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O drama de Antônio Carlos Silva Sousa, da mulher e dos filhos, que faltavam a aulas na Escola Classe 3 de Ceilândia Norte por não terem o que comer, está perto do fim. Após o Metrópoles contar a história, brasilienses solidarizaram-se com as dificuldades da família e mobilizaram-se para ajudá-la. Na segunda-feira (5/11), Antônio recebeu, segundo disse, “uma das melhores ligações de toda sua vida”: foi chamado para uma entrevista de emprego.

Antônio vai trabalhar no lava a jato de um posto de Samambaia. “O dono pediu para eu ir lá nesta terça [6]. Vamos conversar mais, e me pediu que tirasse a Carteira de Trabalho para que eu seja fichado”, comemorou.

O ex-ambulante vendia água, doces e salgadinhos próximo à Feira de Ceilândia, mas perdeu o carrinho e toda a mercadoria durante uma ação da Agência de Fiscalização do Distrito Federal (Agefis), que apreendeu o material.

Até então, a família vivia com os pouco mais de R$ 1 mil do trabalho de Antônio, o suficiente para pagar o aluguel, comprar comida e quitar as despesas da casa. A partir daquele momento, ele passou a catar latinhas pelas ruas da cidade e em portas de grandes eventos.

Doações
Segundo Antônio, a família “está muito feliz com a solidariedade que vem recebendo”. Além do convite para o novo emprego, ele, a mulher e os filhos ganharam doações de alimentos de várias pessoas. “Nunca imaginei que isso aconteceria na minha vida. Não podemos abaixar a cabeça para nada. Só tenho a agradecer, estamos muito felizes.”

A defensora pública Brunna Lucy foi uma das pessoas que se comoveram com a história. Ao saber das dificuldades, reuniu amigos e decidiram, juntos, ajudar os estudantes da Escola Classe 3 de Ceilândia. Ela e a mãe, Lucine Bezerra, que estudou na unidade, foram fazer a entrega de 30 cestas básicas na manhã dessa segunda (5/11).

“Vi a reportagem e fiquei muito emocionada, pois estudei em escola pública, então sei das dificuldades. Comecei a me comunicar com os amigos em grupos do WhatsApp e em poucas horas conseguimos arrecadar R$ 1,3 mil para comprar as cestas”, conta Brunna.

De volta às aulas
Após a repercussão, as crianças já voltaram a frequentar as aulas. O fato foi comemorado pela professora da unidade Keila Oliveira, uma das responsáveis por organizar a campanha para ajudar os pais a conseguirem dinheiro para alimentos e aluguel. “Estão bem, sentadinhos, fazendo a tarefa. Bem-alimentados, graças a Deus”, contou a docente ao Metrópoles.

Ao ouvir da mãe dos meninos que as crianças estavam faltando aulas por não terem comida no almoço, Keila mobilizou os funcionários da escola para contribuírem com o que pudessem para a família. O valor arrecadado foi suficiente para comprar um botijão de gás, alimentos e pagar um mês de aluguel, que estava atrasado.

“Provação”
Quando o filho caçula perguntou a Antônio o porquê de eles não terem as coisas, o coração do pai chegou a doer, conta o ambulante. “Ele ia visitar os coleguinhas e chegava em casa perguntando: ‘Papai, por que meus amigos têm tanto brinquedo, comem tudo que querem, e a gente não tem?’”

Sem dinheiro para pagar aluguel, a família chegou a morar por dois meses dentro de um carro. Para ter a mínima sensação de segurança, pai, mãe e os dois filhos instalaram-se num posto de gasolina próximo à entrada do Lixão da Estrutural, onde tomavam banho e viviam de doações.

“Foi uma fase muito difícil das nossas vidas. O Conselho Tutelar até quis tirar os meus filhos de mim. Eles são a única coisa que tenho. Tive de implorar para não os levarem, mas a mão de Deus tocou no policial que estava com eles, e o agente pediu para deixarem os meninos comigo. Podem tirar qualquer coisa de mim, minha casa, dinheiro, tudo, mas meus filhos não”, emociona-se Antônio.

A família conseguiu alugar uma casa, mas agora terá que deixar o imóvel. Joyce, Antônio e os filhos serão despejados da residência em Ceilândia Sul. Com atraso de três meses de aluguel, além de contas de água e luz não pagas, o proprietário perdoou os valores atrasados, mas pediu a eles a desocupação da casa de fundos onde vivem.

A situação difícil da família já tirou uma filha de Joyce Priscila Sousa, 28 anos, mãe das crianças. Aos 17, quando teve a primeira menina, ela não possuía condições de criá-la e perdeu a guarda. Mais de uma década depois, o sonho de Joyce é reencontrar filha. “Foi muito doloroso. Espero, do fundo do coração, poder dar outro abraço nela.”