Servidores de alta classe perdem milhões em golpe da pirâmide no DF

Rogério Casagrande (foto) utilizou o esquema para lucrar R$ 11,7 milhões. Ele prometia pagar até 7% de juros aos investidores

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atualizado 07/07/2019 8:46

A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) investiga grande esquema de fraude financeira planejado por um técnico judiciário do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT). Rogério Moreira Casagrande, de 42 anos, é acusado de aplicar golpes que somam R$ 11,7 milhões, repassados por pelo menos 10 vítimas – maior parte formada por servidores públicos dos poderes Judiciário, Legislativo e Executivo.

De acordo com as apurações, o suspeito valia-se do cargo para captar investidores, muitos deles colegas de trabalho, além de funcionários com alto poder aquisitivo de órgãos como o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e do governo local (GDF). As vítimas eram seduzidas com a promessa de rentabilidade de 7% sobre o valor investido. O dinheiro, dizia ele, era aplicado em uma empresa especializada na venda de açaí.

Em apenas um dos casos, Rogério Casagrande recebeu depósitos bancários no valor de R$ 3,9 milhões. As ocorrências registradas em diversas delegacias do DF foram centralizadas pela 5ª Delegacia de Polícia (Área Central), que conduz as investigações. O Metrópoles não divulgará os nomes dos envolvidos a fim de não expô-los.

O estelionatário formalizava os golpes por meio de contratos de “constituição de renda”. Para aumentar o faturamento e transparecer uma falsa sensação de segurança, o golpista pagava, por alguns meses, os juros sobre os valores investidos pelas vítimas. Animadas com a alta rentabilidade do negócio, muitas pessoas eram convencidas por Rogério a reverter o faturamento em novos aportes financeiros.

 

Bola de neve

Após os primeiros pagamentos de juros, Rogério Casagrande interrompia as transferências. A partir desse momento, as vítimas já não conseguiam mais ser ressarcidas. A polícia suspeita de que o servidor do TJDFT tenha desenvolvido uma espécie de pirâmide financeira e de que ele usava os novos aportes feitos pelas vítimas para pagar investidores recentes. Em algum momento, a corrente de transações se quebrou e todos amargaram o prejuízo.

Em decorrência dos termos de declaração prestados pelas vítimas na PCDF, o Metrópoles teve acesso ao montante investido por cada um dos servidores públicos captados por Rogério. Um deles depositou três cheques nos valores de R$ 470 mil, R$ 217 mil e R$ 100 mil na conta do técnico judiciário. A vítima recebeu dividendos apenas entre outubro e dezembro de 2018. Depois, o suspeito nunca mais atendeu as ligações.

Outra vítima relata o prejuízo milionário. O servidor público fez depósitos totalizando R$ 2,3 milhões e chegou a receber alguns valores dos juros, mas nunca os 7% firmados no contrato de constituição de renda. Segundo o termo de declaração feito na delegacia, ele afirmou que deixou de ganhar os investimentos em novembro do ano passado. Como nos outros casos, o acusado desapareceu e nunca mais atendeu aos telefonemas.

A reportagem entrou em contato com o TJDFT para obter informações sobre o técnico judiciário. De acordo com o tribunal, Rogério Casagrande foi empossado em 7 de dezembro de 2011 e está afastado do cargo desde 15 de maio de 2017, “para usufruto de licença sem vencimento para tratar de interesses particulares”. Segundo o Portal da Transparência do Judiciário, o servidor recebia R$ 10 mil de salário. Rogério foi procurado pelo Metrópoles por meio de três telefones celulares, mas ele não atendeu as ligações.

Relatos

Com medo de sofrer represálias, três vítimas aceitaram contar seus casos à reportagem a partir de um acordo para manter suas identidades e locais de trabalho preservados. Todos preferiram fazer seus próprios relatos sobre os golpes sofridos. Os textos foram mantidos na íntegra e são reproduzidos a seguir:

“Como já tinha minha confiança, resolvi ajudar. Foi o meu erro”

“Fui convidado por um amigo próximo de trabalho que já estava há algum tempo investindo na empresa de açaí de alguém que ele considerava confiável – uma vez que o Rogério, o dito empresário de sucesso, vinha cumprindo com seus compromissos.

Na época, mais ou menos em agosto de 2016, fui apresentado ao tal empresário, que, usando da confiança que eu sempre tive com meus amigos, me apresentou contrato social com a empresa de açaí, com a qual detinha sociedade com um tal de Cleiton. Ele também mostrou os números mágicos do seu capital de giro, dizendo que chegava a ganhar mais de 100% de retorno, o que justificava a remuneração do investimento, algo em torno de 7% ao mês, juros simples.

Por um tempo, deu certo, mas, no momento em que decidi não mais investir meu capital – já que estava reservado para festa de meu casamento e para troca do apartamento em conjunto com minha noiva, ele me pediu que aplicasse por mais uma vez.

