Novo centro antigo: Setor Comercial Sul é oásis da balada em Brasília

O local, ocupado culturalmente nos últimos meses, oferece programação variada e vê a criminalidade cair

atualizado 02/08/2017 10:37

Tomás Faquini/Divulgação

A noite no Setor Comercial Sul (SCS) começou aos poucos. Um produtor aqui e outro acolá promoviam atividades culturais no espaço que recebe 200 mil pessoas por dia. A cada balada, o novo point conquistava os brasilienses. Agora, semanalmente, festas de pequeno, médio e grande porte ocupam o centro de Brasília.

A vida alternativa da capital é no SCS. De quinta a sábado, agitos variados se espalham por becos, estacionamentos e lojas. Tem show, balada e roda de samba. Aos poucos, o centro de Brasília reproduz fenômeno ocorrido na Augusta, em São Paulo, e na Lapa, no Rio de Janeiro. Baladas dominam as ruas e afastam a criminalidade.

O Criolina, por exemplo, passou a promover festas para 2 mil pessoas no SCS. O DJ Pezão, um dos integrantes do coletivo, define o espaço como o “futuro centro antigo”.

É a paisagem brasiliense que mais lembra uma cidade, com becos, grafites, prédios altos. Cenário perfeito para festas

Pezão
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As festas do Criolina no SCS promovem uma sensação diferente. Em espaços apertados, milhares de baladeiros se espremem entre prédios. Nas fachadas, VJs projetam imagens psicodélicas e referências à capital. Bares e banheiros escondem-se em subsolos. No dia 12 de agosto, o coletivo volta aos becos em um festival com 15 atrações.

Diálogo
Outro coletivo também atua para encher de vida o centro que já foi uma cracolândia. O Labirinto, formado pelo trio Caio Dutra, Rafael Sebba e Felipe Daher, promove diálogo entre produtores culturais, comerciantes e moradores.

“Respeitamos quem já está aqui: condôminos, pessoas em situação de rua, garotas e garotos de programa, explica Caio. O Labirinto atua facilitando a realização das festas, sobretudo resolvendo questões burocráticas. As pessoas estão perdendo o preconceito com o SCS”, diz Rafael.

O projeto Q Cultural (ex-Quinta Cultural) também foca na aproximação com a comunidade. Produzido em parceria com a revista “Traços” — publicação comercializada por moradores de rua —, o evento recebe, semanalmente, 600 pessoas.

O Espaço Cultural Canteiro Central também possui programação semanal: às terças, teatro; quinta, sexta e sábado, shows e baladas são as apostas.

Viva a música
A Lei do Silêncio é hoje motivo de grande discussão na cidade. Governo, baladeiros e caseiros tentam chegar a um acordo sobre o nível de ruído tolerável. No SCS, isso passa longe de ser um problema.

Durante a noite, os prédios de escritório ficam vazios. Portanto, o som alto das picapes não incomoda ninguém. “As áreas residenciais estão em conflito com os produtores e bares.”

Guilherme Reis, secretário de Cultura do DF, apoia o uso do SCS como forma de driblar a rigidez da legislação. “Apoiamos a ocupação dos centros da cidade com programação musical e artística. São ações que buscam modernizar a Lei do Silêncio. Precisamos de um centro vivo”, avalia.

Sai o crime, entra a cultura
A ocupação do centro da cidade é vista com bons olhos também pela Secretaria de Segurança Pública. O subsecretário de Operações Integradas, Leonardo Sant’Anna, coloca que a revitalização do local trouxe uma redução na criminalidade, principalmente, no uso e tráfico de drogas.

Divulgação
Puerto Madero: região foi revitalizada pela ocupação cultural

 

É algo que também ocorreu em outras regiões do mundo, como Puerto Madero, em Buenos Aires. O Estado se faz presente, facilitando o lazer e a cultura. Isso afasta o crime do local

Leonardo Sant'Anna

Os dados refletem essa melhoria na sensação de segurança. Em 2015, foram registrados oito homicídios na região. De janeiro de 2016 para cá, quando a ocupação cultural ganhou força, não se soube de nenhum caso. Ocorrências de uso e tráfico de drogas também tiveram redução expressiva: de 130 casos para 80.

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