Filmes de terror vivem auge? Especialistas explicam sucesso do gênero
Nos últimos meses, os filmes de terror tem dominado os cinemas e atraído cada vez mais espectadores

O terror sempre foi um dos gêneros mais populares do cinema. Nos últimos anos, porém, ele passou a conquistar um público ainda maior, impulsionado por produções que unem qualidade técnica, boas histórias e reconhecimento da crítica.
Um dos principais exemplos é Pecadores. Além de se destacar nas bilheterias ao redor do mundo, o filme dirigido por Ryan Coogler também brilhou na temporada de premiações. A produção fez história ao receber 16 indicações ao Oscar e deixou a cerimônia com quatro estatuetas.
Outro título que tem chamado a atenção é Obsessão. Estrelado por Inde Navarrette, o longa viralizou nas redes sociais e conquistou 94% de aprovação no Rotten Tomatoes. O mesmo acontece com Backrooms, que também tem despertado grande interesse do público e reforça o bom momento vivido pelo gênero.
Para a diretora Clarissa Appelt, responsável por A Herança de Narcisa, terror estrelado por Paolla Oliveira, o sucesso recente do gênero não está ligado ao surgimento de novos temas, mas à retomada de elementos já conhecidos, como o terror psicológico, agora apresentados de forma mais sofisticada e conectada às angústias contemporâneas.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles“O que acontece é que o público está ansioso por esse tipo de filme, que entra em questões reais e medos do inconsciente, mas que também ajuda a refletir sobre a vida e sobre os nossos próprios medos”, afirma.
Segundo a cineasta, produções como Pecadores, Obsessão e Backrooms têm em comum justamente essa abordagem mais profunda, que vai além dos sustos tradicionais. “Todos esses filmes, de alguma forma, se debruçam sobre questões psicológicas e partem de uma reflexão. Acho que o terror que se apoia apenas no medo e nos sustos talvez esteja perdendo um pouco de força. Talvez o público já esteja um pouco cansado disso”, completa.
A pesquisadora e crítica de cinema Beatriz Saldanha, curadora da mostra Mestras do Macabro, em cartaz no CCBB Brasília, reforça a análise de Clarissa Appelt. Para ela, o horror sempre funcionou como uma forma de traduzir os medos e as inquietações de cada época: “O gênero do horror historicamente serve como uma válvula de escape para falar sobre os medos contemporâneos (violência urbana, guerra, etc.) e das relações humanas em toda sua complexidade”.
“No caso de Obsessão, por exemplo, vivemos a era da solidão e de uma crise da heterossexualidade, onde há uma evidente desconexão entre homens e mulheres. Oportunistas reconhecem nisso formas de lucrar com a ilusão das ‘soluções fáceis’, mas que não levam em conta o que, de fato, o indivíduo deseja para si e para o casal. Ao meu ver, Obsessão fala muito sobre essa ausência de diálogo, sobre a perda da individualidade e a crise nos relacionamentos contemporâneos”, completa.

Tendência ou fenômeno passageiro?
Para Beatriz Saldanha, embora o atual destaque do terror possa parecer um fenômeno recente, o gênero sempre ocupou um espaço importante no cinema. Mesmo atravessando momentos de maior ou menor popularidade, os filmes de horror mantêm uma base fiel de espectadores, sempre em busca de novas histórias e experiências.
A cineasta também destaca que o gênero é atrativo para a indústria por sua rentabilidade. Diferentemente de outras produções, os filmes de terror não dependem, necessariamente, de grandes astros, orçamentos milionários ou efeitos visuais sofisticados para conquistar o público e alcançar sucesso comercial.
“Não acho que seja uma nova fase, mas certamente uma nova geração de realizadores que, por serem oriundos da internet, sabem fazer muito com poucos recursos e, mais do que ninguém, conseguem colocar na tela as angústias de uma geração que desconhece um mundo sem internet”, afirma.

Relação com a psicologia
Para o psicanalista Christian Dunker, o fascínio pelos filmes de terror está na capacidade do gênero de dar forma aos medos mais profundos e difíceis de explicar.
“Os filmes de terror nos colocam em contato com o que é interno. Eles dão imagens para os nossos vampiros e fantasmas. Criam narrativas para aquilo que imaginamos, mas que nem sempre conseguimos explicar racionalmente. Assim, ajudam a amenizar a experiência de uma angústia difusa, sem nome, sem história e sem significantes”, afirma.
Christian Dunker
Segundo o especialista, essas histórias permitem que o público se aproxime, de forma segura, de temas considerados assustadores ou proibidos: “Nós gostamos dos filmes de terror porque eles nos ensinam como nos aproximar dos nossos objetos mais terríveis, inclusive os de natureza sexual. Existe uma relação histórica entre a psicanálise e os contos de horror”.
Dunker lembra que essa conexão entre o horror e a psicanálise remonta aos estudos de Sigmund Freud. “Freud analisa O Homem da Areia, de E. T. A. Hoffmann, em 1919, no ensaio O Estranho. É um dos textos mais importantes para compreender a relação entre estética e psicanálise”, conta.
“As crianças também são fascinadas pelas histórias de terror às quais têm acesso — a bruxa, a madrasta, o lobo mau. Essas figuras nos ajudam a nos aproximar daquilo que é mais terrível e, por isso mesmo, às vezes também mais desejável. Em outro sentido, elas nos ajudam a dar nome ao que pode ser traumático”, conclui.











