A Odisseia: por que poema de 3 mil anos voltou ao centro da cultura pop
Christopher Nolan estreia releitura de A Odisseia em filme lançado nessa quinta-feira (16/7), com elenco de peso e orçamento milionário

Homero, um dos mais célebres poetas da história, certamente não poderia prever que A Odisseia se tornaria tema de vídeos no TikTok quase três mil anos depois de sua composição. Com o longa-metragem homônimo do diretor Christopher Nolan, o poema épico se transformou em um dos assuntos mais comentados da cultura pop atual e ganhou uma nova geração de admiradores.
Nolan estreou o filme baseado na obra de Homero nessa quinta-feira (16/7). A produção, uma das promessas do cinema mundial neste ano, caiu nas graças da crítica especializada e do público logo que foi anunciada. Afinal, o diretor de Interestelar conseguiu reunir um elenco de peso para o projeto de US$ 250 milhões (cerca de R$ 1,27 bilhão).
Matt Damon, Tom Holland, Zendaya, Anne Hathaway e até o rapper Travis Scott se unem para contar a história do rei de Ítaca, Odisseu (Matt Damon), em sua jornada de 10 anos para voltar para casa após o fim da Guerra de Troia. No caminho, enfrenta criaturas mitológicas, tempestades, deuses e dilemas morais enquanto tenta reencontrar a esposa Penélope (Anne) e o filho Telêmaco (Holland).
O que é A Odisseia
- É um poema épico atribuído ao poeta grego Homero, escrito por volta do século VIII a.C., há quase 3 mil anos.
- Conta a história de Odisseu (Ulisses), rei de Ítaca, que enfrenta uma jornada de dez anos para voltar para casa após o fim da Guerra de Troia.
- Mistura aventura e mitologia, com personagens como o ciclope Polifemo, a feiticeira Circe, a ninfa Calipso e a intervenção constante dos deuses gregos.
- É considerada uma das obras mais influentes da literatura ocidental, servindo de inspiração para livros, filmes, séries e outras produções culturais ao longo dos séculos.
- O termo “odisseia” passou a ser usado para descrever qualquer jornada longa, difícil e cheia de desafios, em referência à trajetória do protagonista.
Vale lembrar que esta não é a primeira vez que A Odisseia é adaptada para o cinema, apesar de o projeto de Nolan ser o mais ambicioso deles. Em 1954, por exemplo, Kirk Douglas viveu Odisseu no filme Ulysses, enquanto a minissérie The Odyssey, de 1997, é considerada uma das adaptações mais fiéis do poema até hoje.
Quando o velho se torna novo
No começo deste ano, a diretora Emerald Fennell estreou o filme O Morro dos Ventos Uivantes, baseado no romance homônimo de Emily Brontë, publicado originalmente em 1847. A produção dominou as redes sociais, especialmente quando se fala nos atores Margot Robbie e Jacob Elordi, estrelas do filme.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles EntretenimentoO mesmo aconteceu com Frankenstein, de 1818, que ganhou uma adaptação feita por Guillermo del Toro para a Netflix e levou três estatuetas douradas no Oscar 2026. O streaming também lança, neste ano, uma releitura de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, e investiu em uma série de Cem Anos de Solidão, clássico de Gabriel García Márquez de 1967.
“Hollywood trabalha há muitos anos apostando em histórias que não são novas, que o público já gosta. O risco é menor. Em 2025, dos mais de 600 filmes lançados, mais de 500 eram sequências, remakes, prequels, adaptações de livros, jogos ou reboots”, aponta Andre Deak, professor de cinema e audiovisual da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-SP).
“Apostar em histórias que já deram certo é uma tática que tem funcionado bem há muito tempo, e A Odisseia é uma história que conquista públicos há três mil anos”, explica.

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Ver todasPara André, A Odisseia trata de assuntos que nunca saíram de moda: “Temos aí a velha fórmula do homem-branco-hétero que sai destruindo ou conquistando, com uma história de amor bem normativa envolvendo tudo”, diz.
“O herói, o protagonista, é um modelo de personagem bem conhecido no mundo, em todas as culturas. Nestes tempos contemporâneos conturbados, histórias em que um herói resolve tudo parecem simplificar as coisas, trazem um certo conforto, por mais enganoso que seja”, analisa o especialista.
Gustavo Melo Czekster, doutor em escrita criativa da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS), acredita que “o retorno para casa, a astúcia para vencer os problemas, a perseverança e a fidelidade” de A Odisseia “continuam ecoando em outras partes da cultura pop justamente por serem variáveis que todos os seres humanos experimentam”.
O papel das redes sociais
Para os especialistas, é inevitável desconsiderar ainda o papel das redes sociais. E assim se fez: no TikTok, vídeos passaram a explicar detalhadamente quem é Homero, o que é a Odisseia, qual é a relação com a cultura grega, quem é Odisseu e por aí vai. Isso tudo de forma leve, divertida e irreverente, de um jeito que só vídeos curtos são capazes de fazer.
@livresenhas sou apaixonada por esse tópico 😭 #theodyssey ♬ original sound – lana instrumental 🎀
“As redes sociais proporcionam novos espaços de discussão e debate do livro. Ao tratarem da obra cinematográfica, é incontornável que falem também da obra literária, discutindo cenas, caracterização de personagens, diferenças de adaptação, peculiaridades do figurino, entre outros temas. No afã de embarcar no “assunto do momento”, as pessoas acabam discutindo temas antes restritos aos leitores de “A Odisseia”, o que democratiza o debate”, diz Gustavo.
Para Deak, páginas on-line também democratizam o acesso a obras consideradas eruditas: “Não dá para dizer que Nolan irá democratizar Homero, mas pode-se dizer que mais gente vai conhecer uma versão de A Odisseia (mesmo que nunca saibam quem foi Homero)”.
“Os clássicos encontram seus leitores pelos caminhos mais diferentes possíveis, e o cinema é um deles”, finaliza Czekster.























