Filme brasiliense Marés debate alcoolismo e desolação com a política

Longa de estreia do diretor e roteirista João Paulo Procópio acompanha personagem dividido entre se tratar ou perder a guarda da filha

Luciana Melo/DivulgaçãoLuciana Melo/Divulgação

atualizado 12/09/2019 13:01

Valdo (Lourinelson Vladmir), protagonista do filme brasiliense Marés, primeiro longa do diretor e roteirista João Paulo Procópio, soa como figura familiar do Brasil rachado e instável dos últimos anos.

A trama volta a 2016, ano do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), para flagrar um fotógrafo talentoso em pleno processo de autodestruição: desolado com a instabilidade política e entregue ao vício em álcool, algo que o afasta do convívio com a filha única.

Em cartaz nos cinemas do país via Projeta às 7, iniciativa de filmes nacionais da rede Cinemark em parceria com a distribuidora Elo Company, Marés registra um Brasil “em estado etílico”, segundo Procópio, sócio da produtora Pavirada Filmes e montador de O Último Cine Drive-In (2015), de Iberê Carvalho.

Sobre sair fortalecido da crise

“Naquela época (2016), a gente estava num momento absolutamente embriagado, sem saber onde pisar, sem entender a situação”, analisa o cineasta, de 39 anos. “Agora, está todo mundo numa ressaca muito forte. O Brasil está nos impondo beber”, brinca.

“Mas a gente precisa reagir, tomar água, curar nossas crises. É um período do Brasil em que está todo mundo deprimido, frequentando psiquiatra. Tomamos uma rasteira, um golpe. Mas precisamos reagir a esses absurdos”, diz o realizador, citando os constantes ataques do presidente Jair Bolsonaro (PSL) à classe cultural, como veto a produções LGBT e cortes no fundo destinado ao audiovisual.

Mesmo diante de um cenário preocupante para quem produz arte, Procópio vê Marés como um filme esperançoso. “É sobre um personagem que sai fortalecido depois da crise para buscar uma reação”, explica.

Fuga do lugar-comum

Para fugir de clichês comumente associados a alcoólatras – tanto de uma visão romântica quanto degradante –, Procópio visitou reuniões do Alcoólicos Anônimos. Sempre se apresentava como cineasta que estava ali elaborando pesquisa para um filme. “É um lugar muito rico de troca. Você se depara com personagens que fazem a jornada perfeita do herói. Reconhecem o problema e o enfrentam”, aponta.

No caso de Valdo, um alcoólatra “funcional”, que trabalha e vive uma vida minimamente normal, “o herói é o próprio inimigo”. “Precisa lutar contra ele mesmo. Quisemos fugir do lugar-comum e de estigmas e focar mais nas causas e consequências. No que levava ele a dar o primeiro gole”, descreve.

Ouvindo histórias sobre conquistas, sofrimentos e recaídas, Procópio aproveitou esse universo para anotar falas e relatos que poderiam render cenas ou reações. Tudo para tornar Valdo um personagem autêntico. E, de fato, na trama, o fotógrafo vive em contradições. Cerca-se de uns que o ajudam e outros que o atrapalham. Tanto vai a encontros do AA quanto se deixa levar por bebedeiras sem fim.


Procópio encontrou o parceiro ideal para o projeto no ator paranaense Lourinelson Vladmir, visto recentemente na série Netflix O Escolhido e no longa O Olho e a Faca, de Paulo Sacramento. Os dois se conheceram no Festival de Brasília, após a sessão do suspense Para Minha Amada Morta (2015), de Aly Muritiba. A atuação do futuro protagonista de Marés deixou o diretor impactado.

“Saí absurdamente tomado pelo filme e por ele. No hall do Cine Brasília, vi todo mundo apaixonado pelo Vladmir. E pensei, ‘é disso que eu preciso’. Alguém passível de novas chances”, conta o cineasta.

Os próximos projetos do realizador incluem a montagem de Cavalo, da dupla alagoana Werner Salles e Rafhael Barbosa, e a produção executiva de Eu Vou Tirar Você Desse Lugar, estreia em longas da atriz paraibana Marcélia Cartaxo (A Hora da Estrela, Big Jato), vencedora do prêmio de Kikito de melhor atriz por Pacarrete, no Festival de Gramado 2019.

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