Crítica: A Noite Amarela assombra ao imaginar Brasil sem futuro

Disponível em streaming, filme de terror dirigido por Ramon Porto Mota (O Nó do Diabo) acompanha adolescentes em praia fantasmagórica

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atualizado 17/10/2019 15:06

A Noite Amarela, primeiro longa solo de Ramon Porto Mota (leia entrevista), traz uma perspectiva bastante particular para o cinema de terror contemporâneo – sobretudo nacional. Sem a sanguinolência habitual dos pares, o filme consegue registrar uma atmosfera sensorial de assombro à beira-mar por meio de adolescentes às voltas com a despedida do colégio. O que os espera a seguir é uma terra misteriosa, ruidosa e fantasmagórica chamada Brasil.

Após a formatura do ensino médio, um grupo de adolescentes viaja à pacata Arco Velho, na Paraíba, para o que deve ser o bota-fora da turma. Nada como sair da adolescência com birita e música na companhia de amigos, não é mesmo? Uma vez no litoral, os meninos e meninas se instalam na casa do avô de uma delas. A jovem não pisa o pé lá desde os 10 anos.

Demora pouco para Porto Mota, autor de um dos segmentos de O Nó do Diabo (2017), infiltrar na narrativa um clima de constante e insistente incômodo entre os adolescentes. Há algo ali que soa simplesmente estranho, fora de lugar, deslocado. E não são eles, mas o ambiente ao redor: a casa, a obra barulhenta na praia, a estátua com um braço faltando, as porções de terra mal iluminadas perto do mar.

Uma das adolescentes se desprende da galera e se lança em descobertas solitárias – na casa e na praia. Fuçando aqui e ali, acha o escritório poeirento do avô da amiga. Um livro de historiografia da cidade, fotos, anotações com fórmulas, fitas VHS.

Medo do amanhã

Ele foi a Arco Velho para aprofundar a pesquisa de fotografia quântica. “Buscamos o que Einstein definiu como ação fantasmagórica à distância”, explica-se em uma das fitas. Algo dormente parece prestes a acordar, deturpando os frágeis limites entre o real e o sonhado. Algo para além da experiência humana, imponderável, inexplicável.

A Noite Amarela se constrói nessas paragens invisíveis que se traduzem de formas atordoantes. Os outros se dividem na busca à desaparecida. E todos são engolidos por assombros enigmáticos, ecos na escuridão, visões nauseantes, vozes sem rosto, caminhadas a esmo. Porto Mota alcança poderosa clareza visual mesmo filmando no escuro, nas sombras.

Flashbacks fornecem os últimos instantes da vida colegial. Uma briga num posto de gasolina, conversas filosóficas sobre tudo e nada, bebedeiras tão alegres quanto angustiantes. Essa presença que jamais se revela mas tanto assombra os adolescentes alude ao fim de um ciclo e início de outro. Estando no Brasil, o amanhã é sempre um borrão.

Avaliação: Bom

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