Crítica: Vidro fecha trilogia de Shyamalan com estrondo emocional

Longa dá sequência aos eventos de Fragmentado (2016) e Corpo Fechado (2000) ao mostrar embate entre Dunn, Crumb e Price

atualizado 18/01/2019 9:25

Jessica Kourkounis/Universal Pictures/Divulgação

Vidro, o primeiro grande filme de 2019, coloca o diretor M. Night Shyamalan (popularizado como mestre das reviravoltas e autor de O Sexto Sentido, lançado há exatos vinte anos) de novo em contato com o universo iniciado em Corpo Fechado (2000) e reaberto em Fragmentado (2016).

Se os dois primeiros capítulos funcionam como histórias de origem de seres humanos especiais – David Dunn (Bruce Willis), o segurança hipersensível e indestrutível, e Kevin Wendell Crumb (James McAvoy), a Horda de 24 personalidades múltiplas cujo último estágio é a Besta –, o terceiro se constrói como uma fábula de revelação para o mundo orquestrada pela mente genial e insana de Elijah Price (Samuel L. Jackson), o entusiasta de histórias em quadrinhos conhecido como Sr. Vidro.

Jessica Kourkounis/Universal Pictures/Divulgação
Price (Samuel L. Jackson), Crumb (James McAvoy) e Dunn (Bruce Willis): a cena da sessão de terapia é uma das melhores do filme

 

A nova produção do indiano radicado na Filadélfia (EUA) se desenrola três semanas após os eventos de Fragmentado, quando Crumb, ex-funcionário do zoológico da cidade, massacrou garotas adolescentes e libertou a fera dentro de si – a tal Besta, espécie de evolução animalesca da raça humana ou soma de todas as criaturas supervisionadas pelo personagem.

Shyamalan parece misturar, aqui, um pouco do visual sofisticado de Corpo Fechado com a estética febril e rústica de Fragmentado. Pudera. Vidro existe para opor Dunn e Crumb. E isso acontece logo no começo, quando Dunn, agora dono de uma empresa de segurança ao lado do filho, Joseph (Spencer Treat Clark), salva quatro animadoras de torcida sequestradas por Crumb.

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Autoridades policiais finalmente capturam os dois. E entra uma personagem nova na jogada. A psiquiatra Ellie Staple (Sarah Paulson) trata pacientes com um delírio de grandeza bem específico: aqueles que acreditam serem super-heróis, criações saídas de HQs, pessoas com habilidades sobrehumanas. Seu trabalho é convencê-los de que tudo tem uma explicação científica e médica.

Estamos esquecendo do sujeito que dá nome ao filme: Elijah Price, o Sr. Vidro. Ele já está internado há anos na mesma clínica para onde são levados Dunn e Crumb. Passa horas olhando para o vazio, com semblante (aparentemente) catatônico. Na surdina, arquiteta um confronto final entre herói e vilão no prédio mais alto da Filadélfia, prestes a ser inaugurado. Para o mundo inteiro não duvidar da existência desses cidadãos sobrenaturais.

A partir daqui, vale suprimir elementos da trama e detalhar como Shyamalan decide concluir a única franquia de super-heróis totalmente autoral do cinema – escrita, dirigida e produzida por ele. Vidro é a catarse emocional e, veja só, racional de uma trilogia que já lidou com tragédia (Corpo Fechado) e trauma (Fragmentado).

Para isso, o diretor encontra um cantinho especial no roteiro para as pessoas “comuns” que acompanham o trio principal: a Sra. Price (Charlayne Woodard), mãe do Sr. Vidro, o já citado Joseph, filho único de Dunn, e Casey Cooke (Anya Taylor-Joy), única sobrevivente da Besta em Fragmentado. Figuras que servem de conexão entre esse universo místico escondido e o mundo (cínico) ao redor dele.

Vidro talvez se esforce em demasia para forjar pontes com os arquétipos de quadrinhos que tanto deseja desconstruir e remodelar – essa vontade se revela sem freios nas falas de Price. De qualquer maneira, temos aqui uma genuína fantasia entranhada no mundano, com uma capacidade de mitologização que só encontra correspondência no próprio cinema do autor – DC e Marvel bem que tentam, mas não chegam nem perto.

O comprido clímax do longa, uns 45 minutos de twists shyamalanianos e instantes de inegável impacto dramático, merece perfilar entre as melhores coisas que o indiano já filmou. Uma celebração da força da fé nas lendas que contamos para delas e nelas vivermos. “Não podem existir deuses entre nós”, argumenta a Dra. Staple. Pois só existimos por causa das nossas ilusões.

Avaliação: Ótimo

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