Um dia no decadente Hotel Nacional, que foi ícone de hospedagem no DF

Reportagem hospedou-se no edifício que recebeu a rainha Elizabeth II em 1968 e está sendo leiloado pela segunda vez

atualizado 18/11/2018 15:38

Igo Estrela/Metrópoles

Na época quando a capital federal era construída, no desabrochar dos anos 1960, ganhou um edifício de concreto armado que se tornou reduto da alta classe, por onde passaram celebridades, personalidades internacionais e figuras políticas. Decorridas algumas décadas, o Hotel Nacional continua enraizado no coração de Brasília, mas já não é o mesmo. Recebe hóspedes com menos poder aquisitivo, o lobby tem pouco movimento e nem a famosa piscina conta com a badalação de outrora.

Contrariando a vontade dos proprietários, da família Canhedo, o hotel está sendo leiloado para o pagamento de dívidas de outra empresa e pode ser adquirido até o dia 27 de novembro por R$ 92 milhões, metade do valor de avaliação. A suíte presidencial, a qual em 1968 hospedou a rainha da Inglaterra, Elizabeth II, virou residência de um político que protagonizou um dos maiores escândalos de corrupção do Brasil: o ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB), preso em 2014 no processo do Mensalão, pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. 

Inaugurado em 1961, o Hotel Nacional tem 10 andares e 347 apartamentos distribuídos em 43 mil metros quadrados. Também fazem parte da extensa lista de hóspedes ilustres: os ex-presidentes dos Estados Unidos Jimmy Carter e Ronald Reagan; o ex-presidente francês Charles De Gaulle; e a ex-primeira-ministra da Índia Indira Gandhi.

Por anos, moraram no icônico prédio vários deputados federais e senadores. Atualmente, segundo funcionários, os principais hóspedes do hotel são políticos “menos poderosos” de outras cidades. Sindicalistas também costumam dar as caras no empreendimento, mas geralmente ficam hospedados apenas durante a semana. Com a mudança no perfil da clientela, as festas de gala deram espaço para eventos corporativos.

Glamour no passado
Na véspera do Dia da Proclamação da República, o Metrópoles hospedou-se no imóvel do Setor Hoteleiro Sul e circulou por seus andares durante 24 horas de estadia. A experiência mostra que o lugar, o qual ainda guarda boa parte da mobília de inauguração e muitas histórias, deixou o glamour no passado. 

O check-in foi feito por volta do meio-dia da quarta-feira (14/11), no balcão da recepção, sem a dificuldade que se espera em véspera de feriado nacional. O valor pago por uma diária foi R$ 165, preço maior que o da reserva on-line, a partir de R$ 150 para um adulto. No Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, ao qual o Hotel Nacional já foi comparado, uma diária na mesma data custa pelo menos R$ 1.895.

Na saída de um dos quatro elevadores sociais do edifício, surge um cenário que se replica do 1º ao 10º andar: um pequeno hall com móveis antigos e quadros antecede o corredor que leva a 34 apartamentos – no 9º, onde fica a suíte presidencial, são apenas 24. Um aparelho de polir sapatos também figura no ambiente, mas apenas um funcionário foi visto fazendo uso dele.

Cada andar tem um carpete com padrão diferente. O do 6º tem estampa bege, com fundo verde-musgo. O caminho até os quartos é escuro. As paredes são todas revestidas com madeira, e as luzes acendem-se em blocos, à medida que o hóspede avança no trajeto até a acomodação. Ao chegar à suíte escolhida, de número 618, o cartão magnético providencia a abertura da porta para um quarto bem-arrumado.

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À primeira vista, a televisão LCD denuncia que ali não cabia tecnologia anos atrás. O aparelho fica em cima de um frigobar marrom da antiga marca Prosdócimo, adquirida pela Electrolux na década de 1990. Só há tomadas disponíveis longe da cama, perto de uma robusta penteadeira, na qual o roteador de internet encontrou espaço. No mesmo móvel, um folheto do hotel classifica o local como “tradicional e moderno”.

O banheiro privativo, uma das principais reclamações em sites de hospedagens que fazem reservas on-line, não é nada luxuoso. Além de o espaço ser pequeno, os itens de higiene não são da melhor qualidade. Ao lado do cômodo, o closet abriga o cofre eletrônico, que não foi utilizado.

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De novo na parte de baixo, após idas e vindas de elevador pelo edifício, uma grande árvore de Natal abarrotada de enfeites e pisca-piscas leva um pouco de vida ao lobby, que já foi frequentado por famosos. As portas giratórias da entrada, antes sensação, não são mais usadas. Durante a quarta-feira (14/11), os conjuntos de poltronas e sofás do ambiente foram ocupados por poucas pessoas.

A trilha sonora de fundo era toda em inglês, de sucessos dos anos 1970 em diante a hits mais modernos. Segundo um garçom do hotel, um pendrive com a seleção é colocado para tocar diariamente. Nenhuma música brasileira foi ouvida ao longo da hospedagem de 24 horas.

