Nem uma adaptação revisionista conseguiria evitá-lo.)

Tudo n´A Odisseia é assim–o texto vai mudando enquanto amadurecemos, à medida que nosso entendimento sobre a condição humana, esta que não muda desde que gente é gente, se expande. Tudo acontece de maneira mais complexa do que parece. Ulisses é herói, sim, mas passa grande parte do tempo fugindo dos perigos que encontra. O cara comparece ao confronto, mas eventualmente dá no pé quase sempre. Talvez esteja aí um dos atos mais heróicos possíveis, a determinação em perdurar, sobreviver. Se os elementos da história acontecem sempre à vontade dos deuses, é o máximo que meros seres humanos conseguem fazer.

Esta travessia é uma parábola sobre consequencias, tanto da guerra quanto da soberba, transgressões que andam lado a lado. Porém, se retirarmos dela toda a sua complexidade, enxergamos, em sua caracterização mais básica, algo que acerta em todos nós: um homem tentando voltar para casa. É por isso que a história se firmou e se reapresentou por mais de 2.700 anos. A busca de Ulisses é a busca de todos nós, o eterno regresso. É o instinto primordial do que buscamos desde que fomos expulsos do lar mais seguro de todos, o útero materno. É a ilusão que nos engana quando imaginamos que já fomos felizes e nem sabíamos. É a lembrança de tempos passados. É o sonho de sairmos pelo mundo e voltarmos para contar histórias, quem sabe, para nossos filhos, na hora de dormir.

Os gregos, que escreveram A Odisseia, inventaram uma palavra pra isso. Nostalgia.

Veja também: