Crítica: bom terror Morto Não Fala funde assombração e periferia

Com Daniel de Oliveira e Fabiula Nascimento no elenco, filme de Dennison Ramalho segue funcionário de necrotério perseguido por encosto

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atualizado 11/10/2019 12:47

Morto Não Fala, como informam os créditos finais, é um filme de terror “cometido por Dennison Ramalho”. A brincadeira vem com certo orgulho e não por acaso. Assinando o primeiro longa após promissora carreira de curtas (Ninjas, Amor Só de Mãe) e coescrever o roteiro de Encarnação do Demônio (2008), de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, o diretor gaúcho conta poderosa história de assombração – ou, no nosso léxico nacional, encosto – ambientada na periferia violenta de São Paulo.

Desde as primeiras cenas vemos Stênio (Daniel de Oliveira), plantonista noturno de um necrotério, conversando com cadáveres que chegam ao insalubre, fedorento e gelado espaço de trabalho do protagonista. Trocar ideia com quem já se foi, para ele, é tão cotidiano quanto ver corpos sem vida na mesa de metal.

Passam por ali mortos produzidos por desgraças diversas. De guerra de facções criminosas a vítimas de deslizamento de terra na favela. “Se eu conto aqui o que vocês me contam daí…”, provoca Stênio, num desses diálogos com o além.

É num desses papos que surge a maldição sugerida no título. Desconfiado de que a mulher, Odete (Fabiula Nascimento), tem um caso com o padeiro da região, Jaime (Marco Ricca), Stênio prefere ficar no necrotério do que em casa.

Em uma noite qualquer, escuta segredo sobre a morte de Sujo, bandidão da periferia, pela polícia. Stênio quebra a harmonia espiritual invisível entre o lado de cá e o de lá e usa essa informação para se livrar de Jaime. Acaba, no fim das contas, atraindo para si e seus filhos, Ciça (Annalara Prates) e Edson (Cauã Martins), assombros de vingança.

Encosto e superstição

Com sutis detalhes de ambientação, Ramalho consegue construir muito bem um clima de periferia digno de um horror bem brasileiro. Ruídos de sirenes vêm das ruas, notícias sensacionalistas mergulham em tragédias diárias, pastores exorcizam gente possuída por demônios na TV.

Não basta uma vida à margem, de mera sobrevivência, abandonada pelas autoridades. O encosto parece representar a consagração de todos os males. Vem como último prego no caixão. Ramalho acerta no comentário social sem sacrificar artifícios prazerosos do cinema de terror, como a brilhante cena do cerol e as fartas explosões de gore e espantos sobrenaturais.

Morto Não Fala poderia ser um pouco mais enxuto e menos reiterativo no roteiro, algo plenamente perdoável num longa de estreia. De qualquer modo, um horror que funde com vigor crônica urbana e história sobrenatural.

Avaliação: Bom

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