Por volta das 21h, no jantar, havia mais funcionários do que clientes no Coffee Shop, o atual restaurante da piscina. Uma das mesas da área externa, próxima ao balcão onde se serve cafés e doses de bebidas alcoólicas, fica reservada para o vice-presidente do hotel, Wagner Canhedo Azevedo Filho.

Pouco movimento
No cair da noite, as luzes dançantes da boate Nacional Music Hall cruzavam-se sem muitos obstáculos. As mesas redondas, acompanhadas por cadeiras acolchoadas, ficaram vazias. Poucas pessoas passaram por lá, além do DJ. No lado oposto do hotel, o Scotch Bar tinha o mesmo movimento.

De volta ao quarto, a noite é confortável na cama, espaçosa, com lençol, colcha, edredom e quatro travesseiros disponíveis. Mas os barulhos do ar-condicionado central e do motor do frigobar, que parecem ter décadas, atrapalham o sono.

O dia nasceu e um café da manhã farto era servido no Coffee Shop. Em meio a conversas alheias, alguns comentavam sobre a venda do hotel. O banquete matinal levou 120 hóspedes ao local, conforme a lista em posse dos funcionários na entrada. Com o dia ensolarado, a piscina também recebeu alguns mergulhos.

A suíte real
Em quase todos os andares, dois extremos dos corredores onde ficam os quartos do hotel terminam com espelhos. No 9º, o lado direito leva a uma porta dupla. Duas equipes de camareiras que passaram por lá enquanto a reportagem visitou o piso não imaginavam que aquele quarto, a suíte presidencial, recebeu a rainha da Inglaterra, Elizabeth II, em novembro de 1968, embora haja uma placa no hall de elevadores do hotel em homenagem à visita. “Que rainha foi essa?”, perguntou uma delas. “Sei não”, respondeu a colega.

Igo Estrela/Metrópoles
Porta da suíte presidencial, no 9º andar

 

Da rainha ao deputado
Depois de bater algumas vezes na porta, sem sucesso, surgiu a informação de que uma pessoa morava nas acomodações, mas não estava no hotel. Os funcionários que trabalham no andar não são autorizados a entrar no quarto para fazer a limpeza e não sabem que quem ocupa o aposento, desde 2016, é o ex-deputado federal Roberto Jefferson. Naquele ano, o político teve a pena perdoada após a condenação no caso do Mensalão.

Atual presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Jefferson também foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) em 2018 por suposto envolvimento num esquema de corrupção no Ministério do Trabalho.

Aos 65 anos, o advogado não costuma frequentar a piscina nem as demais áreas comuns do hotel. Quando está na suíte, o serviço de quarto é feito apenas por um funcionário escolhido por ele. “É um garçom que conhece o jeitinho como ele gosta das coisas”, conta um colega.

Por telefone, Roberto Jefferson disse que morou no Hotel Nacional quando era deputado anos atrás. De volta ao edifício, agora na suíte presidencial, o político disse que a escolha nada tem a ver com a passagem da rainha. “É o maior quarto do hotel. Antigo, mas é confortável”, disse.

Sobre o leilão, afirmou não saber se vai continuar na acomodação caso o hotel seja vendido. A permanência dele está condicionada a um acordo com o atual dono. “Tenho uma condição especial”, revelou.

Igo Estrela/Metrópoles
Visita da rainha da Inglaterra, Elizabeth II, em 1968, foi registrada em placa

 

Leilão indesejado
O Hotel Nacional de Brasília ainda não recebeu nenhum lance no leilão realizado por determinação da 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central de São Paulo. A disputa tem apenas dois participantes habilitados a fazerem propostas, mas a página on-line na qual ele é vendido já registrou quase 5 mil visualizações.

De acordo com o edital lançado pela Justiça paulista em setembro, o hotel é arrendatário do imóvel, que foi considerado parte da massa falida da Petroforte Petróleo LTDA. A empresa já foi uma grande distribuidora de petróleo do país, mas teve a falência decretada em 2001. O valor da venda do empreendimento será usado para quitação de dívidas da antiga distribuidora.

O hotel entrou com um pedido de suspensão do leilão no Tribunal de Justiça de São Paulo, sem sucesso. A liminar foi negada pela juíza Adriana Bertier Benedito no dia 11 de outubro, mas a família Canhedo aguarda o julgamento definitivo da ação judicial.

Antigo dono da também falida Viação Aérea de São Paulo (Vasp) e da Viação Planalto (Viplan), Wagner Canhedo Azevedo adquiriu o hotel da família Tjurs em 1994, na ocasião de um leilão. Desde a compra, ele é sócio majoritário e presidente do Hotel Nacional. O empresário chegou a ser preso, em 2013, por crime tributário praticado em Santa Catarina.

