Cannes: Carol Duarte e Júlia Stockler conversam com o Metrópoles

"A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" concorre na mostra Un Certain Regard, importante e relevante competição em paralelo à Palma de Ouro.

Festival de Cannes/Divulgação

atualizado 29/02/2020 16:36

O novo filme do diretor brasileiro Karim Aïnouz é uma revelação (confira nossa crítica). Um dos favoritos ao prêmio da mostra paralela Un Certain Regard, é ancorado em duas personagens femininas, as irmãs Eurídice e Guida que, antes inseparáveis, são arrancadas uma da outra por uma crise familiar. Guida, apaixonada, foge de casa para se casar com um marinheiro grego, uma sina imperdoável na visão do pai. Quando ela volta, grávida e abandonada, é deserdada e todas suas tentativas de contato com a irmã são barradas. Eurídice, sem saber da proximidade da irmã, vê seu sonho de tocar piano no Conservatório de Viena interrompido pelo seu casamento arranjado e a subsequente maternidade.

O filme deverá marcar a vida de suas duas atrizes. Não só profissionalmente, pelo sucesso de crítica sempre a rasgar-lhes elogios, mas também emocionalmente, pelas lágrimas que escorreram durante a exibição e pela paixão que transmitem ao falar do trabalho. Carol Duarte, que interpreta Eurídice, já é conhecida de grande parte do público brasileiro após viver Ivana/Ivan na novela “A força do querer”. Júlia Stockler, no papel de Guida, é a surpresa maior.

O Metrópoles sentou com as duas atrizes para uma longa conversa sobre seus personagens, o processo de preparo, e a vida no set. Confira:

Metrópoles: “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” é um livro [de Martha Batalha]. Vocês já conheciam o trabalho?

Júlia Stockler: Eu entrei quase no final do segundo tempo. Já tinha feito milhões de testes, a Carol já estava [no filme]. Eu soube por um amigo e aí eu fiz um teste com o Karim. Era pra durar 20 minutos, acabou durando uma hora e meia. A gente teve um encontro muito bonito já no teste. E ele [pediu] para não ler o livro. Só que a Carol já tinha lido, né? E eu não. Nunca li o livro. Eu fiquei mais na imersão do roteiro. O livro eu vou ler agora com calma, com um olhar mais distanciado. Os personagens mudaram muito no roteiro. A relação delas mudou, o final mudou…

Carol Duarte: É, acho que o livro é bem diferente do que o filme. Eu entrei no filme por teste também. O Karim e a produção postaram um negócio de mandar um vídeo, de cabelo solto, sem maquiagem, de três minutos…

Júlia: Parada.

Carol: …aí mandei e me chamaram pro teste, a gente fez o teste com o Karim, com a Nina Kopko, que é diretora-assistente, mas não sabia nada do filme. Eu não sabia do que se tratava, o texto não tinha a ver com o filme, necessariamente, era o texto de um livro chamado “A guerra não tem rosto de mulher”, de uma russa.

Metrópoles: As duas personagens, Eurídice e Guida, são irmãs muito íntimas, com uma ligação muito forte. Na duração do filme, porém, tem pouquíssimas cenas juntas. Como criaram essa intimidade e a separação no set?

Júlia: A gente teve pouco contato durante as gravações. O Karim fazia questão, às vezes, da gente não se encontrar, mesmo se a gente estava no mesmo lugar, na mesma locação.

Carol: A gente não se via. Então a gente lidou muito antes, na preparação.

Júlia: Nossa preparação foi muito vertical, muito profunda, de exercício onde a gente desenvolvia uma relação de confiança no trabalho uma da outra. A gente não se conhecia antes desse trabalho, a gente não conhecia o trabalho uma da outra. Então a preocupação era com o que a gente conseguisse, de fato, estabelecer uma admiração profunda pelo trabalho uma da outra. E o respeito pelo trabalho uma da outra.
O Karim teve essa sensibilidade, de escolher atrizes que se complementavam, enquanto olhar pro mundo. E o olhar da Carol, em relação ao mundo, faz com que eu admire ela profundamente. O meu trabalho só conseguiu ter algum nível porque ela foi uma pessoa que me jogava pra cima e me ajudava muito.

Carol: É. E vice-versa.

Júlia: Nas filmagens, como a gente não tinha uma a outra, era uma dor muito grande. Porque eu não tinha minha parceira de filme, de construção de filme.

Carol: Todas as cenas que a gente fazia era sobre a ausência uma da outra. Sobre a solidão. Então, tinha uma presença da Julia na ausência dela.

