*
 

Viver em Águas Claras, acredite, não tem sido fácil. A cidade já ganhou a pecha de “coxinha”, principalmente por causa dos batedores de panelas, que tocaram o terror nas noites antes e depois do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) ou durante as prisões feitas pela Operação Lava Jato. Mas não só por isso. É que o estilo “coxinhesco” da população local, vira e mexe, aflora em doses nada homeopáticas.

O grupo da Associação de Moradores e Amigos de Águas Claras (Amaac) no Facebook, por exemplo, é um baú repleto de “tretas”. Nele, os mais de 53,6 mil integrantes deparam-se diariamente com rebuliços inusitados, capazes de causar inveja aos autores das séries de comédia mais badaladas da TV norte-americana. Os moradores tratam de problemas comuns a uma cidade: lixo, trânsito, violência, drogas, mato alto e falta de iluminação. Mas o espaço é aberto a outros debates também.

O alvoroço mais recente ocorreu após denúncia feita por uma moradora sobre sexo selvagem (e escandaloso) praticado por um casal vizinho. Segundo a mulher, os momentos picantes entre quatro paredes incapazes de abafarem o som da empolgação dos pombinhos – será que a divisória é de drywall? – têm lhe tirado o sono.

“Ouço tudo, o que falam e até os gemidos, de três a quatro vezes por semana. Sempre por volta das 23h30 ou no meio da madrugada, às 4h30, mais ou menos”, relatou ao Metrópoles a pedagoga Maria Siqueira, 47 anos, autora da reclamação. O “casal espalhafatoso” engrossa a lista de “tretas” expostas na rede social. O grupo da Amaac também reúne casos como “o peidorreiro misterioso”, “Esquadrão da Moda” e “calcinhas na janela”, além da rixa “Areal não é Águas Claras”. Oremos!

 

Na queixa, Maria pediu ajuda aos integrantes do grupo para solucionar o problema. Recebeu centenas de sugestões, críticas e, claro, brincadeiras. “A maioria me apoiou. Alguns foram contra. Houve quem me sugerisse falar com o síndico, bater à porta, interfonar ou tocar a campainha do casal”, narrou.

Apesar das dicas, o impasse parece estar longe do fim, pois ela nem sequer descobriu de onde vêm os gemidos e palavras calientes desses vizinhos.

Eu achava que vinham do apartamento de cima, mas o síndico me disse que lá mora uma idosa com a neta. Ele também me pediu para chamá-lo na próxima vez que eu ouvir os gemidos, para tentarmos descobrir a unidade"
Maria Siqueira, moradora de Águas Claras

O “casal selvagem”, segundo ela, deu o ar da graça pela última vez na madrugada dessa terça-feira (3/7). A reportagem tentou contato com o síndico do edifício onde Maria vive, mas ele não quis se manifestar. O mistério continua. De onde virá tanto amor?

Em outra publicação causadora de polêmica entre os usuários, um morador reclamou do barulho exagerado feito por um vizinho – não nos momentos íntimos entre quatro paredes, mas no banheiro: o homem denunciado estaria peidando demais, como uma “motoca velha”. Gente, aqui cabe a pergunta: esse grupo é sério?

Sigamos em frente, porque agora vamos falar do mundo fashion local…

Você, que mora em Águas Claras e vai até a padaria vestido de bermuda e chinelão, cuidado: o Esquadrão da Moda da cidade pode estar de olho. A brincadeira surgiu após a queixa de um morador sobre o padrão de elegância dos outros habitantes no momento de irem comprar pão fresquinho na “padoca”.

“Sabe o que me desanima? Ir na padaria e ver a deselegância do povo daqui. Sempre de bermuda, camiseta sem manga e chinelão no pé. Vamos adotar um padrão mínimo de elegância?”, escreveu o autor da postagem, em um arroubo de Ronaldo Ésper, Clodovil e Gisele Bündchen.

A reclamação, óbvio, abriu caminho para uma enxurrada de chacotas dos outros participantes do grupo. Eles mencionam supostos vigilantes da moda, que estão à espreita e prontos para alfinetar a vestimenta alheia. “Queria saber o que o personal stylist de padaria acha desse traje de uma menina que encontrei hoje na saída do metrô. Está aprovado o uso de sandálias Havaianas com meias?”, indagou um integrante.

 

“Diante da reclamação de nosso querido vizinho acerca dos nossos trajes para irmos à padaria, resolvi atender ao pleito dele e mudar minha maneira de vestir”, comentou outro. Na sequência, sugeriu a criação do “Semana Águas Claras Fashion PãoWeek”, em referência a um dos principais eventos de moda do Brasil, o São Paulo Fashion Week.

Antes disso, outro alvoroço surgiu por causa de roupa: um morador reclamou de peças – inclusive, íntimas – expostas nas janelas dos apartamentos. “Bateu uma dúvida: se eu quiser comprar peças íntimas, por exemplo, aonde eu vou primeiro? Recorro a uma tradicional loja ou aos vizinhos? E uniforme escolar?”, publicou, junto a foto das roupas penduradas, aparentemente, para secar após lavagem.

A sirene da discórdia
Nenhum desses casos, porém, repercutiu como o campeão de estardalhaço em Águas Claras: a reclamação acerca do barulho das sirenes do Corpo de Bombeiros. No dia 13 de junho, o Metrópoles noticiou o abaixo-assinado feito por um grupo de moradores do condomínio Smart, localizado na Avenida Sibipiruna. Eles entregariam o documento ao comandante do batalhão local, sob justificativa de sustos provocados em crianças e idosos pelos sinais sonoros.

A atitude causou polêmica entre moradores. Nas redes sociais, muitos discordaram da medida e criticaram o abaixo-assinado. Também houve baixa adesão dos habitantes do condomínio. Por isso, o prédio desistiu de entregar o documento à corporação.

Adesão
O bancário Roman Dario Cuattrin, 46 anos, é um dos diretores da Amaac e administradores do grupo. Ele conta que a página do Facebook foi criada para debater problemas de Águas Claras e publicar reivindicações. Apesar disso, os moderadores têm permitido publicações bem-humoradas, para tornar o espaço “mais leve”.

Esse tipo de postagem é bom, porque aumenta a interação e o ingresso dos participantes. Antes do incidente sobre a sirene, a média de adesão era de 40 pessoas por dia. Após o caso, chegou a 200"
Roman Dario Cuattrin, diretor da Amaac

Outro diretor, o empresário Marcelo Marques, 47, acrescentou que, no início de 2017, quando os moderadores começaram a permitir publicações descontraídas, havia “pouco menos de 30 mil” integrantes. Hoje, o número é quase duas vezes maior.

Roman disse que os moradores têm receio de praticar má conduta e isso repercutir negativamente no grupo. Ou seja, a página, na visão dele, contribui para inibir atitudes inapropriadas na cidade. Assim, acaba servindo como uma espécie moderna dos Vigilantes do Peso. No caso, uma subespécie contra sirenes de viaturas, sexo selvagem, calcinhas nas janelas e roupas feias para se ir a padarias. E menos contra batedores de panelas…