O vice-presidente do hotel, Wagner Canhedo Azevedo Filho, assegurou não haver dívida alguma com a Petroforte e que a compra do hotel pode acarretar uma série de problemas para um possível novo proprietário.

“É a situação mais esdrúxula do mundo. O hotel é nosso. Essa relação de arrendatário era de muito tempo atrás, do tempo da Vasp. É uma empresa colocando um imóvel que não é dela em leilão. Se for leiloado, quem comprar com certeza vai ter uma série de dificuldades. Vai ficar com dinheiro preso, ter problemas de toda a natureza”, declarou.

Canhedo Filho também foi preso, em outubro de 2015, durante a investigação de um esquema de ocultação de bens do Grupo Canhedo.

Arte sobre foto Daniel Ferreira/Metrópoles

Desinteresse
O hotel foi anunciado a R$ 185,2 milhões no começo do leilão, aberto pela primeira vez no dia 15 de outubro. Como não houve manifestação dos interessados, o valor caiu pela metade e o hotel pode ser arrematado por R$ 92,6 milhões. A compra pode ser feita até as 15h do dia 27 de novembro.

Estão incluídos na venda todos os bens móveis do hotel, de utensílios de R$ 1, como alicate e bacia, a três portas de aço que somam R$ 273 mil. Pinturas do artista italiano Domenico Serio Calabrone avaliadas em R$ 13 mil também integram o patrimônio.

A diretora do hotel, Vanessa Watanabe, não quis conversar com a reportagem por telefone nem pessoalmente. Também não autorizou que os funcionários dessem entrevistas.

Perguntado sobre o clima a respeito do leilão, um dos mais antigos empregados admitiu certa tensão. Outro, que está lá há mais de 20 anos, acredita em mudanças. “Ouço isso há muito tempo. O que tiver que vir, vai vir”, afirmou.

Os empregados mencionaram que o hotel passa por situação financeira difícil e relataram “mais cobrança em relação à contabilidade” nos últimos tempos.

Onde tudo aconteceu
As irmãs jornalistas Marlene e Graciosa Galeazzi relembram histórias que viveram e presenciaram sob o teto do Hotel Nacional. Durante as décadas de 1960 e 1970, houve o auge dos bailes de gala, frequentados pela alta sociedade de Brasília. O lugar também era ponto de encontro para namorados e escondeu muitos segredos, como relacionamentos extraconjugais.

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Marlene Galeazzi, que se considera uma “memória viva da cidade”, esteve no Hotel Nacional quando a rainha Elizabeth II chegou para se hospedar, em 1968. Na época, como não havia estrutura de embaixada em Brasília, a monarca precisou ficar no hotel. A bagagem, baús enormes e gastos, chamou atenção de quem presenciava o momento histórico.

Outra curiosidade está relacionada à vinda do general francês Charles de Gaulle. Com quase dois metros de altura, uma cama precisou ser feita para que ele ficasse confortável durante a hospedagem. Depois, o móvel teria sido doado a um garçom do hotel que tinha filhos pequenos.

Sob o céu de Brasília tudo é possível. E sob o telhado do Hotel Nacional, o possível e o impossível aconteceram, do céu ao inferno

Marlene Galeazzi, jornalista

A boate Tendinha ficava onde hoje funciona a Nacional Music Hall, perto do hall dos elevadores do hotel. “Para descobrir com quem andavam os políticos, era só aparecer lá”, contou Marlene.

As melhores festas eram realizadas nos salões Azul e Vermelho, que estavam fechados durante a hospedagem da reportagem. Houve desfiles Glamour Girl, e fantasias premiadas do Carnaval do Rio de Janeiro foram levadas algumas vezes para o hotel.

“Me marcou muito uma apresentação do Sérgio Mendes com orquestra, numa festa de gala. Também passei minha noite de núpcias, há 40 anos, no hotel”, contou Graciosa.

Referência
Marlene – quem não revela a idade – recorda que o hotel era uma das principais referências de hotelaria na época. “Era tudo muito lindo. O atendimento, a comida. Era muito glamour. O Hotel Nacional está para Brasília como o Copacabana Palace está para o Rio de Janeiro, mas com mais visitas ilustres”, relatou.

A partir da década de 1990, os eventos começaram a ficar escassos e o hotel foi deixando de ser o que era ao longo dos anos. Hoje, a área da piscina é a que mais conserva semelhança com os tempos áureos, mesmo sem muito movimento. A cordialidade dos funcionários também permanece.

As irmãs Galeazzi, que frequentaram o local recentemente, ficaram decepcionadas com a atual estrutura. “Nada sobrou dessa época de glamour. Me deu uma tristeza ver um espaço que foi tão significativo para várias gerações, em termos de elegância e lazer, ter entrado nessa decadência. Eu senti tristeza por ter chegado nesse ponto”, comentou Graciosa.

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