Metrópoles: Vocês filmaram muita coisa que ficou de fora?

Carol: Muita. Algumas coisas que estavam no roteiro, algumas que a gente criou na hora, que o Karim criou na hora. Tem muita coisa fora, sim.

Metrópoles: Imagino que o set deve ter sido um lugar de criação constante.

Júlia: Foi, muito. O Karim ele tem uma coisa de construir e destruir. Esse processo de faísca de criação. Não foi um processo muito racional, tanto é que ele propunha muita coisa de improvisação. A gente recebia o roteiro, ele indicava pra gente não ler o roteiro, a gente recebia as cenas na noite anterior. Então essa preparação teve que ser muito forte pras palavras serem na verdade, as palavras do texto serem na verdade vazadas, já de uma estrutura de personagem muito concreta.

Carol: É. A gente ia filmar cinco da manhã no dia seguinte, e recebíamos às 10 da noite do dia anterior as cenas que a gente ia fazer.

Júlia: Com o texto todo modificado.

Metrópoles: Vocês já tinham assistido ao filme antes da sessão aqui no Festival?

Júlia: A gente não sabia nada que cada uma fez.

Carol: Ver o filme pela primeira vez foi muito impactante.

Júlia: A gente se descobriu vendo o filme, descobriu a trajetória da Eurídice.

Carol: É, eu descobri as cartas da Guida. A gente se emocionou muito.

Metrópoles: O que foi mais forte?

Júlia: Eu acho que ver a Fernanda Montenegro fechar o filme da maneira com que foi montado, pra gente também foi muito importante. Porque é uma atriz brasileira, uma das maiores do mundo, com uma generosidade impecável, abraçou a gente de uma maneira muito humilde.

Carol: Muito generosa.

Júlia: Teve um momento, em que a gente estava ensaiando uma cena, eu e ela, e o Karim organizou, dirigiu e falou pra mim e pra Fernanda, “tá tudo bem? vocês entenderam?” E eu, na minha ingenuidade artística ainda, nervosa, falei “sim, entendi”, e ela na mesma hora falou “não, eu não entendi nada, mas eu vou tentar dar o meu melhor”. A Fernanda ela tem essa capacidade de ensinar. E aprender. Ela tem 89 anos e ela tem um olhar de “eu estou tentando”…

Metrópoles: O filme também tem várias crianças atuando, como foi trabalhar com elas?

Carol: Foi ótimo, foi divertido. A gente teve algumas preparações, pois essas duas mulheres não queriam ter filhos… A gente criou uma coisa pra não ficar muito agressivo.

Júlia: Mas é gostoso ter criança, ainda mais que era um filme tão denso, no set inclusive. Um filme tão difícil, a gente ficava tanto tempo em personagem, a gente não podia falar com ninguém da equipe, a gente tinha que ser chamada por nome de personagem, é toda uma estrutura pra proteger a gente, colocar a gente em presença de concentração, que quando chegavam as crianças, o sorriso, a gritaria… Aquilo gerava uma leveza!

Metrópoles: Falando nesta temática mais pesada do filme, é importante notar que, apesar dele se passar nas décadas de 40 e 50, ele fala muito sobre a repressão atual à mulher…

Carol: O paralelo do filme, o que a gente tá vivendo hoje, de um atraso absurdo, de falas muito violentas do governo em relação à mulher… O corpo da mulher ainda é muito objetificado, a relação toda de não decidir sobre sua própria vida, fincado em nosso útero a bandeira do estado, a bandeira da igreja, a bandeira da moral. Ainda temos muito a andar, né?

Júlia: Como atrizes, em nenhum momento ficamos presas a uma construção de personagem de época.

Carol: Eu me lembro que a gente viu um vídeo, por exemplo, de mulheres com mais ou menos 90 anos falando sobre a sexualidade delas. Perguntaram pra elas sobre a primeira vez, sobre masturbação. E é muito louco ver essas mulheres falando, porque uma delas falou “ah, eu nunca tinha visto o corpo de um homem, um homem nu na minha frente, e na lua de mel ele fez oito vezes”, ela falou assim. E isso vem com um peso na gente, porque hoje pelo menos eu posso escolher casar ou não, posso escolher ter filho ou não, ainda que julgada… em algumas regiões…

Júlia: Da onde a gente veio, né?

Carol: Da onde a gente veio, que é São Paulo e Rio de Janeiro. Eu acho que o Brasil é gigante, o mundo então, nem se fala. Mas eu acho que a gente andou em alguns sentidos e que a luta tem que ser ainda maior.

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