PCDF investiga cartórios por empréstimos feitos em nome de servidores

A partir de uma Certidão de Nascimento falsa, organização criminosa conseguia fraudar documentos de identificação oficiais

Júlia Bandeira/Especial para o MetrópolesJúlia Bandeira/Especial para o Metrópoles

atualizado 10/01/2019 9:35

Com a prisão de três membros de uma quadrilha especializada na prática de estelionatos contra instituições financeiras mediante fraude, a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) investiga a participação de funcionários de cartórios em cidades no interior do país como o primeiro passo de um sofisticado esquema de falsificação de documentos usados para aplicar golpes. A Divisão de Falsificação e Defraudação (Difraudes) da PCDF suspeita, ainda, do envolvimento de contatos na deep web para a aquisição de identidades fraudadas.

Tudo começava com a emissão de uma Certidão de Nascimento em cédulas verdadeiras, porém, com informações falsas dos suspeitos. A partir de então, eles conseguiam tirar Título de Eleitor, identidade, Carteira de Trabalho, CPF e até Certidão de Casamento. Esses documentos eram retirados perante os órgãos emissores oficiais, como Tribunais Regionais Eleitorais (TREs), Receita Federal e Institutos de Identificação, que são vinculados às polícias civis dos estados.

Com os documentos emitidos em materiais oficiais, os falsários punham em prática o esquema de estelionato. Eles invadiam o Sistema de Gestão de Pessoas (Sigep) do Ministério do Planejamento, responsável por rodar os contracheques do funcionalismo público federal, e escolhiam alguém entre servidores públicos com altos salários, como auditores. O nome era utilizado para que o grupo solicitasse um empréstimo consignado.

“Com esses dados, eles fabricavam documentos e pediam um empréstimo consignado com uma margem considerável, de R$ 300 mil a R$ 500 mil. Quando o dinheiro entrava na conta dos autores, ele era diluído entre contas de pessoas físicas e jurídicas, que pertenciam aos próprios fraudadores, só que com nomes e dados completamente diferentes”, detalha a diretora da Difraudes, delegada Isabel Dávila.

Ainda segundo a delegada, os criminosos “usavam documentos verdadeiros, mas com dados falsificados. Eles tiravam documentos em vários estados, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, São Paulo, Goiás e Pernambuco, além do DF, e utilizavam essas identificações para aplicar golpes”.

 

 

Lavagem
Fazendo uso da papelada adulterada, a quadrilha abria empresas em vários ramos de atividades para movimentar as contas e lavar o dinheiro adquirido por meio do crime. O prejuízo provocado a apenas uma instituição financeira com gastos em cartões de crédito foi de R$ 1,8 milhão.

Os valores desviados, no entanto, são muito maiores, mas ainda precisam ser quantificados e, segundo a delegada, é possível que mais bancos tenham sido vítimas do grupo, de acordo com os investigadores.

Apesar de os empréstimos ocorrerem em nomes de auditores federais, geralmente aqueles que trabalham em outros estados ou estão em missão no exterior, eram os bancos que assumiam o prejuízo quando constatavam que os empréstimos não haviam sido feitos por seus clientes.

Apenas neste inquérito, que resultou na prisão temporária de três membros, eles irão responder por associação criminosa, falsidade ideológica, uso de documento falso, falsificação documental e lavagem de dinheiro, conforme informou a delegada Isabel Dávila.

Prisão e busca e apreensão
Os mandados de prisão e busca e apreensão cumpridos pela Coordenação de Repressão aos Crimes Contra o Consumidor, a Propriedade Imaterial e a Fraudes (Corf) resultaram na detenção de Ítalo Gomes Carneiro Lamounier, em Águas Claras; Antônio Carlos da Silva Júnior, em Goiânia; e Frank Oliveira Garcia, que já estava preso em virtude dos desdobramentos da Operação Hermes.

Durante as buscas em um dos endereços de Antônio, acusado de ser um dos operadores dos empréstimos consignados, a polícia encontrou 15 cartões de créditoEm setembro de 2018, quando a Hermes foi deflagrada, e Frank foi preso, Antônio confessou que pôs fogo em todas as identidades falsas que possuía.

Segundo a PCDF, o terceiro membro, Ítalo, não se passava por auditor. O papel dele na quadrilha era administrar as empresas criadas pela organização criminosa e movimentar as contas de pessoa jurídica para dar aparência de legalidade ao dinheiro sujo.

Na outra operação que investigou o grupo, a Corf verificou que a quadrilha usava cartões de crédito atribuídos a terceiros para comprar celulares caros e revendê-los na Feira dos Importados. A escolha desse produto era estratégica devido ao alto preço e à liquidez. “Eles compravam até 30 celulares por semana, avaliados em cerca de R$ 6 mil”, diz a diretora da Difraudes.

Operação Ammit
Em agosto de 2017, policiais da 24ª Delegacia de Polícia (Ceilândia) desarticularam uma organização criminosa que atuava de forma parecida, mas especializada em estelionatos e furtos em instituições bancárias. O grupo usava CPFs de pessoas mortas que ainda não constavam como falecidas na Receita Federal.

Com esses números, falsificavam todos os documentos e se passavam pelas pessoas junto às instituições bancárias. Com o apoio do gerente de uma dessas agências, contraíam empréstimos, sacavam eventual saldo disponível e emitiam cartões.

Além do gerente do banco, um ex-agente da Polícia Civil do DF é alvo das investigações. Os dois são considerados líderes da quadrilha.

No decorrer da operação, foram apreendidas dezenas de cédulas de identidade e carteiras de habilitação falsificadas, contratos bancários, cartões de banco e vários apetrechos utilizados para a falsificação de documentos.

A operação foi batizada de Ammit, que, na mitologia grega, significa um demônio devorador de almas.