Crítica: Arlequina lidera Aves de Rapina em violenta colagem pop

Super-heroínas da DC ganham filme próprio em aventura que funciona como um Esquadrão Suicida "melhorado". Margot Robbie, para variar, brilha

atualizado 05/02/2020 17:33

Arlequina com cara de chateada e as mãos sobre a mesaWarner Bros./Divulgação

Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fabulosa, novo filme do Universo Estendido DC (DCEU), funciona como sequência do desastroso Esquadrão Suicida (2016). Lembra dele? Pois bem. A Arlequina vivida por Margot Robbie, única personagem que saiu ilesa daquela bagunçada reunião de vilões, agora lidera um grupo de super-heroínas – ou anti-heroínas, como queira – trilhando seus próprios caminhos na sempre amalucada e ameaçadora Gotham City.

Menções aos homens que participaram da vida passada de Arlequina, Coringa e Batman, ficam apenas nos discursos. Porque esse é um filme somente dela e delas. Harley Quinn, a psiquiatra transformada em psicopata após conhecer o palhaço assassino, levou um pé na bunda do Joker e tenta se reerguer por conta própria, sem a ajuda de ninguém.

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A tal emancipação fantabulosa, como não poderia deixar de ser, vem na forma de porradaria, explosões e sorrisos irônicos diante de inimigos desacordados ou mortos. Só assim para ser notada e levada a sério numa cidade habitada por homens hediondos. Ainda assim, elas não precisam provar nada para ninguém.

Essas e outras ideias empoderadoras da roteirista Christina Hodson (Bumblebee, Refém do Medo), porém, nem sempre encontram correspondentes à altura na direção mui atarefada de Cathy Yan (Dead Pigs).

De fato, Aves de Rapina cumpre com eficiência a missão de “melhorar” Esquadrão Suicida. Cartelinhas informativas surgem à toda, mas dessa vez parecem mais herança dos quadrinhos do que meros videoclipes informativos preguiçosos.

O filme, continuando o que fizeram Shazam! (2019) e Aquaman (2018), continua o processo de “limpeza” visual do DCEU: cores vibrantes no lugar de sombras robustas. Até as armas de Arlequina conseguem juntar impacto e pirotecnia, com estouros de fumaça e nuvens de glitter. Essa paleta de cores ajuda bastante na dinâmica das cenas de ação, tão violentas quanto cartunescas.

O problema mesmo é o que se coloca entre uma coisa e outra ao longo de Aves de Rapina: cada acerto de caracterização vem acompanhado de dois ou três entulhos narrativos na apressada tentativa de dar conta tanto do arco de Arlequina, inegavelmente a protagonista, e das outras personagens. Ah, e mais: para além das motivações solo, ainda existe a necessidade de juntar a turma e justificar o clímax de filme de equipe.

A policial Renee Montoya (Rosie Perez), cujo talento de detetive é desprezado há anos na corporação, e a Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), herdeira de família assassinada por clã rival, recebem tratamento minimamente digno, com decente tempo de tela. Já Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), cantora e solitária jovem de Gotham, ganha participação desengonçada: é o elo entre as heroínas e o arqui-inimigo delas, Máscara Negra (Ewan McGregor), conhecido por esfolar rostos de oponentes.

Cathy Yan ainda precisa arrumar tempo para Cassandra Cain (Ella Jay Basco), sagaz ladra adolescente que aos poucos vira uma espécie de afilhada de Arlequina. Tudo isso e mais um pouco em um filme de ritmo alucinante e vacilante que não chega a 110 minutos de duração.

Se Esquadrão Suicida tentou, sem sucesso, levar um pouco do humor descarado de Deadpool para a DC, a aventura de Arlequina e companhia tenta caprichar ainda mais nas tintas “para maiores”.

Nesse sentido, a infeliz escolha – provavelmente mais da Warner Bros. do que de Yan – é se apegar a essa verve metalinguística espertinha e autoconsciente do coirmão da Marvel. Arlequina narra a história todinha em off, escolhe quando parar e voltar para dar detalhes disso ou daquilo, que informações revelar agora ou deixar para depois. Lá pelas tantas, rola até piscadinha para o público.

Aves de Rapina é um filme de inegável comunicação com o público e deve significar mais um triunfo comercial da Warner/DC. Apesar de acertos na mosca, a embalagem caótica e tresloucada faz concessões incômodas a convenções de cinema pop – aí entram as deadpoolzices que, diga-se de passagem, não colam nem nos próprios longas do Deadpool.

Mesmo assim, o desvario de Arlequina e cia cria brechas promissoras para projetos futuros. Mais autênticos e seguros do que querem, espera-se.

Avaliação: Regular

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