Socos e xingamentos. Profissionais de saúde vivem rotina de violência
Dez profissionais de saúde foram vítimas de agressões físicas e verbais enquanto cuidavam de pacientes no DF nos últimos 6 meses

Pelo menos 10 profissionais de saúde foram vítimas de agressões físicas e verbais enquanto cuidavam de pacientes no Distrito Federal nos últimos seis meses. Diante da onda de violência, médicos, enfermeiros e técnicos trabalham com medo.
O levantamento foi produzido pelo Sindicato dos Auxiliares e Técnicos em Enfermagem do DF (Sindate-DF). Capítulos de violência foram registrados no Paranoá, Estrutural, Santa Maria, Vicente Pires, Samambaia, Asa Norte, Taguatinga, Ceilândia e Recanto das Emas.
Na segunda-feira (3/1), uma enfermeira levou um murro na boca e acabou arranhada pela acompanhante de uma paciente na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Recanto das Emas. Pedindo o anonimato, ela conversou com o Metrópoles. “Estou me sentindo muito vulnerável“, desabafou.
Veja a enfermeira agredida:
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles DFO caso foi registrado na 27ª Delegacia de Polícia (Recanto das Emas). A acompanhante cobrava rapidez no atendimento, mas a UPA padecia com a falta de médicos. A mulher desferiu um murro contra o rosto da enfermeira. Um segurança interviu, mas uma confusão se instalou na UPA.

Receba no seu email as notícias de Metrópoles DF
Frequência de envio: Diário
Ver todas“Eu estou tentando assimilar tudo isso que aconteceu. Eu sou negra. Já passei por situações de racismo, que, infelizmente, acontecem. A agressão verbal, em geral, a gente vê constantemente. Mas essa situação de agressão física nunca tinha passado. É um trauma grande”, lamentou.
A enfermeira está com lesões na boca. A profissional recebeu um atestado de 5 dias para se recuperar. A acusada negou as agressões na delegacia. Segundo boletim de ocorrência, a mulher chegou xingando a gerente da UPA, chamando-a de “jararaca”, “vadia”, “pilantra” e “mentirosa”.
Em setembro de 2021, um homem de 70 anos socou o rosto de uma técnica de enfermagem na Unidade Básica de Saúde (UBS) 1 de Vicente Pires. Segundo a profissional de saúde, o agressor ainda chamou-a de “filha da puta“. Ele cobrava prioridade no atendimento.
https://youtu.be/qsPfKLZeAiE
Xingamentos
Ainda em setembro de 2021, na Unidade Básica de Saúde (UBS) 1 do Paranoá, um paciente foi preso depois de chamar uma servidora da Secretaria de Saúde de “vagabunda”, mandá-la “tomar no cu”, mostrar o dedo do meio e afirmar que ela era “petista”. A profissional de saúde havia pedido para o agressor usar máscara
Novos episódios de violência foram registrados em outros pontos da rede pública. Em outubro, uma servidora do Centro de Atendimento Psicossocial (Caps) de Samambaia foi agredida física e verbalmente por uma paciente e pelo marido dela.
Segundo o diretor do Sindate, Newton Batista, por falta de resposta efetiva do governo, os episódios de violência viraram rotina na rede pública. “Isso é o oposto da valorização dos servidores e profissionais de enfermagem. A categoria trabalha com pavor”, alertou.
Êxodo
Conforme o relato de Batista, diante da escalada de agressões, profissionais estão começando a abandonar a profissão. Pelas redes sociais, o deputado distrital Jorge Vianna (Podemos) cobrou o fim das agressões.
“E temos o problema da subnotificação. Muitos gerentes de unidades não registram ocorrência ou dizem para os servidores não procurarem a polícia após as agressões. Eles têm receio dos casos arranharem a imagem da rede. Mas não é o caso. As pessoas estão sendo agredidas. Vão esperar algo pior acontecer?”, ponderou.
Por meio da assessoria de imprensa, a presidente da Comissão de Educação, Saúde e Cultura (CESC) da Câmara Legislativa, deputada Arlete Sampaio (PT), também comentou a onda de violência na rede pública. A parlamentar pretende cobrar providências.
“Em razão das mazelas e das falhas do sistema de Saúde, as pessoas, por desespero ou desinformação, acabam culpando os trabalhadores pelos inúmeros problemas encontrados. Mas, independentemente disso, é obrigação da Secretaria de Saúde do DF garantir a segurança de seus servidores. Vamos cobrar isso do GDF por meio da Câmara Legislativa”, assinalou, em nota enviada ao Metrópoles.
Outro lado
A reportagem entrou contato com a Secretaria de Saúde sobre a questão. A pasta lamentou os episódios.
Leia a nota completa da pasta:
“A Secretaria de Saúde informa que não foi registrada nenhuma agressão a servidor por meio da Ouvidoria da Pasta em 2021. Esses casos costumam ser registrados em boletins de ocorrência, diretamente com as autoridades policiais.Desde os lamentáveis episódios ocorridos no último ano, a secretaria tem adotado uma série de medidas para coibir essas práticas nas unidades de saúde do Distrito Federal, tais como aumento da segurança, conversa dos gestores com os usuários e orientação sobre o atendimento adequado a cada caso.
A Pasta lamenta que, em seus locais de trabalho, servidores sejam agredidos física ou verbalmente, e ressalta que desacato a servidor público no desempenho de suas funções pode configurar crime, previsto no código penal”
O Metrópoles também entrou em contato com Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF (Iges-DF), responsável pelas UPAs e pelo Hospital de Base e o Hospital de Santa Maria. A entidade também se manifestou por meio de nota. Leia abaixo:
“O Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal lamenta muito a agressão verbal e física sofrida pela enfermeira da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Recanto das Emas na manhã desta segunda-feira (3/1) e está prestando todo apoio à colaboradora. A autora da agressão foi a filha de uma paciente que chegou às 10h à unidade e já estava agitada pedindo para que a mãe fosse atendida. A paciente recebeu classificação laranja e foi inicialmente acolhida por uma equipe do Projeto Humanizar e pela própria gerente da UPA. Às 11h53 a paciente foi novamente avaliada pela enfermeira, que verificou que os sinais vitais estavam normais. Nesse momento, mesmo sabendo que o atendimento médico estava próximo, a filha da paciente usou palavras de baixo calão e agrediu a enfermeira, gerando lesões no nariz e na boca da profissional. A enfermeira precisou receber atendimento médico, realizado na própria UPA. A ação rápida da equipe de vigilância evitou a continuidade da agressão. No dia do ocorrido, havia grande demanda de pacientes decorrente do aumento das doenças respiratórias, o amplamente que vem sendo noticiada pela mídia, sendo que a UPA atendeu 180 pacientes, inclusive recebeu pacientes transportados por duas ambulâncias do SAMU. No momento em que a equipe chamou a paciente para ser atendida, a filha recusou o atendimento. A Polícia Militar do DF foi acionada e os envolvidos foram encaminhados à delegacia para registrar Boletim de Ocorrência“.

















