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Aos 33 anos de idade, em 2015, a fonoaudióloga Manuela Vasques já tinha adiado o desejo de ser mãe para esperar por um período de mais segurança financeira e realização profissional. Quando ela e o marido, Fred Rodrigues, 40, decidiram que era a hora certa para uma gestação, a epidemia de zika surgiu. O casal recuou novamente dos planos de aumentar a família.

“Era um sonho e já existia um planejamento. Mas os relatos sobre a doença na imprensa aterrorizou todas as grávidas. Na verdade, eu não tinha medo de ter zika, mas sim de estar grávida e ter a doença, para meu neném não ser diagnosticado com a microcefalia“, contou.

Um ano depois, em novembro de 2016, o casal teve a notícia da gestação de Igor, que nasceu em agosto do ano passado. “Depois que passou o surto, decidimos tentar novamente e ai, então, tivemos o nosso primeiro filho. Eu estava preparada e mais segura. Graças a Deus deu tudo certo”,  comemorou a fonoaudióloga.

Muitas brasilienses têm histórias parecidas com a de Manoela, segundo o relatório Dados e Indicadores de Natalidade, da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF). Em 2016 e no ano passado, o número de nascimentos ocorridos e registrados no país teve um forte recuo – no DF, não foi diferente.

De acordo com o levantamento, 2016 totalizou 43.313 nascimentos no DF, contra 46.099 em 2015. Aproximadamente 2,7 mil partos a menos de um ano para outro, uma média de sete por dia. Em 2017, o número de nascidos vivos voltou a crescer um pouco e passou para 43.967. Ainda assim, o número representa uma queda de 4,62% em relação a 2015, ou 2,1 mil nascidos a menos.

Zika
Para a médica pediatra Miriam Santos, membro do grupo técnico da Rede Cegonha e coordenadora do Banco de Leite da SES-DF, a principal hipótese para a queda acentuada de partos está relacionado ao zika. Segundo ela, o grande número de casos de microcefalia gerado pela grande circulação do vírus no país levou, à época, parcela expressiva de mulheres a adiarem a gravidez.

Em novembro de 2015, o Ministério da Saúde decretou a epidemia do vírus da zika como situação de emergência em saúde pública de importância nacional. Como consequência disso, as mulheres que faziam gravidez planejada desistiram dos planos"
Miriam Santos, pediatra e coordenadora do Banco de Leito do DF

Em 2017, o ritmo de partos entre as brasilienses já aumentou um pouco. “De uma forma geral, os números de nascidos vivos do DF vêm se mantendo estável. Já foi mais alto há décadas atrás, mas a nossa natalidade está diminuindo. Em algumas regiões da capital, ainda tem uma taxa mais alta, mas a média diminuiu porque a população tem envelhecido”, acrescentou a especialista.

Professor de sociologia da Universidade Católica de Brasília (UCB), Luís Otávio Teles Assumpção, considera que a mudança na taxa de natalidade nacional e do DF já era esperada: não se deve exclusivamente ao zika, mas também a questões demográficas.

“Os casais hoje têm um menor número de filhos. Existe uma tendência nas cidades grandes que aponta a diminuição das famílias tradicionais e o aumento da quantidade de pessoas que moram só e não querem ter filhos porque o mercado de trabalho absorve muito o profissional. Junto a isso, as mulheres têm optado por ter o primeiro filho depois dos 30 anos e não engravidam mais”, detalhou.

Menos brasileiros
Para o ginecologista e professor da Universidade de Brasília (UnB) Antônio Carlos Rodrigues da Cunha, a redução no número de nascidos no país vem ocorrendo de forma mais acentuada nas últimas duas décadas. “Se analisarmos a questão da taxa de natalidade no Brasil desde a década de 60, percebe-se que a média de filhos por mulher era de cinco ou seis crianças. Com o planejamento familiar, entre 2000 e 2010, a taxa de fecundidade foi reduzida em mais de um quinto, passando de 2,38 filhos por mulher para 1,86″, afirmou. 

Segundo ele, as mudanças no perfil demográfico, como o envelhecimento da população e a queda na taxa de fecundidade das brasileiras, já eram indicadas pelo último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

As taxas de natalidade e fecundidade de fato vêm caindo no Brasil, com as mulheres adiando os planos de maternidade e tendo menos filhos. Sem dúvida, há um baixo astral em relação à crise econômica também, mas a tendência é de queda e pode estar associada tanto ao desejo dos casais por não ter filhos, como a vários outros aspectos”, observou Antônio Carlos Rodrigues da Cunha. “Tanto a crise ética moral quanto a questão da insegurança em relação ao futuro do país influenciam”, disse o médico.