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Seis meses antes de uma composição descarrilar, na manhã de quarta-feira (28/2), em um relatório entregue à Companhia do Metropolitano do Distrito Federal (Metrô-DF), um piloto “rogou” por respostas e medidas emergenciais para a manutenção em trilhos do transporte. O profissional descreve que a estrutura está deteriorada.

De acordo com ele, os problemas na via permanente – base da armação na qual passam os trens – podem causar “perda de segurança, redução da disponibilidade, restrições de uso, fadiga do material rodante e desgaste nos trilhos”. Além de atribuir as danificações à falta de manutenção.

Embora a ocorrência registrada em 31 de agosto de 2017 tenha sido emitida em Águas Claras, não está claro se o documento refere-se a um trecho específico.

O piloto alerta que os estragos são evitados “quando se tem a manutenção preventiva e preditiva feitas de forma constante”, como inspeção visual, verificação de trincas, substituição de trilhos, troca de dormente, socaria de brita, entre outros.

“Segundo levantamento de dados”, cita ainda, ocorreu em 2011 a última manutenção corretiva feita com esmerilhadeira e socadeira de britas – equipamentos específicos para o meio de transporte sobre trilhos.

Ocorre que todo esse acompanhamento sistemático da evolução de degradação da geometria da via, por hora, parece não estar sendo levado com seriedade ao setor competente, tendo em vista sacolejos laterais do trem, bem como oscilações verticais perceptíveis aos usuários e pilotos."
Trecho do relatório de ocorrência registrado por um piloto do Metrô-DF

Por fim, ele frisa: “Com tal situação, nos vemos à beira de um verdadeiro colapso da via permanente do Metrô-DF”.

Em relatório, piloto descreve problemas e consequências de desgaste dos trilhos by Metropoles on Scribd

 

Perigo
O diretor do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Transportes Metroviários do Distrito Federal (SindMetrô-DF), Leandro dos Santos, alerta que os trechos mais críticos são as curvas entre as estações Shopping e Asa Sul; Estação Feira e Shopping; e de Ceilândia Sul. 

Ele revela que problemas relacionados à manutenção insuficiente ocorrem pela precariedade do sistema, falta de planejamento e de investimento. “Existem equipamentos que outros metrôs do mundo, inclusive o de São Paulo, referência na área, têm, e o DF, não. Sem a socadeira, responsável por nivelar o cascalho e os trilhos, e a esmerilhadeira, que retira os relevos do trilho e alinha, esse trabalho, hoje, é feito de forma manual e precária”, destaca. 

Os desgastes na estrutura que possibilita o deslocamento dos vagões do metrô podem ocasionar acidentes graves. “Se sair do trilho, como é pesado, descarrilha e pode tombar”, avalia.

O diretor do Departamento de Operações e Manutenção do Metrô-DF, Carlos Alexandre da Cunha, disse que, a partir do conhecimento do relatório, o órgão fez a análise técnica para verificar se a manutenção seria necessária. “Os trechos que apresentaram desgaste foram reparados ainda no ano passado”, assegurou.

Susto em Águas Claras
Na manhã de quarta-feira (28), um trem descarrilou na chegada à Estação Arniqueiras, sentido Plano Piloto. Não havia passageiros no momento do acidente, que ocorreu na zona de manobras, porque a profissional responsável por guiar a composição percebeu algo errado e pediu a evacuação.

A retirada dos passageiros antes do episódio foi guiada por agentes de segurança do Metrô-DF. Um empregado da categoria disse ao Metrópoles, porém, que somente a contratação de novos profissionais para reforçar o quadro efetivo poderá resguardar a segurança dos usuários caso um grave acidente ocorra.

Com a liberação de crédito de R$ 101,7 milhões, na quarta (28), o GDF agora tem o recurso para fazer as nomeações de aprovados em concursos. No entanto, o governo não informou se os metroviários serão contemplados.

Por conta do problema, o metrô funcionou de forma parcial na capital da República. A fim de facilitar a volta à casa, 11 ônibus foram disponibilizados para levar passageiros gratuitamente entre as estações Arniqueiras e Águas Claras. Mas a quantidade não foi suficiente e houve empurra-empurra.

A força-tarefa para içar os vagões descarrilhados e rebocá-los à garagem trabalhou durante a madrugada.

Conforme informou Carlos Alexandre da Cunha, dois trens apresentaram falhas no freio durante o trajeto. “Por isso, a composição teria avançado sobre o para-choque que delimita a área, e os vagões saíram dos trilhos”, esclareceu.

Veja vídeo: