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Reinaldo Azevedo

Por que perdemos à luz da economia, da psicologia e do marxismo lido

A economia e a psicologia explicam as nações. Marx e Freud! Eis duas das nêmesis da extrema direita. O 3º é Darwin. Mas nem precisamos dele

05/07/2026 22:38, atualizado 05/07/2026 23:09
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Por que perdemos à luz da economia, da psicologia e do marxismo lido
Por que perdemos à luz da economia, da psicologia e do marxismo lido

Ah, minhas boas brasileiras, meus bons brasileiros, “meis beins brasileieres”… Todas, todes e todos têm mais do que o direito — é um dever! — de inferir que sempre fui um desastre no futebol. Nasci enxergando quase nada. Como escreveu Clarice, a Lispector — foi ela quem me deu o nome “O É da Coisa” —, no que respeita às artes do mui antigamente chamado ludopédio, “sou fabuloso e inútil” e “ganho uma lucidez que me deixa grandioso à toa”. Ser “grandioso à toa” é a expressão de uma tragédia civilizatória. Nunca mais ninguém terá o tamanho de Clarice. Adiante.

“Mas você chegou a ser ‘fabuloso’, Reinaldo, em futebol?” Só no sentido da fábula. Eu nem via a bola. Quase cego. Até hoje. Mais me oriento, do que vejo. Mas nada que me impeça de enxergar. Sempre com os textos colados à cara. Insista-se: importante é enxergar. E eu me fiz com o filtro da política. Antes que eu tivesse descoberto Aristóteles, talvez ele tenha me descoberto — a mim e a outros tantos que veem política até na viúva que toma um Chicabon lúbrico no portão logo depois de ter enterrado o marido…

Em muitas áreas, estamos, sim, condenados à mediocridade enquanto nossos heróis forem consumíveis como sabonete, como detergente, como creme de barbear. Todas essas coisas fazem espuma, aquela coisa visível, mas sem, como escreveu João Cabral em poema célebre, “carnadura concreta”.

Ou, então, estamos a tratar de personagens das cafajestagens das bets, que se insinuaram no cotidiano dos pobres para lhes roubar renda, esperanças e utopias. Os heróis de Cazuza, e aquilo já era um desalento, tinham morrido de “overdose”. Os de agora chafurdam em milhões que não lhe fariam falta, mas que levam multidões de pobres à pobreza, olhem a palavra de novo, ainda mais “fabulosa”.

MODELITO INFLUENTE

O modelito hoje influente no colunismo à moda Neymar Jr. — a cafajestagem cheia de brasilidade — quer privatizar tudo. Notem: só os supostos “economistas” da Faria Lima opinam sobre economia na nossa imprensa, e a liberdade de opinião, nessa área, lembrando Millôr, obedece ao taxímetro… E, invariavelmente, dizem merdas “aporofóbicas” — referência bibliográfica para os mais curiosos: “Aporofobia – A aversão ao pobre: Um desafio para a democracia”, de Adela Cortina, livro publicado no Brasil pela Editora Contracorrente.

Querem privatizar tudo, claro! Pois eu quero estatizar a CBF, “autarquizá-la”, quando menos. Os jogadores da — com a licença de Zé Simão — “Selecinha” são produtos, e seus patrocinadores, por vias oblíquas, tanto ditam escolhas como determinam os rumos da CBF, esse antro de patriotas…

No dia 31 de maio de 1958, com o Brasil embarcando para a Suécia para o seu primeiro título, escreveu Nelson Rodrigues na “Manchete Esportiva”:

“Hoje, quem vai embarcar não é uma delegação, nem um time, nem um punhado de profissionais. É a pátria de chuteiras. E eu imagino a fogueira de paixão que vai acender-se em cada peito brasileiro quando o juiz apitar o começo da primeira peleja. Há de haver um momento em que os sessenta milhões de compatriotas estarão de cócoras, com o ouvido colado ao rádio, sofrendo a palpitação de cada jogada.”.

Parafraseando Padre Vieira, escrevo: notável país que tinha tal cronista. E mais notáveis as outras nações se não estiverem submetidas à afronta de picaretas que vendem as chuteiras da pátria…

MARX E FREUD

A economia e a conformação psíquica determinam o destino das nações. Marx e Freud! Eis duas das nêmesis da extrema direita vagabunda. O terceiro é Darwin — mas, nesse caso, nada há a fazer, a não ser pregar o criacionismo para a crença de ninguém, nem dos crentes. Pois bem… Temos economia grande o bastante para manter os melhores jogadores no Brasil. Mas isso não acontece porque os grandes clubes do mundo já compram o pau-Brasil na tenra infância.

Em terras ignotas, os nossos craques descolam-se, e nada há a fazer, das nossas pulsões essenciais de dor e alegria; dos nossos — pedirei à grande professora Marilena Chauí licença para apelar a Spinoza — “afetos de tristeza e de alegria”. E, volta e meia, os desterrados se juntam para tentar recuperar a memória da… “pátria de chuteiras”. E, bem…, dá sempre errado. E não por culpa dessa criançada grande que, não podendo redimir a pobreza do Brasil, redimirá ao menos a própria — e com todo o direito de fazê-lo.

Cadê o capitalismo em terra pátria para manter por aqui os nossos craques? Vai uma provocação a meu modo: até o BNDES deveria ser mobilizado em favor da pátria de chuteiras… Eu adoraria ver aqueles merdinhas da Faria Lima a ter borborigmos estertorosos ao evocar seus livros-texto, lidos até o Capítulo III, porque o excelente Aloizio Mercadante TERIA (na minha prefiguração) mantido nossos craques por aqui.

