Ibama sobre universitário picado por Naja: “Evidente conexão com o tráfico”

Documento obtido pelo Metrópoles afirma que existe uma "rede de uso ilegal de animais silvestres" no DF

atualizado 28/07/2020 15:08

Caso Naja de Brasília -   Pedro Henrique Santos Krambeck LehmkulReprodução

Um extenso relatório do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) sobre a Operação Snake, deflagrada pela 14ª Delegacia de Polícia (Gama) com o objetivo de apurar a origem de cobras ilegais no DF, afirma que o caso do estudante de veterinária Pedro Henrique Santos Krambeck Lehmkuhl (foto em destaque) desvelou uma “rede de uso ilegal de animais silvestres”. E “ficou evidente a conexão com o tráfico internacional” de animais.

O universitário foi picado por uma cobra Naja kaouthia que criava como animal de estimação, apesar de a serpente não ser natural de nenhum habitat brasileiro. A suspeita é que a Naja tenha sido trazida para o Distrito Federal a partir de uma licença irregular, emitida por uma servidora do próprio Ibama e que já foi afastada do cargo.

Segundo o documento do instituto, as apurações indicam que o suposto esquema de contrabando não seja recente. “Existem fortes evidências de que parte dos espécimes silvestres exóticas possa ser oriunda de reprodução no Brasil o que […] trata-se […] de situação ainda mais grave.”

Exemplo disso seriam as apreensões realizadas durante a operação. Conforme o texto, foram encontradas uma estufa e um mineral usado como incubador de ovos das serpentes. “Denota que o grupo ou reproduzia ou tentava reproduzir serpentes”, afirma o Ibama no relatório.

Para o órgão ambiental, no entanto, não existe apenas uma organização responsável pelo tráfico de animais. Sem conseguir quantificar, o instituto diz que, apesar de haver diferenças, existem alguns pontos em comum. “Esses grupos se interconectam entre si por meio de alguns de seus integrantes”, afirma.

Confira as imagens divulgadas por Pedro antes do acidente com a Naja:

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Clínica veterinária sob suspeita

A clínica veterinária Exotic Life, na Asa Norte, também entrou no radar do Ibama. Autuada anteriormente por utilizar animais sem origem legal e dificultar a ação fiscalizatória em relação a diversas irregularidades descobertas no estabelecimento, há também o fato de que Pedro foi estagiário do local.

De acordo com o texto, a Exotic Life apresenta “inúmeros animais indubitavelmente ilegais para a manutenção doméstica, tais como Naja, Jararacas do Cerrado e da Amazônia, além de viperídeo (serpente peçonhenta) de outros países”.

A fim de apurar todas essas ligações, o documento sugere que seja realizada uma investigação na clínica para identificar aqueles clientes que possuam espécies ilegais. Outra medida seria identificar, nas redes sociais, usuários que expõem animais da fauna silvestre.

Procurada acerca das afirmações do Ibama, a Exotic Life se limitou a dizer que as denúncias são falsas. “Isso é novidade para nós e as alegações são falsas. O advogado da clínica está se inteirando do assunto. Iremos nos manifestar assim que tivermos acesso a maiores informações.”

Operação Snake

Desdobramentos da Operação Snake, deflagrada para apurar tráfico de animais exóticos na capital, apontaram um suposto plano para obstrução de provas, envolvendo amigos e familiares de Pedro Krambeck.

Veja imagens:

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Policiais civis da 14ª DP passaram a trabalhar no caso tão logo Pedro foi internado, após ser atacado pela Naja. Inicialmente, havia a suspeita de que os fatos teriam ocorrido no Gama, mesma região em que fica localizado o hospital Maria Auxiliadora, unidade de saúde para onde o estudante foi levado e chegou a ficar em coma.

Dias depois, outras 16 serpentes exóticas foram localizadas em uma região de Planaltina. Os animais estavam acondicionados dentro de caixas plásticas deixadas em uma baia de cavalo, numa propriedade rural, quando foi deflagrada a operação da Polícia Civil do Distrito Federal.

A ação mirou amigos de Pedro – entre eles Gabriel Ribeiro, acusado de tentar esconder a Naja e preso na semana passada –, bem como a mãe e o padrasto do estudante, um coronel da Polícia Militar do DF. À época da ação policial, o Metrópoles revelou que o coronel foi visto carregando caixas com diversas cobras no residencial onde a família mora, no Guará. Ele disse não saber o que havia dentro dos recipientes.

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