Diante da minha negativa, ele me pediu um último favor: que eu emprestasse meu dinheiro por mais um mês. Como já tinha minha confiança, uma vez que o considerava um amigo, resolvi ajudar, pensando ser um problema passageiro de fluxo de caixa. Foi o meu erro. Nada mais foi devolvido! Percebemos logo depois que o Rogério, usando da empresa da qual era sócio, estava operando uma pirâmide financeira, tomando empréstimos de um para pagar outros. Caímos num golpe rasteiro de alguém que considerávamos amigo.”

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Rogério Moreira Casagrande, de 42 anos, é acusado de aplicar golpes que somam R$ 11,7 milhões
“Finalmente, constatamos que estávamos diante de um bem arquitetado plano de pirâmide financeira”

“Fui apresentado ao Rogério no início de 2017. Alguns amigos já investiam com ele há algum tempo, e me disseram que recebiam um percentual de 7% sobre os valores aportados no capital de giro da empresa distribuidora de açaí. Os contratos eram elaborados, as assinaturas reconhecidas em cartório e, junto com a via do investidor, um cheque caução pelo valor total ao final de quatro meses.

Invariavelmente, não eram resgatados mensalmente o percentual de 7%, e o valor residual era reaplicado quando da renovação, o que gerava uma bola de neve e o montante principal se avolumava cada vez mais. Não tivemos a preocupação maior de investigar a idoneidade da participação do Rogério na sociedade com a empresa, porque ele já havia levado alguns investidores à empresa, apresentado as câmaras frigoríficas de armazenagem do estoque, sem contar com a convivência por anos junto aos servidores do TJDFT, onde ele e sua esposa são concursados.

Recebi mensalmente os rendimentos acordados ao longo de dois anos e, em dezembro de 2018, após várias desculpas e promessas de pagamento, finalmente constatamos que estávamos diante de um bem arquitetado plano de pirâmide financeira, onde os sócios simularam um rompimento da sociedade. O Rogério se desfez de todos os bens em seu nome, inclusive mudando o regime de casamento para separação total de bens, e nos vimos sem ter a quem cobrar a dívida que, no meu caso, supera o valor de 1,5 milhão.”

“Rogério destruiu a vida de muitas pessoas e, hoje, vive bem com o lucro obtido”

Ele tinha o álibi perfeito. Servidor concursado do TJDFT, morador de um condomínio de luxo ao lado do ParkShopping. Com base nisso, esse sujeito com cara de bom moço abordou servidores com uma proposta de investimento extremamente atrativa, cujo rendimento variava de 5 a 7% ao mês. Demonstrava com simplicidade a matemática que encantava a todos.

Ele comprava o quilo do açaí diretamente do estado do Pará por R$ 3,50 e, com a distribuidora que ele havia aberto com seu sócio, revendia para todo o DF por R$ 13, ou seja, um lucro tão grande, que pagar 5% ou 7% para quem investisse era fácil, já que o consumo desse produto virou moda e é sucesso até hoje. Diante disso, em 2016, investi todo o dinheiro que tinha e, mensalmente, resgatava parte dos rendimentos, sendo que o resíduo ficaria para resgatar ao final do contrato assinado por mim e por ele, reconhecido em cartório e com validade de quatro meses.

Ocorre que, antes de acabar o contrato, Rogério Casagrande dizia que a venda do açaí estava tão grande que precisariam comprar mais e mais. Diante disso, ele começou a angariar mais investidores. No meu caso, perguntou se alguém da minha família também queria investir e, como já havia passado 1 ano com ele sempre pagando em dia parte dos juros, alguns familiares e amigos também investiram, vendendo imóveis, resgatando economias de uma vida inteira, acreditando nessa falsa promessa.

Em 2017, em reunião com alguns investidores, percebi que a dívida que ele tinha conosco era mais alta do que o valor da sua empresa, razão pela qual fomos questioná-lo. Com a fala mansa, tranquilo e passando credibilidade, ele dizia que era uma oportunidade e que em breve sairia um empréstimo junto ao Santander, com vistas à quitação dessa dívida que, à época (2017), já estava em torno de R$ 12 milhões de reais.

Em 2018, apesar de continuar pagando parte dos juros, a dívida só aumentava e, a partir do segundo semestre, começaram os atrasos no pagamento. Até que, em novembro de 2018, Rogério já sabendo que estava enrolado disse que em janeiro iria quitar a dívida com todos os investidores, pois o dono de uma empresa iria colocar R$ 18 milhões no negócio. Com essa conversa, ele deu a cartada final, dizendo que havia um lote de açaí com um preço especial e, por isso, pagaria um rendimento de 8,5% no prazo de 30 dias.

Mais uma vez caímos no golpe e, pior, pois nunca mais pagou um centavo sequer. Acuado por todos, Rogério fugiu para o Rio de Janeiro. Depois, voltou dizendo que foi enganado pelo seu sócio. Como consequência, Rogério Moreira Casagrande destruiu a vida de muitas pessoas e hoje, licenciado do tribunal, vive bem com o lucro obtido com os golpes.”

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