E, por óbvio, refiro-me aos textos de economia que influenciaram a direita. Nota à margem: de Marx, por exemplo, a leitura desses bambas é tão boa como a de Paulo Figueiredo. Vale dizer: merda nenhuma! Já testei isso numa recepção de bacanas. Um deles tentou fazer graça imprudente comigo… Perguntei a que livro de Marx (era o tema) ele se referia. Ficou zangado. Picaretas sempre ficam bravos quando pegos no pulo. Não nasci ontem — o que é uma pena, claro!

Falei da economia. Há a psicologia, de que terei de tratar junto com o “complexo de vira-latas”.

Na mesma crônica de 31 de maio de 1958, em que Nelson trata da “pátria de chuteiras”, ele fala dessa nossa vocação para “ganir de humildade”.  Esta CBF, assim, “privatizada”, contratou Ancelotti até 2030. Quem está disposto a cheirar o traseiro daquele a quem quer se subordinar não costuma exigir que, no campo, nos mantenha, no mínimo, no status em que estamos. Na negociação, dado o modo como se fez, quem paga já concede antes mesmo de qualquer exigência. Quem já se considera, de saída, abaixo do cocô do cavalo do bandido não tem condições nem de assistir a “Era Uma Vez no Oeste”…

ANCELOTTI, ENDRICK E NEYMAR

Volto-me para detalhes do jogo deste domingo. Noto: Ancelotti pôs Endrick em campo, e parecia que a Selecinha iria renascer. Mas aí o “mister” resolveu substituir Martinelli por um tal Neymar Jr.  A crônica esportiva, cliente moral (quando menos) de Neymar, vai se negar a reconhecer que o incompetente mais saliente da história da Seleção exerce a liderança negativa que mesmeriza seus colegas.

Parece um poema de Leminsky: “Eles têm carro/ eles têm grana/ eles têm casa/ e a grama é bacana”. Endrick sumiu, e Neymar ditou o ritmo da derrocada, inclusive para arrumar confusão inútil em campo. O gol que fez, por óbvio, não foi “culpa” dele. Tratou-se apenas de mais uma evidência do desastre.

Por que o Brasil perdeu? Porque jogou mal. E jogou mal por quê? Porque o que há de virtude na “pátria de chuteiras” foi sequestrado por pistoleiros. Nossos supostos “capitalistas” sabem se organizar para lutar contra o fim da jornada 6 X1, mas não para manter por aqui os nossos talentos do futebol. E Alguns daqueles que respondem pela “pátria de chuteiras” começam por vender as dita-cujas, mas também passariam nos cobres a pátria descalça antes que o galo cantasse três vezes — e sem direito a remissão no final.

Ademais, quando se trata de passar um traço na conta para saber quais foram as opções que fizemos, nota-se, de saída, um pacto com o fracasso, na certeza de uma vindoura redenção. E tal redenção pode, por um tempo, ser posta aos pés de um sujeito acusado de “craque”, cuja fortuna crítica se fez mais fora do campo do que dentro dele.

Parte do jornalismo esportivo, no entanto, tão independente como o econômico, insiste em chamar um homem adulto, de 34 anos, de “Menino Ney”. Ah… Menino é a PQP! Rimbaud parou de escrever aos 17. Não há nenhuma razão para que eu seja menos rigoroso com o futebol do que sou com a poesia.

PELÉ, O REI, E OS CAFAJESTES
Posso voltar a Nelson? No dia 8 de marco de 1958, na mesma “Manchete Esportiva”, ele chamou, pela primeira vez, o menino Pelé, de 17 anos, de rei:

“Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável — a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, com uma elegância fidalga, um plebeu importuno. (…) O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: a de se sentir rei, da cabeça aos pés.”.

Santo Deus! Ancelotti, com contrato até 2030, pôs Neymar em campo e conseguiu fazer com que Endrick, um atacante um pouco acima da mediocridade, passasse a ser subordinado de uma fraude publicitária que mesmeriza seus subordinados morais. Neymar entrou. E Endrick sumiu.

SOBRE GÊNIOS E IDIOTAS
Em entrevista à Folha, Ancelotti afirmou em sua modéstia cheia de empáfia:

“É 100% certo que não sou um gênio. Mas é 100% certo que não sou tonto.”
Ele não vai se zangar se eu apelar à Bíblia, a saber: Mateus 7:15-20; Lucas 6:43-45 e Mateus 12:33…
Conheco a árvore pelos frutos.. Sim, tenho a certeza de que ele não é um gênio. Mas alimento razões suficientes para duvidar de que não seja um idiota. Sobre o brasileiros que respondem pelo desastre, afirmo: nesse caso, não há dúvida nenhuma.

PARA ENCERRAR MESMO
O jornalismo que cobre economia, com raras exceções, paga pau pra Faria Lima sem nem mesmo ser remunerado por isso. Trata-se de um notável exemplo de sujeição voluntária.

Quando é que a a cobertura esportiva nativa vai parar de chamar Ancelotti de “mister”? Isso não existe por aqui. É coisa lá da Europa e carrega carga inequivocamente colonialista. Com todas as vênias: quem não está preparado para empregar um pronome de tratamento (ou o correspondente) sobre duas pernas não conseguirá fazer uma questão que não seja sobre quatro patas. De Étienne de La Boétie a Derrida, passando por meu Tio Dé, de Dois Córregos, topo esse debate. Inexiste instância intermediária entre a autonomia e a submissão.